Peito Vazio

Hoje, 05:54h: Tentei diversas vezes vir ao Mantra, dispor do talento e preencher novamente o espaço que aqui se limita, com o ócio criativo que as experiências diárias me dão. No entanto, percebo que o que aqui fica são desprendimentos de mim, de um eu isolado que precisa harmonizar-se. Juntar novamente esses pequenos pedaços aqui deixados para que a existência não pareça tão conturbada.


Hoje, 04:14h: O sono é leve mas a cabeça é pesada. Acordo com preocupações, é um pai que se foi e deixa saudades, imensas. É uma Rafaella de solidão nos limites de um quarto, acompanhada por mãe e irmã aos arredores. Como Cecília, percebe a efemeridade dos momentos e decide ir à sala, deitar ao sofá e perceber a imensidão branca, homogênea e extremamente sutil que caracterizam o teto do apartamento.

Hoje, 06:00h: O dia devagar começa e o Mantra faz bem de novo. Sinto como se ele fosse um amigo inseparável, daqueles em que os maiores desapontamentos sequer são suficientes para causar insatisfação e distância. Lembro de uma frase que ouvi ontem e que preciso me afogar em seu sentido: “Quem enxuga lágrimas não tem tempo pra chorar.

Ontem, 23:58h: “Dorme em paz”, “eu quero ver você feliz”.

Hoje, 06:10h: Cartola aparece novamente e titula esses devaneios. O sono não mostra as caras mas o meu rosto é de cansaço. As luzes das janelas dos prédios vizinhos começam a se acender junto com o sol que ascende e traz uma nova esperança a cada trabalhador, sofrido, solitário, transeunte desajeitado da vida e quem sabe, para mim também.

***

O texto que se seguiu é um devaneio, uma vontade. Não é, assim, um postulado de certeza. Foi escrito baseado na composição de Cartola, Peito Vazio

Da tua fuga

Não é de minha autoria, antes de tudo. Mas diz tanto do que eu queria dizer de mim…

 

“A tua fuga é imanente. É o preço na pele de quem fica, de nós, os que acenamos. A tua fuga é perpétua, é a presença da ausência, é morder a boca ao se comer algo tão esperado e sentir apenas o gosto do sangue; lá está você, mais uma vez, no gesto de quem já vai muito cedo, mais cedo, é preciso chegar mais cedo para, depois, deixar esse outro lugar, e ir a mais outro, (teia do argumento dos teus espectros: ir-se).(Você está na minha vida através da sombra alongada no chão, saco de dormir, bitucas inda quentes, coisas que se atrasaram de você, caíram-lhe dos bolsos, coisas que se atiraram para que eu as abrigasse na minha bolsa, ou que você mesmo lembrou-se de esquecê-las por ali, gentilmente. Minha bolsa é um canguru gestante de vestígios, minha bolsa é um saco de provas, as provas recolhidas de um crime, a porta vai batendo, já dá o horário. O teu.)

A tua fuga é crime perpétuo, a imanência da ausência, plenilúnio dos nossos ensaios de dizermos o que deveríamos ter dito: faz favor, fica mais um pouco, come aqui esta sopa, veja, estávamos só te esperando, fique. Mas você é da família das ondas: junta águas de espécies todas, as movediças, as ardentes, as salgadas, as doces, aquelas águas de banho, águas de poço, moringa, o orvalho. Levanta sobre nossas cabeças, despeja-se, recolhe-se. E nós ainda tentamos beber da tua presença, mas tudo é um naufrágio, nossos rostos salpicados de tuas águas, nossas lágrimas.”


Nossos tempos

Um parada no tempo para dar uma olhada no que estamos fazendo do ato de viver.

Até que ponto nossa vida é vivência e até que ponto é exposição apenas para fingir (enganar a si próprio é das piores ilusões existentes) algo que se queria mas não se tem. Não se tem por quais motivos? Trabalho, preguiça, desgosto? Vale a análise interna de cada um; o que vai ser de nós, podemos ainda fazer um novo final?

