Carta ao desconhecido

Algum lugar, algum dia, algum ano.


Querido,


….Como numa falta de objetividade tamanha e numa vontade absurda de alcançar uma genialidade que não me pertence, num surto de incompreensões, é meus devaneios; embora tudo fosse surpreendentemente magnífico, é especial de uma maneira que me toca o sentimento, um pequeno sopro de carinho notável que transforma o que penso de mim, meus valores, em místico vão de divagações e expectativas. Tão pequeno, tão imperfeito.
….O fato é que é sempre bom sentir ou expressar um sentimento de reciprocidade, um modo de pertencer e entregar sensações de uma mente desfocada, perplexa e submersa em sorrisos e vontades. Aproximar-se da epifania e do prazer que trazem um dia ensolarado.
….Surgiste de uma maré de dúvidas, num pátio de sintonia melancólica como agora habitante de meus pensamentos mais distantes. Aprecio ter-lhe perto, em carinhos pequenos e tão significantes. Há em seus olhos escondidos algo que, no entanto, me frustra e ao mesmo tempo socorre, fascinante. Sinto-me frágil como um pequeno vaso decorado colorido que se quebra diante da força do vento; a racionalidade, os fixos conceitos cedem lugar a mãos trêmulas e suspiros frequentes.
….Desejo ser em ti uma gota de felicidade, que num dia vazio e em sua solidão peculiar minha vontade de lhe tirar um sorriso bobo fosse merecedora. Uma lembrança que permanece latente, viva, sempre.
….Lhe mando pequenas coisinhas que a mim pertenciam, objetos que fizeram parte de mim e que tem significado emocional considerável. Sei que a você não terão utilidade que não apenas ter em mãos pequenos fragmentos de uma menina-mulher, mas desejo compartilhar contigo mais de mim. Completará mais um ciclo de vida em breve e me agrada saber que ainda desejo imensas felicidades. Apesar do que venha a acontecer, gostaria que sua existência fosse carregada de novidades, novas lembranças e novos sorrisos.
….Sentirei-lhe falta quando voltar, percebi que havia me acostumado a saber que lhe tinha a metros distante. Estará sempre à minha memória como pedaço de mim, “metade exilada de mim”. Quando retornar, lembre-se que o passado não sentencia o futuro, o presente deve ser ardente como fulgor de primavera.

Adeus,
PS: Sinceras desculpas pelas emocionadas lágrimas, a cada dia que passa lhe desconheço mais e o escuro me dá medo…


Texto escrito em Julho de 2008

Like a bridge over troubled water

E por dentro de mim, há sempre uma tempestade, uma intempérie, um desconforto, um descompasso. Um mal jeito, um mau jeito, um trejeito, vários jeitos, uma confusão, uma agitação, uma compaixão, um tumulto. 

Porque a calmaria traz a paz, mas o que é a ponte sem as águas turbulentas?



O dia em que você quer mandar todos para aquele lugar


Ah, esse dia. Bendito dia. Bendito pois é carregado de bençãos, bendito seja o dia em que podemos abrir a boca e dizer, sem medo, para aquele chato, pé no saco, um “vai tomar bem no meio do seu cu“. Isso, assim, bem simples, bem claro, bem explícito, bem tudo. Sem tarja, sem pudor, sem amarras.

Também sei que usar essa expressão exageradamente não é bom para o convívio social, muito menos para o espírito (às vezes é bom saber engolir o palavrão, digerir lá no fundo do estômago, pelo bem da convivência). Mas hoje não, hoje eu tenho raiva. Hoje eu tenho fúria, vontade de quebrar, tenho ira. E se as regras sociais – e os meus valores – me criam cadeados contra as agressões físicas e quiçá também as verbais, hoje, só hoje, nesse bendito dia, eu posso mandar aquela ou qualquer pessoa ir tomar naquele nem tão bendito lugar.

