“A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (…) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas, mas não posso explicar a mim mesma…”

–  Carroll

 

Quão feliz é o destino de um inocente sem culpa. O mundo em esquecimento pelo mundo esquecido. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Cada orador aceito e cada desejo renunciado

– Alexander Pope

Lies

I think it’s time, we give it up
And figure out what’s stopping us
From breathing easy, and talking straight
The way is clear if you’re ready now
The volunteer is slowing down
And taking time to save himself

The little cracks they escalated
And before you know it is too late
For making circles and telling lies

You’re moving too fast for me
And I can’t keep up with you
Maybe if you slowed down for me
I could see you’re only telling
Lies, lies, lies
Breaking us down with your
Lies, lies, lies
When will you learn

The little cracks they escalated
And before you know it is too late
For making circles and telling lies

You’re moving too fast for me
And I can’t keep up with you
Maybe if you’d slowed down for me
I could see you’re only telling
Lies, lies, lies
Breaking us down with your
Lies, lies, lies
When will you learn

amargamente

E dói. Hoje, amargamente, terminei comigo. Encerrei dentro de mim um processo de auto-flagelação, uma escolha decidida de que as coisas como estão não são como deveriam ser. O livro de lágrimas um dia haveria de terminar: os capítulos mais duros foram suficientes para conceder à protagonista uma chance de redenção.

A dor tem sabor amargo, sabe. Te faz perder tempo. O desenrolar das nossas histórias é natural e enquanto o enredo segue o compasso do relógio, a vida se escreve em linhas tortas. São as palavras que realmente importam, no entanto, muito mais que o número de páginas e de personagens criados. Aquilo que está escrito sobre o que você é, o que você quer, o que você fez, o que você sente e o que você pensa é tão essencial para o fim da história quanto para a sua continuação. Os capítulos se iniciam, se desenvolvem, se cessam… dentro deles dormem silenciosas as diretrizes dos parágrafos futuros. Um futuro grato pelo passado escrito.

Hoje, amargamente, este capítulo de dor teve de se encerrar. Muitas vezes no curso natural da escrita, o fluxo de pensamento é o que dá o tom da história. São ações alimentadas por pensamentos doloridos, versões e versões de um protagonista que anda, bebe, come, beija, narra, guia, vê, trabalha, senta, deita, lava, dorme, lê, abraça e sente, controlado cegamente por um ciclo venenoso de emoções. No meio do parágrafo (ou do verso), entretanto, aparecem de maneira sutil as chances de se colocar, abruptamente, um ponto final. É, dentro do fluxo, a decisão fundamental de encerramento: a escolha de cessar o capítulo, pois sua história já está fatigada e inexpressiva.

Os capítulos de dor e lágrimas desta história descrevem, juntos, um livro importante de crescimento. Hoje, amargamente, decidi que sem o final, um novo capítulo num novo livro não seria possível. O desejo de novas palavras, novas versões e novas linhas é maior e muito mais pungente que o de permanência do presente em rascunho. Havia de terminar. Tinha de encerrar.

Hoje, amargamente, descrevo as linhas de um novo parágrafo. Um em que eu, decididamente, escolhi ser feliz.

Passagem da Noite

“É noite. Sinto que é noite
(…)
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
(…)
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!”

Carlos Drummond de Andrade
(A Rosa do Povo)

tem você

vem cá
me diz desse meu medo de olhar
me diz que os teus sonhos
valem a vida
nossa vida
nossa casa
nosso abraço

vem cá
me diz que essa canção vai durar
que essa noite mal dormida é de tanto sonhar
me diz qual seu cheiro
seu gosto
seu enredo
seu anseio

vem cá
me diz que essa chuva irá lavar
me diz que o vento não há de parar
que essa canção vai durar
que essa canção vai durar

vem cá
me diz que as mãos se tocam e a alma vive
me diz que os sonhos
valem a vida
nossa vida
nossa casa
nosso abraço

vem cá
me diz que esse sonho há de parar
me diz que o sol há de raiar
e que as mãos se tocam
e que a alma vive
e que a alma morre
e que a alma renasce em qualquer lugar

vem cá
vem cá nestes versos me abraçar
me diz que o enredo do samba
da vida
da alma
do sonho
há de sambar

vem cá
me diz que a chuva há de deitar
deitar o samba que tem que sambar
a vida que tem que chorar
o sonho que tem que encerrar
vem cá

vem cá
me diz que essa chuva irá lavar
me diz que o vento não há de parar
que essa canção vai durar
que essa canção vai durar
vem cá…

eternal sunshine of the spotless mind

_Two Blue Ruins.

_Thank you.

_Drink up, young man. It’ll make the whole seduction part less repugnant……I’m just kidding! Come on. You’re kinda closed-mouthed, aren’t you?

_I’m sorry. It’s just, you know, my life isn’t that interesting. I go to work, I come home. Don’t know what to say. You should read my journal. I mean, it’s just… blank.

_Really? Does that make you sad or anxious? I mean, I’m always anxious, thinking I’m not living my life to the fullest, taking advantage of every possibility, making sure I’m not wasting one second of the little time I have.