Um texto ótimo e cheio de perguntas. Autoria da Paula 🙂

Férias parciais. Quero o meu tempo.. quero sentí-lo, percebê-lo, respeitá-lo. Quero escrever(mais), ler um livro, sair de casa, andar sem direção descobrindo as ruas como se as visse pela primeira vez em muito tempo.. quero muito tudo sem pressa e esquecer que horas são sem me preocupar. Esquecer que dia é da semana e fazer do sol o meu parâmetro…



Observo que nossos tempos andam regidos pela urgência. Essa senhora intrometida e histérica que apressa tudo em nossas vidas. Há momentos em que e presença dela até não é de todo ruim, mas em boa parte acho que ela só atrapalha. A urgência é um alarme,um despertador que rompe com o primeiro tempo íntimo de cada um, o tempo de sono.O tempo dos corpos. Até aí tudo bem, posto que impõe disciplina àqueles que por vontade própria provavelmente ficariam entregues à inércia, à preguiça, ao ócio de um leito ou de alguma outra atividade mais prazerosa que as obrigatórias por coersão.De onde eu vejo, o problema maior é quando ela adentra outros tempos nesses nossos tempos. Há coisas que simplesmente não podem ser apressadas, a começar: o escrever, o descobrir, o conhecer, o saber, o fazer artístico, o fazer erótico…o sentir. Viver, de forma geral, não pode exigir pressa, ânsia nem exatidão temporal ou etária.(Temos um tempo comum – aquele nos nos permite conviver e respeitarmos uns aos outros e as instituições e, onde ele termina começam nossos tempos próprios – cada um tem o seu. Sintonia seria, assim, quando dois ou mais tempos próprios convergem em um só). Caso contrário um corre o risco de queimar suas etapas (motivo pelo qual sou avessa aos planos à longo prazo..com datas e idades mensuradas). Penso muito nesse contexto, e com certo pesar, nas crianças. Talvez porque elas são mais passíveis de sofrerem influência do grupo.. de repetirem comportamentos para os quais ainda não estão prontas. Penso também na juventude… a juventude, em qualquer tempo histórico, sempre foi marcada, entre outras coisas, pela pressa em viver. Qual é a nossa?! Sequer sabemos com exatidão aonde vamos, tampouco o caminho certo.. então,para quê tanta pressa?! É como se estivéssemos no prelúdio e a verdadeira canção só começasse aos trinta e com ânsia de chegarmos lá, apressássemos o passo e atropelássemos o compasso. É dançar uma valsa 3/4 em ritmo de rock. Para quê?! Para nos fazermos notados? Chego, aqui, onde pretendia: associar essa pressa em viver com a necessidade incessante em se mostrar que está vivendo.. e não há maneira mais prática e paradoxal de fazê-lo do que por meio de vitrines pessoais em redes sociais.Se é verdade que o outro é espelho de nós mesmos, confirma-se o fato de que precisamos do outro (em maior ou menor escala) para nos convençermos de nossas realidades. Aplique a isso a moralidade da urgência e voilá: chega-se à tendência da vida à mil por hora, do “vivendo intensamente”… Acontece que as mídias sociais não representam a realidade no plano real, e sim um plano paralelo.. uma realidade muitas vezes filtrada e forjada. Alí – você só expõe de você as partes que desejar. (Ninguém mostra, deliberadamente, seus defeitos, seus piores ângulos, suas fraquezas.. seria a negação do “self-promotion”!). Sempre que eu vejo comentários e legendas de fotos nesse etilo “minha vida é uma festa”, crio minhas ácidas dúvidas em tom crítico: “Será? Será mesmo que a vida desta pessoa é tão intensa, frenética e repleta?”. Se fosse na intensidade e velocidade nas quais ela descreve provavelmente ela não teria o tempo de parar para fazer uma exposição daquilo, porque, justamente, estaria tomada pela intensidade louca de sua vida. É um tanto triste pensar que as pessoas estão se tornando mais interessantes em outro plano – protegidas por telas-escudos, sem se permitirem serem conhecidas de fato… até porque como é tudo muito rápido.. fica difícil acompanhar as inúmeras e constantes mudanças. A moralidade da urgência vende, é “in”.. “cool”. Todo mundo quer ser comprado antes de perecer então(?). Ou melhor, ninguém quer perecer… Perecer, bilogicamente falando, é envelhecer e envelhecer definitivamente já está “out-dated”. Agora isso é objeto para outro post e eu já estou embaralhando demais meus pensamentos…”


Christmas Lights

“When your still waiting for the snow to fall…”
Gosto mais dessa versão seca de voz e piano, mas o clipe não fica atrás.
A versão oficial está aqui.