É libertador, refrescante; a mente desafoga por si só. É como nadar de mãos dadas com a satisfação: um alívio. Se as consequências são boas ou não, amanhã é o bendito-dia-de-me-importar-com-isso. Hoje, só hoje, nessa singular data do ano, eu quero mandar todo mundo ir tomar bem no meio dos seus respectivos cus.

E que elas possam se sentir libertas, também. E, quem sabe, me mandar para aquele lugar de volta também. Viva a reciprocidade!




Ensaio sobre o casamento

Tenho me observado pensando nesse assunto diversas vezes durante a semana. Não significa, necessariamente, que eu queira me casar no momento, mas tão somente o fato de que minhas visões andam mudando em relação a esse tópico.

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Eu sou a favor da união matrimonial, das variadas formas existentes e possíveis. Não entrarei no quesito monogamia X poligamia, isso é assunto para uma outra reflexão, rs. Sempre achei que quando duas pessoas entendem que o sentimento é tão forte que se quer conviver junto todos os dias e compartilhar desejos, problemas, ambições e afeto, a união matrimonial (seja ela registrada legalmente ou não), é uma consequência natural.

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Acreditei que o mundo moderno, com suas relações complexas de relacionamento, estivesse minando essa união. Nunca se houve tantas brigas causadas por tempo-de-espera-maior-que-10-minutos-no-msn ou por fotos e comentários difundidos no facebook, twitter, ou outras redes sociais atuais. Também pensei que, eventualmente, eu nunca iria me casar. Ou ter filhos. A responsabilidade que se observa no papel passado, na convivência diária, no fazer valer o compromisso, não é bem vista por todo ser humano, ainda. Contudo, não eram esses os motivos que me faziam não me imaginar casando. As palavras-chave são: renúncia, liberdade e sentimento.

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Quando se tem um relacionamento estável com alguém, suas noções de relacionamento se modificam, é claro. Quando se é solteiro (ou solitário), a percepção de vida-a-dois limita-se a formar opiniões com o que se ouve dizer, o que se vê acontecer e o que se sente em relação a isso. Digo solitário pois é possível se sentir assim mesmo estando em um relacionamento afetivo.

Foi observando a minha mini-vida-a-dois que percebi as minhas mudanças de sentimentos e opiniões. E acho isso absolutamente incrível. Eu, tão turrona e difícil de dobrar certas vezes, me vi mudando num assunto que desde pequena sempre fora o mesmo. Enquanto as coleguinhas sonhavam com o príncipe encantado no cavalo branco (porque, na época, nossas referências eram os contos de fada e os desenhos mais inocentes na TV), eu me imaginava mandando.

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Sim, mandando. Mandando num apartamento chique, com os móveis colocados da forma como eu achasse melhor, se possível tudo verde e cheio de girassóis; mandando num cardápio saudável: só tomaria refrigerante nos fins de semana; mandando na minha vida profissional, porque meu pai me ensinou que “mulher não deve ficar debaixo da asa de homem”, deve ser independente; mandando em mim, me policiando, me dizendo o que é certo, o que é errado, o “não faz isso que você chora só de ver”; mandando na minha vida pessoal: eu ia ter um namorado fixo, pra me dar bombons com recheio de coco com leite condensado, mas ele “não vai morar comigo porque eu não gosto nem de dividir coberta, vou dividir meu apartamento chique?”

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Daí, as três palavras aparecem no momento em que eu vou crescendo e tendo maturidade para entendê-las além do dicionário:

  • Renúncia – Ato ou efeito de renunciar. Desistência. Ato de se recusar aquilo que se tem direito. Ato de abjurar, abnegar.
  • Liberdade – Autonomia, espontaneidade de um sujeito racional. Elemento qualificador e constituidor dos comportamentos humanos voluntários. (Definição do wikipédia mesmo, para não aprofundar nas mil análises da polêmica palavra)
  • Sentimento – Informações sentidas causadas por situações experienciadas pelos seres biológicos, como exemplo: medo, felicidade, alegria, amor, ódio, tristeza
Num relacionamento qualquer, seja ele fraterno, inimigo, amoroso ou até sem explicação, essas três benditas palavras surgem tão constantemente que não se percebe. Um relacionamento sem renúncia, sem liberdade (em seus variados significados, mas, essencialmente, aqui, sentida), sem sentimento, pode existir, mas não funciona da maneira como se gostaria.
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Aprendi que a renúncia aparece desde bem menos que, por exemplo, ir ao lugar que não se gosta para agradar ao outro. Renuncia-se a si mesmo, diversas vezes. Dos defeitos, das qualidades, da posição de eu, de ser, de indivíduo. Do que mais dói, do que mais alegra, tantas vezes. E isso é, novamente, absolutamente incrível. Como poder deixar de lado a si mesmo em prol da felicidade do outro? Como viver renunciando pedacinhos de si para que um outro ser se encaixe?
Renunciar a liberdade? Sem entrar no mérito cartesiano de que liberdade é razão, sim, se renuncia. Mas se é livre, também. Ou ao menos deveria-se ser. Um bom relacionamento, daqueles que te dão borboletas no estômago, te liberta. Das amarras de si próprio, do azedume da alma, da cor cinza da solidão. Mas te prende, te ata as mãos.  A linha tênue entre ser livre e ser escravo não era tão bem refletida por mim, hoje eu penso mais sobre. Como ser livre para pensar e ser um indivíduo, com suas necessidades particulares, e ainda incluir um outro na sua liberdade? É liberdade, não é?

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Quando se faz tudo isso, ou o não-isso, se sente. Informações são processadas de forma a nos fazer ter sensações além dos 5 sentidos básicos e guardar na memória as consequências que isso trouxe, de bom ou de ruim. Sentimentos são necessários para se ter verdade, outra palavra importante sobre a qual tenho refletido. A verdade do ser fidedigno consigo e com a realidade do sentimento, a verdade da transparência da sensação. Sem isso, um casamento é de fachada.

Casamento é união. É casar as três palavras e fazê-las conviverem juntas: renúncia, liberdade e sentimento. E coloquem aí a verdade.

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Saber dosar isso tudo durante a convivência, né brinquedo não. Por isso, refletindo todos esses fatores e outros tantos, resolvi que quero sim, casar, um dia. Quero sim passar um papel e firmar com minha assinatura a fidelidade que já me propus, o amor a que me dispus e as 3, 4 palavras que tenho que aprender. Sabe aquilo de aprender com o outro a ser melhor consigo mesmo? Um tanto egoísta, nem tão abnegado, mas tão verdadeiro.

Não exagerar na renúncia, nem na liberdade, mas sim no sentimento bom. Naqueles que deixam a gente pra baixo, parcimônia (um dia eu aprendo). Comemorar o fato de se achar alguém que se encaixe,  que se possa compartilhar a si mesmo, as conquistas, os fracassos. Viver de dar beijinho, dormir de conchinha, brigar demais e reatar mais vezes ainda.

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E tem que ser vivendo na mesma casa, para o desafio ser maior. Bem diferente do que eu já imaginei (eu lá, ele cá, MEU apartamento chique). Não precisa-se comungar os bens, só precisa comungar o amor e a vontade e as três palavras e a vida e as lágrimas e os sorrisos e as besteiras e os videogames e os chocolates de coco com leite condensado e a cama e o café da manhã e o almoço e a janta e o cotidiano e os afazeres e as compras e as contas e o sexo e os beijos e os abraços e as dúvidas e o sofá e a televisão e a vida nas redes sociais e os álbuns de foto e o chuveiro e a mobília e a família e muito mais.

Só a coberta que eu ainda não sei se vai dar pra dividir…

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Todas as fotos foram retiradas de diferentes autores, no Flickr.

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
 
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
 
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
 
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.”

(William Ernest Henley)

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Peito Vazio

Hoje, 05:54h: Tentei diversas vezes vir ao Mantra, dispor do talento e preencher novamente o espaço que aqui se limita, com o ócio criativo que as experiências diárias me dão. No entanto, percebo que o que aqui fica são desprendimentos de mim, de um eu isolado que precisa harmonizar-se. Juntar novamente esses pequenos pedaços aqui deixados para que a existência não pareça tão conturbada.