_I think about that.

_Yeah? You’re really nice.

“Eternal Sunshine of The Spotless Mind” script.

sobre a procrastinação

E digo mais: essa é uma reflexão sobre a preguiça.

The Death of Bara, Oil On Canvas by Jacques Louis David (1748-1800, France)

 

Não consigo levantar sem sentir o peso da má vontade. Todo dia acordo com a sensação latente de “não quero fazer”, “não sirvo pra isso”, “hoje não”, como se o destino quisesse dizer – ou confirmar – que tudo aquilo que precisa de melhoramentos em mim vai continuar como está. Entenda uma coisa: eu não sou feita de rotina, muito menos de organização. O meu problema é maior, muito maior do que ter uma lista de tarefas inversamente proporcional à vontade de fazê-las: a minha procrastinação é crônica.

Ando desmemoriada. O meu cérebro parece deletar as informações que não são tão interessantes (preguiça de pensar, eu diria, até nisso). Meus pensamentos procrastinam até a própria sedimentação. Deixa pra depois. Ando esquecida. As vontades? Estão em segundo plano. Este texto? Não sei nem porque escrevo, acho que é porque é agora, se fosse deixar pra depois ele não seria. Nada aqui está sendo ultimamente. Nada disso faz muito sentido também, pois que agora eu deveria estar procrastinando e não estou, talvez isso seja uma luz no fim do túnel.

Ando sem ânimo. Levantar pra vida está sendo enfadonho, moroso, sem graça. Me chamem de covarde. Por não enfrentar nem a mim mesma, me faço de refém. Refém dessa minha intrínseca maneira de ser não sendo, de só protelar e no final nada sai do jeito que eu espero. Talvez esse será o grande legado da minha vida, deixo tanto pra depois que um dia vou morrer esquecendo.

Estou vivendo a fase do desgosto. Do desgosto que no fundo, é gostoso de sentir. Que vítima de si mesmo não gosta do sentimento de se sentir menor do que tudo? Tudo é mais que o eu. Tudo é maior do que eu posso fazer, então eu não faço. Você me entende? Você consegue entender que o dia que vivo hoje ou o dia que viverei amanhã ou o dia que vivi ontem ou o dia do futuro ou o dia por si só não fazem muita diferença já que, se não posso protelar o tempo, protelo o viver?

Essa é uma reflexão sobre protelar.

Sobre espreguiçar.

Minha vida anda espreguiçada. Parou encostada na sobrevivência. Devo ter até preguiça de sobreviver, o estado de vegetação ainda não me apetece porque a chaga da auto-culpa ainda não foi eliminada. Será esta a minha sina ou a minha salvação? A auto-culpa me levará à redenção que vem da coragem de ser, fazer e viver? Não sei, tenho preguiça de pensar nisso. Deixa pra depois. Ando esquecida.

Isso tudo é tudo isso, ao mesmo tempo que nada é. Pois digo que minto. Isso é sinceridade, ao menos isso. Pode até soar depressivo, se você me lê, mas você há de convir que a sinceridade leva ao primeiro passo de qualquer coisa que se levante, mas se tenho preguiça até de mim mesma, como consigo colocar dois pés no chão sem sentir a pressão nos joelhos?

Você me entende?

Estou me fazendo de desentendida?

A única coisa que não procrastino é a própria procrastinação, já que essa característica parece ter me pegado de jeito como quando a gente pega aquela gripe que não sara ou aquele amor que dói mas aquece o coração. A minha preguiça é minha amante, dançamos nos sonhos a noite e ela me diz doces palavras no ouvido, “vai ficar tudo bem”, “não vejo problema nisso”, “eles não te compreendem”, “no fim vai dar tudo certo”, me enchendo o peito de ilusão e enfraquecendo qualquer outro sentimento que venha a querer lhe combater. Como eu disse, às vezes a auto-culpa duela e vence, mas nada mais é que um joguinho sórdido da preguiça que vê mais contento no mal-fazer que na vegetação, posto que se eu vegetasse ela perderia sua marionete. Daí vou mal-fazendo, mal-dizendo, mal-vivendo, a única coisa bem sucedida que ando presenciando em mim mesma é a própria manifestação da má vontade.

A auto-culpa aparece vez em quando, talvez seja ela dizendo que toda fênix renasce um dia das cinzas e que tudo tem jeito e que tudo funciona se a gente quiser e que querer é poder e que o eu é mais que tudo e que nada é maior que nada e que a preguiça não é minha dona e que a vida não é pra ser não vivida e que os dias que passam não voltam e que essa conduta não leva a nada e que a coragem é só questão de ser da mesma forma que a preguiça é e que eu tenho que ter ânimo e que eu tenho que sair dessa e que eu nem sei porque eu tô nessa e que se a fênix renasce é porque ela assim quis fazer, mas nem sou pássaro, nem ainda cheguei nas cinzas.

Será que a perdição é o viver não vivendo e o ser não sendo ou será a minha salvação eu me esquecer de tudo isso?