“Christmas night, another fight
Tears we cried a flood
Got all kinds of poison in
Poison in my blood
I took my feet
To Oxford Street
Trying to right a wrong
Just walk away
Those windows say
But I can’t believe she’s gone
When you’re still waiting for the snow to fall
Doesn’t really feel like Christmas at all
Up above candles on air flicker
Oh they flicker and they float
But I’m up here holding on
To all those chandeliers of hope
Like some drunken Elvis singing
I go singing out of tune
Saying how I always loved you darling
And I always will
Oh when you’re still waiting for the snow to fall
Doesn’t really feel like Christmas at all
Still waiting for the snow to fall
It doesn’t really feel like Christmas at all
Those Christmas lights
Light up the street
Down where the sea and city meet
May all your troubles soon be gone
Oh Christmas lights keep shining on
Those Christmas lights
Light up the street
Maybe they’ll bring her back to me
Then all my troubles will be gone
Oh Christmas lights keep shining on
Ohhhh
Oh Christmas lights
Light up the street
Light up the fireworks in me
May all your troubles soon be gone
Those Christmas lights keep shining on”

Suicídio

Eduard-Manet-XX-The-Suicide

The Suicide – Eduard Manet

Há poucos minutos ocorreu uma fatalidade no prédio aqui em frente. Uma mulher, não sei o nome ou idade ou quem sabe a cor dos olhos ou cabelo, decidiu encerrar a vida e deixar-se cair do 17º andar. Para os transeuntes que passam na rua e observam vários carros de polícia, param para perguntar “O que houve?”, há, então, uma resposta que ninguém gostaria de dar mas é a realidade. A mão que vai ao rosto e tampa os lábios abertos assustados, num gesto de surpresa e choque é o que une os desconhecidos – até então – do acidente.


Foi a reação que tive. Essa mesma que me inclui na parcela social que ainda sente uma dor lá no fundo, um desconforto, a agonia de saber que alguém ali tão próximo, seu vizinho, estava talvez sofrendo dores amargas e você nem sabia disso. Não conheço a tal mulher, para mim ela não tem identidade. Assim sendo, como analisar o fato de ela ter sido corajosa a tal ponto de jogar-se do 17º e covarde a ponto de não conseguir encarar a vida? Como pensar num ser, para mim, sem identificação e não jogar-lhe julgamentos? “Meu Deus, o que ela fez?”, “Ah, Senhor, protege essa pequenina”, “Porquê ela pula da janela, morava sozinha, não tinha ninguém, a solidão era implacável?”

Nesse momento me veio a conclusão que a morte, ao menos para o meio em que vivo, está intimamente ligada ao sentimento religioso ou somente àquele que pensa na violência e nas tragédias com um olhar inconformado, mas que pensa: “se é que há alguma coisa do outro lado, que essa pessoa fique bem”. Mesmo por força do hábito àqueles que se abstém das crenças. É inevitável ver um corpo ensanguentado, coberto por um lençol fino e branco, isolado por fitas amarelo-preto, sozinho, sendo observado por policiais, familiares inconsoláveis, e não sentir sequer uma agonia, um susto, um pensamento de oração à mulher que caiu.    Talvez não uma oração declarada, mas sim um pensamento positivo para aquela alma, como uma remissão do pecado, algo que pudesse dar à mulher a esperança que ela não teve em vida.

Lendo sobre suicídio por aqui vi que as causas são sempre doloridas: uma doença, uma frustração, uma desesperança. Afinal de contas, quem vive bem consigo mesmo e com a vida não teria motivos para encerrá-la, a priori. Mesmo num gesto altruísta, se ele mesmo existir, a causa ainda é ruim. Aqueles que tiram a vida em prol do outro, de uma causa, de um desejo, mesmo que pareça caridoso ou heroico não retira do fato os porquês disso acontecer. Geralmente eles sempre são fatalidades.
 

Suicídio, do latim sui (próprio) e caedere (matar), é o ato intencional de matar a si mesmo. Sua causa mais comum é um transtorno mental que pode incluir depressãotranstorno bipolaresquizofreniaalcoolismo e abuso de drogas. Dificuldades financeiras e/ou emocionais também desempenham um fator significativo. Mais de um milhão de pessoas cometem suicídio a cada ano, tornando-se esta a décima causa de morte no mundo. Trata-se de uma das principais causas de morte entre adolescentes eadultos com menos de 35 anos de idade. Entretanto, há uma estimativa de 10 a 20 milhões de tentativas de suicídios não-fatais a cada ano em todo o mundo.