Hoje, 04:14h: O sono é leve mas a cabeça é pesada. Acordo com preocupações, é um pai que se foi e deixa saudades, imensas. É uma Rafaella de solidão nos limites de um quarto, acompanhada por mãe e irmã aos arredores. Como Cecília, percebe a efemeridade dos momentos e decide ir à sala, deitar ao sofá e perceber a imensidão branca, homogênea e extremamente sutil que caracterizam o teto do apartamento.

Hoje, 06:00h: O dia devagar começa e o Mantra faz bem de novo. Sinto como se ele fosse um amigo inseparável, daqueles em que os maiores desapontamentos sequer são suficientes para causar insatisfação e distância. Lembro de uma frase que ouvi ontem e que preciso me afogar em seu sentido: “Quem enxuga lágrimas não tem tempo pra chorar.

Ontem, 23:58h: “Dorme em paz”, “eu quero ver você feliz”.

Hoje, 06:10h: Cartola aparece novamente e titula esses devaneios. O sono não mostra as caras mas o meu rosto é de cansaço. As luzes das janelas dos prédios vizinhos começam a se acender junto com o sol que ascende e traz uma nova esperança a cada trabalhador, sofrido, solitário, transeunte desajeitado da vida e quem sabe, para mim também.

***

O texto que se seguiu é um devaneio, uma vontade. Não é, assim, um postulado de certeza. Foi escrito baseado na composição de Cartola, Peito Vazio

Da tua fuga

Não é de minha autoria, antes de tudo. Mas diz tanto do que eu queria dizer de mim…

 

“A tua fuga é imanente. É o preço na pele de quem fica, de nós, os que acenamos. A tua fuga é perpétua, é a presença da ausência, é morder a boca ao se comer algo tão esperado e sentir apenas o gosto do sangue; lá está você, mais uma vez, no gesto de quem já vai muito cedo, mais cedo, é preciso chegar mais cedo para, depois, deixar esse outro lugar, e ir a mais outro, (teia do argumento dos teus espectros: ir-se).(Você está na minha vida através da sombra alongada no chão, saco de dormir, bitucas inda quentes, coisas que se atrasaram de você, caíram-lhe dos bolsos, coisas que se atiraram para que eu as abrigasse na minha bolsa, ou que você mesmo lembrou-se de esquecê-las por ali, gentilmente. Minha bolsa é um canguru gestante de vestígios, minha bolsa é um saco de provas, as provas recolhidas de um crime, a porta vai batendo, já dá o horário. O teu.)

A tua fuga é crime perpétuo, a imanência da ausência, plenilúnio dos nossos ensaios de dizermos o que deveríamos ter dito: faz favor, fica mais um pouco, come aqui esta sopa, veja, estávamos só te esperando, fique. Mas você é da família das ondas: junta águas de espécies todas, as movediças, as ardentes, as salgadas, as doces, aquelas águas de banho, águas de poço, moringa, o orvalho. Levanta sobre nossas cabeças, despeja-se, recolhe-se. E nós ainda tentamos beber da tua presença, mas tudo é um naufrágio, nossos rostos salpicados de tuas águas, nossas lágrimas.”


Nossos tempos

Um parada no tempo para dar uma olhada no que estamos fazendo do ato de viver.

Até que ponto nossa vida é vivência e até que ponto é exposição apenas para fingir (enganar a si próprio é das piores ilusões existentes) algo que se queria mas não se tem. Não se tem por quais motivos? Trabalho, preguiça, desgosto? Vale a análise interna de cada um; o que vai ser de nós, podemos ainda fazer um novo final?

Um texto ótimo e cheio de perguntas. Autoria da Paula 🙂

Férias parciais. Quero o meu tempo.. quero sentí-lo, percebê-lo, respeitá-lo. Quero escrever(mais), ler um livro, sair de casa, andar sem direção descobrindo as ruas como se as visse pela primeira vez em muito tempo.. quero muito tudo sem pressa e esquecer que horas são sem me preocupar. Esquecer que dia é da semana e fazer do sol o meu parâmetro…



Observo que nossos tempos andam regidos pela urgência. Essa senhora intrometida e histérica que apressa tudo em nossas vidas. Há momentos em que e presença dela até não é de todo ruim, mas em boa parte acho que ela só atrapalha. A urgência é um alarme,um despertador que rompe com o primeiro tempo íntimo de cada um, o tempo de sono.O tempo dos corpos. Até aí tudo bem, posto que impõe disciplina àqueles que por vontade própria provavelmente ficariam entregues à inércia, à preguiça, ao ócio de um leito ou de alguma outra atividade mais prazerosa que as obrigatórias por coersão.De onde eu vejo, o problema maior é quando ela adentra outros tempos nesses nossos tempos. Há coisas que simplesmente não podem ser apressadas, a começar: o escrever, o descobrir, o conhecer, o saber, o fazer artístico, o fazer erótico…o sentir. Viver, de forma geral, não pode exigir pressa, ânsia nem exatidão temporal ou etária.(Temos um tempo comum – aquele nos nos permite conviver e respeitarmos uns aos outros e as instituições e, onde ele termina começam nossos tempos próprios – cada um tem o seu. Sintonia seria, assim, quando dois ou mais tempos próprios convergem em um só). Caso contrário um corre o risco de queimar suas etapas (motivo pelo qual sou avessa aos planos à longo prazo..com datas e idades mensuradas). Penso muito nesse contexto, e com certo pesar, nas crianças. Talvez porque elas são mais passíveis de sofrerem influência do grupo.. de repetirem comportamentos para os quais ainda não estão prontas. Penso também na juventude… a juventude, em qualquer tempo histórico, sempre foi marcada, entre outras coisas, pela pressa em viver. Qual é a nossa?! Sequer sabemos com exatidão aonde vamos, tampouco o caminho certo.. então,para quê tanta pressa?! É como se estivéssemos no prelúdio e a verdadeira canção só começasse aos trinta e com ânsia de chegarmos lá, apressássemos o passo e atropelássemos o compasso. É dançar uma valsa 3/4 em ritmo de rock. Para quê?! Para nos fazermos notados? Chego, aqui, onde pretendia: associar essa pressa em viver com a necessidade incessante em se mostrar que está vivendo.. e não há maneira mais prática e paradoxal de fazê-lo do que por meio de vitrines pessoais em redes sociais.Se é verdade que o outro é espelho de nós mesmos, confirma-se o fato de que precisamos do outro (em maior ou menor escala) para nos convençermos de nossas realidades. Aplique a isso a moralidade da urgência e voilá: chega-se à tendência da vida à mil por hora, do “vivendo intensamente”… Acontece que as mídias sociais não representam a realidade no plano real, e sim um plano paralelo.. uma realidade muitas vezes filtrada e forjada. Alí – você só expõe de você as partes que desejar. (Ninguém mostra, deliberadamente, seus defeitos, seus piores ângulos, suas fraquezas.. seria a negação do “self-promotion”!). Sempre que eu vejo comentários e legendas de fotos nesse etilo “minha vida é uma festa”, crio minhas ácidas dúvidas em tom crítico: “Será? Será mesmo que a vida desta pessoa é tão intensa, frenética e repleta?”. Se fosse na intensidade e velocidade nas quais ela descreve provavelmente ela não teria o tempo de parar para fazer uma exposição daquilo, porque, justamente, estaria tomada pela intensidade louca de sua vida. É um tanto triste pensar que as pessoas estão se tornando mais interessantes em outro plano – protegidas por telas-escudos, sem se permitirem serem conhecidas de fato… até porque como é tudo muito rápido.. fica difícil acompanhar as inúmeras e constantes mudanças. A moralidade da urgência vende, é “in”.. “cool”. Todo mundo quer ser comprado antes de perecer então(?). Ou melhor, ninguém quer perecer… Perecer, bilogicamente falando, é envelhecer e envelhecer definitivamente já está “out-dated”. Agora isso é objeto para outro post e eu já estou embaralhando demais meus pensamentos…”


Suicídio

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The Suicide – Eduard Manet

Há poucos minutos ocorreu uma fatalidade no prédio aqui em frente. Uma mulher, não sei o nome ou idade ou quem sabe a cor dos olhos ou cabelo, decidiu encerrar a vida e deixar-se cair do 17º andar. Para os transeuntes que passam na rua e observam vários carros de polícia, param para perguntar “O que houve?”, há, então, uma resposta que ninguém gostaria de dar mas é a realidade. A mão que vai ao rosto e tampa os lábios abertos assustados, num gesto de surpresa e choque é o que une os desconhecidos – até então – do acidente.


Foi a reação que tive. Essa mesma que me inclui na parcela social que ainda sente uma dor lá no fundo, um desconforto, a agonia de saber que alguém ali tão próximo, seu vizinho, estava talvez sofrendo dores amargas e você nem sabia disso. Não conheço a tal mulher, para mim ela não tem identidade. Assim sendo, como analisar o fato de ela ter sido corajosa a tal ponto de jogar-se do 17º e covarde a ponto de não conseguir encarar a vida? Como pensar num ser, para mim, sem identificação e não jogar-lhe julgamentos? “Meu Deus, o que ela fez?”, “Ah, Senhor, protege essa pequenina”, “Porquê ela pula da janela, morava sozinha, não tinha ninguém, a solidão era implacável?”

Nesse momento me veio a conclusão que a morte, ao menos para o meio em que vivo, está intimamente ligada ao sentimento religioso ou somente àquele que pensa na violência e nas tragédias com um olhar inconformado, mas que pensa: “se é que há alguma coisa do outro lado, que essa pessoa fique bem”. Mesmo por força do hábito àqueles que se abstém das crenças. É inevitável ver um corpo ensanguentado, coberto por um lençol fino e branco, isolado por fitas amarelo-preto, sozinho, sendo observado por policiais, familiares inconsoláveis, e não sentir sequer uma agonia, um susto, um pensamento de oração à mulher que caiu.    Talvez não uma oração declarada, mas sim um pensamento positivo para aquela alma, como uma remissão do pecado, algo que pudesse dar à mulher a esperança que ela não teve em vida.

Lendo sobre suicídio por aqui vi que as causas são sempre doloridas: uma doença, uma frustração, uma desesperança. Afinal de contas, quem vive bem consigo mesmo e com a vida não teria motivos para encerrá-la, a priori. Mesmo num gesto altruísta, se ele mesmo existir, a causa ainda é ruim. Aqueles que tiram a vida em prol do outro, de uma causa, de um desejo, mesmo que pareça caridoso ou heroico não retira do fato os porquês disso acontecer. Geralmente eles sempre são fatalidades.
 

Suicídio, do latim sui (próprio) e caedere (matar), é o ato intencional de matar a si mesmo. Sua causa mais comum é um transtorno mental que pode incluir depressãotranstorno bipolaresquizofreniaalcoolismo e abuso de drogas. Dificuldades financeiras e/ou emocionais também desempenham um fator significativo. Mais de um milhão de pessoas cometem suicídio a cada ano, tornando-se esta a décima causa de morte no mundo. Trata-se de uma das principais causas de morte entre adolescentes eadultos com menos de 35 anos de idade. Entretanto, há uma estimativa de 10 a 20 milhões de tentativas de suicídios não-fatais a cada ano em todo o mundo.

Será que temos o direito de escolher morrer? No nosso livre-arbítrio garantido desde quando fomos postos nesse mundo, temos. Isso não significa, no entanto, que tenhamos essa coragem de escolher. A mulher que se jogou teve, mas não acho que ela tenha considerado todos os fatores a serem pensados antes de tomar uma decisão. Talvez se tivesse pensado, não se jogaria.
 
Que fatores são esses? Hm, pensar em quem deixaríamos aqui, as pessoas que nos amam e talvez a gente nem saiba. Sou capaz ainda de ser feliz? Já tentei tudo que posso para buscar o meu melhoramento interno? Sou doente, já busquei ajuda? Me entreguei ao fundo do poço, é possível sair dele? Porque não tento?
 
Segundo os psicólogos, a resposta pra essas perguntas é: Não consigo. Mas a tradução literal disso é: eu não quero. As coisas parecem tão amargas que a desistência logo vem e nos sentimos incapazes, insuficientes. Exemplos, entretanto, temos aos montes; de pessoas que se encontravam no maior desespero interno e conseguiram melhorar as dores, atenuar, nem que fosse a conta-gotas. Outras não, o conflito íntimo é tão doloroso, tão penoso, que o corpo suplica por uma dose de calmaria, pedindo: “por favor, me tire desse estresse!”. Isso é interpretado então como encerrar tudo que construiu-se, tudo que estava por ser construído.
 
Não sei ainda o motivo interno daquela mulher ter-se deixado levar pela Morte. Não é bom, disso eu sei. Talvez eu nunca fique sabendo, mesmo ela sendo moradora do prédio aqui em frente. E sendo espírita como sou, espero que ela fique bem, que possa ser ajudada e tratada; que suas dores sejam diminuídas e que ela possa não se arrepender do que fez, mas entender que podia ter feito mais em prol de si mesma e de seu íntimo antes de decidir tal coisa. Que ela possa fazer isso agora, no plano espiritual, decidir algo bom pra existência. 
 
Para isso, então, só basta querer. Tomar um objetivo e segui-lo. Porque: se eu quero e mereço, consigo. Se eu não quero, não faço por merecer.


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Dos textos que li essa semana e me encantaram. Autoria de Liz;



“O sangue lhe escorria corpo a fora. E o seu olhar parecia sentir pena de si próprio. Voltava-o para mim, mas eu sabia que não me enxergaria. Só imploravam por redenção. Gritavam por compaixão. Eu não sou de julgar quem. Eu nunca gostei de hipocrisia. Contudo, acabei esquecendo essa parte do meu manual de instruções. Eu não lhe machucaria de propósito. Logo, não aceitaria que o fizesse. Interrompi a barreira de seu suspiro nervoso com um golpe: não tive culpa, as palavras não se guardariam.  Nunca diga que não teve tempo para voltar atrás; Que não conseguiu encontrar o caminho certo. Pois, eu não vou concordar. Você não se importou com a luz no fim do túnel. Ela era eu. Então, você também não se importou com um tanto considerável de coisas. E aí elas só foram embora.  Eu me proibia tirar os olhos de seu rosto. A luz refletia em meia face. A lágrima reluzia-se discreta. Não pararia a corrente dessa, tampouco aquele fluxo doentio do pulso. Baixei o tom, eu não queria fazer doer um pouco mais, se quer saber. — Eu queria ter ido também… Ou queria ter sido útil no tempo em que estive lá para você. Sinto dolorosamente que não fui. Só não servi, não impedi, não consegui. E ainda assim, não posso ir. Senão, não saberia como voltar e isso não seria tão bom. Ou seria. Mas eu sentiria sua falta. Não falta desse ser fraco que você consegue ser agora. E sim falta do sangue pulsando dentro de suas veias eufóricas de amor. Sei que você também sentiria minha falta. Sentiria falta do calor do meu corpo. Porque feito-se em pedra não seria tão confortável, não é? Agora é com você: O que você quer ser? O que você quer ter? O que você quer que eu seja? Quando tiver as respostas, siga a luz. Você sabe onde ela te leva. 

     Eu tinha perdido as forças durante o discurso. O choro preso já não queria ter mais essa condição. Virava-me para sair de seu contato visual que nada via. Porém, algo ainda me queria lá. A sua mão, o seu sangue e lágrimas, o último murmúrio fraco da noite: Você basta.”
                                                                (R, Liz)