Passagem da Noite

“É noite. Sinto que é noite
(…)
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
(…)
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!”

Carlos Drummond de Andrade
(A Rosa do Povo)

tem você

vem cá
me diz desse meu medo de olhar
me diz que os teus sonhos
valem a vida
nossa vida
nossa casa
nosso abraço

vem cá
me diz que essa canção vai durar
que essa noite mal dormida é de tanto sonhar
me diz qual seu cheiro
seu gosto
seu enredo
seu anseio

vem cá
me diz que essa chuva irá lavar
me diz que o vento não há de parar
que essa canção vai durar
que essa canção vai durar

vem cá
me diz que as mãos se tocam e a alma vive
me diz que os sonhos
valem a vida
nossa vida
nossa casa
nosso abraço

vem cá
me diz que esse sonho há de parar
me diz que o sol há de raiar
e que as mãos se tocam
e que a alma vive
e que a alma morre
e que a alma renasce em qualquer lugar

vem cá
vem cá nestes versos me abraçar
me diz que o enredo do samba
da vida
da alma
do sonho
há de sambar

vem cá
me diz que a chuva há de deitar
deitar o samba que tem que sambar
a vida que tem que chorar
o sonho que tem que encerrar
vem cá

vem cá
me diz que essa chuva irá lavar
me diz que o vento não há de parar
que essa canção vai durar
que essa canção vai durar
vem cá…

Vem cá

vem cá, vamos conversar

me fala da sua vida, 
do que você mais gosta de comer
da sua cor preferida, 
no que você pensa quando vê o mar
você quer viver de quê? 
quer viver porquê? 
me diz se você sabe dançar, 
se você sabe que o seu coração é do tamanho do mundo

conversa comigo, 
fala pra mim dos seus anseios,
me diz quem é que conta seus passos, 
me diz seu café da manhã do ano passado e 
diz que é comigo que você quer acordar

fala pra mim que cheiro tem sua roupa,
que brinquedo foi o seu predileto
qual seu voo, sua escada
qual  é o gosto da vida na sua pele cansada
qual seu medo

vem cá, me diz qual a sua razão
me mostra a sua letra na sua carta de amor
me diz que amanhã o dia é bonito
e que nossa conversa vai durar o instante do presente
do segundo trocado
da verdade sentida
da voz na sua melodia
e da mão a escrever a história 
de quem tem muito a dizer no silêncio das almas.

Poema para Rafaella


“querida Rafaella
você é tão bonita
que quando você vem
eu olho pela janela
tudo rima com ela
até siriguela
e se você não gostar desse poema
eu te corto a guela”


(LIRA, Eduardo. 25/12/2012)

Dos meus presentes de Natal mais sinceros.



Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
 
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
 
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
 
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.”

(William Ernest Henley)

henley

Canção de ninar

O que te prendes ao mundo?
Ouviste o sussurro do dia?
Os doces e hábeis burburinhos da vida te passam,
pequena

“Seja como a areia,
onde a onda vem bater”
a ti a velha árvore dizia
trespassada, adivinha
Pequena, as joias estão aí

o doce olhar inevitável,
tátil como a mão que aperta,
sufoca
voa o teu vôo livre
seja, pequena, seja

o sonho vai escalando estrelas
e os olhos cerram-se para a dor
enfrentam as fadas, pequena
e o sussurro vem,
sempre vem.

Cantam duas, três vezes
para te ver repousar sofrendo
amargurada pelo dia que é finito
Durma, pequena, durma
Na efemeridade o infinito é teu lar

Irá chegar, as asas nascerão
Ouves o vento?
O que diz ele, pequena?
São areia e onda, batendo
bloqueando nuvens

Ouvem o teu ninar,
Bebem de teus sonhos e,
Beijam-te os seios
e visitam seu leito sussurrando
gemendo

“seja como a areia,
onde a onda vem bater…”
Não entendes, pequena
Apenas seja em seu repousar
e então, as joias lhe tocarão os dedos.

Índia



“Rindo entre as garças, suriris e nhambuzinhas,
Ao ver densa nuvem, lhe pede-que caia…
Formando arco íris, pra ela, as gotinhas
Ao tocarem as águas do lindo Araguaia

Então sussurra: kó ara sy oberab…
Levas de flores da andiroba caindo
Lembram favores com que o vento sorrindo,
Acena à indiazinha-e ela nem sabe…

Antes do arrebol vir pairar sobre o rio
Guardando esse dia, parando ele pede:
Um suspiro à mocinha-que não é banguela;

Infindos lamentos tecendo pra ela,
Ao infinito do seu sorriso, viu,
Rogo lágrimas de amor..”-e se despede”


(Por Caio, para Rafaella Ribeiro)


Para Cacau



Cacau é uma cachorrinha
Altamente bonitinha
Corre pela casa inteira
Até perdendo a estribeira
Um amor o cheiro seu
Lhe agrada morder vestido
Enfrenta aos cães com o latido
Gente, ó que cãzinha mais bela:
Ama à dona, não banguela,
Uivando pra lua no céu

(Por: Caio)

Bailarinar

De rodopios infantes eram feitos
dois pés que se cruzavam;
sapatilhas em róseo e calo
suavemente respirando justapostas
em pliés e tendus

melodiando, eles dançavam floridos
ritmar o vento que rodeia e leva o laço
girar e flutuar o negro cabelo
perder no sorriso
chorar a perda

a dor acomete o vestido
o olho úmido sonha Mozart
sangra em ponta
sofre em vida
sente em si

solucionam-se, pois
harmoniando em tristes tropeços
postura que lhe cai e serve como música
aos ouvidos,
aos pés dançarinos

Bailarinam
Bebem da fonte clássica da mistura
Bailarinam
sentimento, ritmo
Bailarinam
saudade, amor, amor, amor
Bailarinam
Degas pintou o emudecer…

Esqueceu o rosto, relembrou o passo
já não lembram mais identidade
pés tramitantes na
saga de doer o quadro
pliés de fuga, sapatilhas de brisa

e Degas sequer reconhece a boca que cala
o corpo que dói
o olho que chora;
emoção que gosta
bailarinar e se perder.