Será que temos o direito de escolher morrer? No nosso livre-arbítrio garantido desde quando fomos postos nesse mundo, temos. Isso não significa, no entanto, que tenhamos essa coragem de escolher. A mulher que se jogou teve, mas não acho que ela tenha considerado todos os fatores a serem pensados antes de tomar uma decisão. Talvez se tivesse pensado, não se jogaria.
 
Que fatores são esses? Hm, pensar em quem deixaríamos aqui, as pessoas que nos amam e talvez a gente nem saiba. Sou capaz ainda de ser feliz? Já tentei tudo que posso para buscar o meu melhoramento interno? Sou doente, já busquei ajuda? Me entreguei ao fundo do poço, é possível sair dele? Porque não tento?
 
Segundo os psicólogos, a resposta pra essas perguntas é: Não consigo. Mas a tradução literal disso é: eu não quero. As coisas parecem tão amargas que a desistência logo vem e nos sentimos incapazes, insuficientes. Exemplos, entretanto, temos aos montes; de pessoas que se encontravam no maior desespero interno e conseguiram melhorar as dores, atenuar, nem que fosse a conta-gotas. Outras não, o conflito íntimo é tão doloroso, tão penoso, que o corpo suplica por uma dose de calmaria, pedindo: “por favor, me tire desse estresse!”. Isso é interpretado então como encerrar tudo que construiu-se, tudo que estava por ser construído.
 
Não sei ainda o motivo interno daquela mulher ter-se deixado levar pela Morte. Não é bom, disso eu sei. Talvez eu nunca fique sabendo, mesmo ela sendo moradora do prédio aqui em frente. E sendo espírita como sou, espero que ela fique bem, que possa ser ajudada e tratada; que suas dores sejam diminuídas e que ela possa não se arrepender do que fez, mas entender que podia ter feito mais em prol de si mesma e de seu íntimo antes de decidir tal coisa. Que ela possa fazer isso agora, no plano espiritual, decidir algo bom pra existência. 
 
Para isso, então, só basta querer. Tomar um objetivo e segui-lo. Porque: se eu quero e mereço, consigo. Se eu não quero, não faço por merecer.


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Dos textos que li essa semana e me encantaram. Autoria de Liz;



“O sangue lhe escorria corpo a fora. E o seu olhar parecia sentir pena de si próprio. Voltava-o para mim, mas eu sabia que não me enxergaria. Só imploravam por redenção. Gritavam por compaixão. Eu não sou de julgar quem. Eu nunca gostei de hipocrisia. Contudo, acabei esquecendo essa parte do meu manual de instruções. Eu não lhe machucaria de propósito. Logo, não aceitaria que o fizesse. Interrompi a barreira de seu suspiro nervoso com um golpe: não tive culpa, as palavras não se guardariam.  Nunca diga que não teve tempo para voltar atrás; Que não conseguiu encontrar o caminho certo. Pois, eu não vou concordar. Você não se importou com a luz no fim do túnel. Ela era eu. Então, você também não se importou com um tanto considerável de coisas. E aí elas só foram embora.  Eu me proibia tirar os olhos de seu rosto. A luz refletia em meia face. A lágrima reluzia-se discreta. Não pararia a corrente dessa, tampouco aquele fluxo doentio do pulso. Baixei o tom, eu não queria fazer doer um pouco mais, se quer saber. — Eu queria ter ido também… Ou queria ter sido útil no tempo em que estive lá para você. Sinto dolorosamente que não fui. Só não servi, não impedi, não consegui. E ainda assim, não posso ir. Senão, não saberia como voltar e isso não seria tão bom. Ou seria. Mas eu sentiria sua falta. Não falta desse ser fraco que você consegue ser agora. E sim falta do sangue pulsando dentro de suas veias eufóricas de amor. Sei que você também sentiria minha falta. Sentiria falta do calor do meu corpo. Porque feito-se em pedra não seria tão confortável, não é? Agora é com você: O que você quer ser? O que você quer ter? O que você quer que eu seja? Quando tiver as respostas, siga a luz. Você sabe onde ela te leva. 

     Eu tinha perdido as forças durante o discurso. O choro preso já não queria ter mais essa condição. Virava-me para sair de seu contato visual que nada via. Porém, algo ainda me queria lá. A sua mão, o seu sangue e lágrimas, o último murmúrio fraco da noite: Você basta.”
                                                                (R, Liz)


O termo, o som e a realização



Das noites acordada trocando interesses e realizações, descobrindo o brilho eterno que por vezes fora ofuscado diante da melancolia, ela realizou-se. A mulher que fora há algumas semanas agora despedia-se do posto para enfim ser retomada pela segurança feminina projetada a partir de um sorriso bonito a ela dispensado. Era isso que ela via. Duas fileiras de branca importância e despreendimento, sorrindo como a iluminar a madrugada de duas almas descobrindo-se.

O nome remetia a talvez um personagem japonês desenhado a traços fortes, ou quem sabe uma composição inusitada de algumas sílabas que soariam sólidas e tônicas. Ela resolveu repetir. “Agro” e “Polus”; da arte bucólica quase arcádica ela viu a primeira soar campesina, solta, livre, humilde. Da segunda ela sequer via sentido lógico ao passo que “lus” impregnava em sua mente enquanto repetia. Agropolus, Agronopois, Agronopolis, Agronopolus, polos, “po-los”, “po-lus”, lus, lus, luz, talvez.
Talvez fosse luz branca com um sorriso a erradicar o sono às madrugadas ou apenas o transtorno doce de uma companhia sem martírios. Eram livres e ela apreciava. Lus, po-lus, po-lus, agro, agro, agronu, nu, nu, nu, agropois. Pois. A sonoridade do termo só trazia a ela mais interesse; que havia escondido atrás de tanto fonética e cuidado? Do carinho oferecido a troca de interesses em comum, haveria um indivíduo displicentemente dedicado a se importar de tal maneira? Ela não sabia responder.
Luz, possivelmente. Alguns focos de luz endereçados a ela vinham afastando os pensamentos tristes e sendo então repaginados por novos sorrisos. Tinham pontos comuns e a construção natural dos acontecimentos levaria-os a uma amizade duradoura permeada de desejos, ela pensava. Desejos do companheirismo atrelaçado, de tocar a alma buscando o conforto, de delinear o rosto com os dedos e desvendar cada pedaço como um território inexplorado, mutável, de beleza discreta e acentuada.
Mas sentia-se realizada, apesar de tudo. Estava vivendo sem premonizar o futuro, e sendo cada vez mais. Gostava de ser. Ser ela apesar de. Ser ela descobrindo Agro e Polus apesar de desconhecer as consequências de tanto repetir a fonética e desejar respostas. Realizava-se a cada ponto de lus, polus, polos, calmamente sujeitado a seus braços de menina-mulher. Pensou poder descobrir o significado de tanto mistério em Agro Pois Polis Polos, nus de certezas, agro-nus-po-lus. Repetia, repetia. 
Repetia ao dormir, ao acordar, ao escrever pequenos textos e enviá-los intencionada, e a repetição era o transtorno. Transtorno bagunçado de mente da menina-mulher nadando em águas desconhecidas, porém singelas, um infinito particular. E ela se perdia, realizada, gostando de ser. E o mistério da sonoridade? Se encerra em si próprio, ela imaginou. Sendo luz, sendo nu, sendo livre, sendo solto, sendo tal. Ela numa mão e ele perseguindo até os dedos tocarem e virarem companheiros de jornada. O mistério, se resolvia, pois: eram dois, apenas. Dois que ela almejava o uno e então lembrava do incerto: não era preciso concluir. Eles iriam se surpreender.


Sonata da compressão

Na imensidão da casa em que morávamos, tricotar era o gosto maior de Irene, mas limpar os cômodos vazios tomava muito de nosso tempo. Eu perdia as leituras dos livros franceses e ela a oportunidade de tecer novas meias e luvas coloridas. Estávamos acostumados a viver na casa sozinhos, Irene e eu, o que gerava certo desconforto.
No meio de um longo corredor havia uma porta de mogno. Fechada, ela apontava a impressão àquele que desconhecia a casa de que o ambiente próximo era sempre muito pequeno. Aberta, no entanto, revelava o lado de lá, cheio de móveis e salas pouco frequentadas a não ser para a habitual limpeza. 
Essa estória não é sobre Irene tricotar ou sobre o fato de eu adorar a biblioteca do outro lado da porta do corredor, mas sobre como foi a vida depois desse outro lado ter sido tomado. Aquele barulho que pareceu um dia uma conversa abafada ou mesmo uma cadeira caindo no tapete, nos trancafiou de um lado e no outro nunca mais visitamos. 
Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou num novelo de fio prata de muitos anos e frequentemente, durante os primeiros dias, abria e fechava as gavetas e olhava com tristeza, pensando talvez: “Não está aqui”.
Passamos a cozinhar juntos e a conversar mais sobre outras coisas que não papai e mamãe ou sobre tricotagem, parecia que Irene sabia mais de outras coisas do mundo e além de irmã viramos amigos. Mas ela temia. Temia que a casa fosse tomada por completo.
Certo dia disse a Irene que iria dormir e antes disso fui à cozinha pegar um copo de leite. Dessa vez o barulho apareceu diferente e pensei: “Será que tomarão a casa toda?”; vinha arrastado, como se algo pesado estivesse sendo movido a passos lentos. O teto tremeu e alguns rastros de farelamento da alvenaria começaram a cair. Estava se movendo.
A essa altura eu já pensava em ir ao sótão procurar possíveis ratazanas quando vi que eu não queria de modo algum permanecer ali sozinho. Gritei Irene e ela veio até mim, assustada e intimou: “desde quando essa cozinha sempre fora tão pequena?”
As paredes estavam se movendo, apertando as nossas tristezas dentro daquela cozinha. Tudo que de bom passamos ali e inclusive o alívio de não ter mais tantos cômodos para limpar, pareciam ter incomodado os que tomaram o outro lado e eles então se esforçavam para nos tirar de lá. As cadeiram rangiram, os pratos desabaram, estalaram, e eu senti meu coração fulminar. Irene estava perplexa, sequer movia o rosto diante de tanta cal, sujeira e menos espaço.
Não adiantava mais correr ou gritar, a porta estava trancada e as paredes movendo-se juntas, uníssonas, nos comprimindo às prateleiras enquanto arrastavam os móveis e desabava o teto aos poucos. Eu não respirava e Irene ficava branca de pavor até que conseguiu chorar. Choramos, então. Eu precisava disso. Os que tomaram o outro lado podiam nos tomar o espaço e talvez a vida comprimida, porém não nos tomariam a oportunidade da melancolia antes do esmagamento.
­As paredes moviam-se e faziam uma sonata do terror, enquanto Irene e eu chorávamos copiosamente, até que senti minha perna comprimir a dela e nos abraçarmos forçosamente. Estavam nos esmagando. A mesa que vinha em minha direção comprimiu-me a barriga e então não consegui respirar. Vi a morte chegando.
Irene cessou o choro para então pedir aos céus que ao menos nosso desencarne fosse menos sofrido e Deus parece ter ouvido sua prece. O barulho cessou. As paredes cessaram. Vi a porta entreabrir. Um vulto passou e não percebi que forma era. Íamos morrer com a liberdade olhando para nós, já que não respirávamos direito e nem mover podíamos.
Depois disso nada me lembro, nem Irene gosta de falar dessa história. Nossa nova casa é menor e não tem corredores, muito menos uma porta de mogno. Disso tudo, então,  tirei proveito, contei em francês sobre vulto negro que nos salvou. Acho que era Deus dando-nos as bençãos de uma nova chance…


Texto inspirado e referenciado no conto Casa tomada, de Júlio Cortazar, escritor argentino.


Canção de ninar

O que te prendes ao mundo?
Ouviste o sussurro do dia?
Os doces e hábeis burburinhos da vida te passam,
pequena

“Seja como a areia,
onde a onda vem bater”
a ti a velha árvore dizia
trespassada, adivinha
Pequena, as joias estão aí

o doce olhar inevitável,
tátil como a mão que aperta,
sufoca
voa o teu vôo livre
seja, pequena, seja

o sonho vai escalando estrelas
e os olhos cerram-se para a dor
enfrentam as fadas, pequena
e o sussurro vem,
sempre vem.

Cantam duas, três vezes
para te ver repousar sofrendo
amargurada pelo dia que é finito
Durma, pequena, durma
Na efemeridade o infinito é teu lar

Irá chegar, as asas nascerão
Ouves o vento?
O que diz ele, pequena?
São areia e onda, batendo
bloqueando nuvens

Ouvem o teu ninar,
Bebem de teus sonhos e,
Beijam-te os seios
e visitam seu leito sussurrando
gemendo

“seja como a areia,
onde a onda vem bater…”
Não entendes, pequena
Apenas seja em seu repousar
e então, as joias lhe tocarão os dedos.

One is the loniliest number


…….Ela ali, que havia ido à praia esperar o pássaro preto ,enquanto ouvia outra vez as crianças em seus trajes de banho coloridos rirem das ondas que vinham banhar os pés e formigar a espuma branca. Mas desta vez ela não esperava feliz. As asas ganhas dualmente, no último encontro, agora se viam depenadas, nuas, mostrando a carne viva e o sangue cor de fogo. Sim, estava nua. Se exibia ao mundo como quem vêm à vida e só vê morte, chora o grito do nascimento por querer voltar ao aconchego e ao sutil destino que ela previra para o pássaro-mulher; se haviam formado depois da intimidade.
…….Augusto dos Anjos entoava seus Versos Íntimos na cabeça de menina que já se prostrava diante da realidade e chorava por dentro. Faz de conta que ela era viva e não dor, faz de conta que ela era um e não dois, faz de conta que Clarice parafraseava a tristeza que sentia, faz de conta que Augusto traduzia em sua mente aquilo que ela não queria enxergar, pois enxergar doía e a dor é o esquecimento do belo, do amor e da alegria.
…….“A mão que afaga é a mesma que apedreja”; a mão, a asa, o carinho, o beijo (véspera do escarro), o rosto, o sonho e a lágrima confundiam seus pensamentos encaracolados; porque? Porque ele voava livre e ela se sentia presa? Presa ao gostar de um mero pássaro preto que de algum tempo passou a suportá-la e não mais agraciá-la como uma companhia angelical, que melhorava o voo e afastava as tristezas…
…….Olhava o céu como se pedisse por favor, ele se esquivaria da conversa e da lágrima? Não queria fazê-la sofrer, ela pensou. Mas não sabia ele que rejeitá-la e se tornar duro, frio e insensível era o maior corte no coração, que já sangrava, feito por suas asas negras inconsequentes.
…….Queria gritar mas seu grito mudo só era ouvido por ela; ele não a escutaria ou sequer a viria buscar. Priorizava muito a sua liberdade para gastá-la com uma menina que só sabe chorar e se deixar pisar…
…….O seu agora negro e liso cabelo pedia e implorava para que o Deus das amarguras fizesse apagar todo o sofrimento do mundo: o castelo de areia das crianças que fora destruído pelo mar, o apedrejamento da mão que diz querer afagar, o olhar furtivo de um pássaro preto que se esquecera, aos pouquinhos, dela, para viver a libertação de ser desapegado, transformar outras e outros em pequenos anjos e depois tirar-lhes as asas.
…….Não a merecia. Quantas vezes escutara isso e não quis acreditar já que o amor cega até a melhor menina, doce e frágil que se via mulher. Estava sozinha na praia. Ficaria sozinha na praia até o corpo cansar do assento e ela se deslocar sozinha e sôfrega até sua casa. Augusto soava: afaga, apedreja, afaga, apedreja… Escreveria num papel, depois, tudo isso que sentira sentada na areia, enquanto os olhos molhados buscavam o horizonte, a brisa lavava o calor e o pensamento se confundia entre ódio, amor, tristeza e pecado.
…….O queria. Ela ainda o queria e o levaria consigo, onde quer que fosse. Pelas ruas, calçadas e devaneios. Mas seria certo oferecer-se se ele voava com asas de outros e fazia ninhos pelos lugares, deixando-a para trás como um passado lindo e senão insuficiente?
…….Ela levantou vagarosa e caminhou da mesma forma pelas ondas já quebradas. Abaixou-se e entreteu-se com uma conchinha azul. Pensou então que os detalhes úmidos do choro de sua epifania só o caderno ficaria sabendo. Jogou a conchinha no mar como quem joga a vida à mercê da sorte e do destino. E o mar… o mar respondeu, sábio, certo e preciso, à ela, à Augusto e à Clarice: vai passar, indiazinha, vai passar.

(15/06/2010)

Esse texto foi inspirado na versão da música One, interpretada por Aimee Mann: