Índia



“Rindo entre as garças, suriris e nhambuzinhas,
Ao ver densa nuvem, lhe pede-que caia…
Formando arco íris, pra ela, as gotinhas
Ao tocarem as águas do lindo Araguaia

Então sussurra: kó ara sy oberab…
Levas de flores da andiroba caindo
Lembram favores com que o vento sorrindo,
Acena à indiazinha-e ela nem sabe…

Antes do arrebol vir pairar sobre o rio
Guardando esse dia, parando ele pede:
Um suspiro à mocinha-que não é banguela;

Infindos lamentos tecendo pra ela,
Ao infinito do seu sorriso, viu,
Rogo lágrimas de amor..”-e se despede”


(Por Caio, para Rafaella Ribeiro)


Dual

Encontrava-se numa praia, sentada à beira-mar, procurando talvez um pouco mais de sentimento e contato, perder-se aos pares, rendida e submissa ao sol que pontuava às 14 horas. Ela vestindo roxo e rubra face, os cabelos em caracóis caíam sobre os olhos negros. Sentada na areia, cantarolava um samba triste sobre uma vida sem memórias tristes, muda e suave; aguardava o pássaro preto que vinha ao seu encontro abrandar o Sol que ardia, que não calava a voz das crianças brincando, com seus trajes pequeninos, na água, como se a última coisa de um calor de sábado fossem castelos de areia e micoses nos pés das princesas.

…………Ela olhou ao lado e viu, talvez, ao longe, um barquinho de papel jornal gritando as notícias do dia: “Homem é preso!”, “Mulher morre!”; vigilâncias e melancolias de uma sociedade hipócrita e imersa na tristeza da desgraça. Ela, no entanto, riu. Riu de si, riu dos outros, riu do barquinho que tomado pela água tombou e afundou. Seria esse o destino dos tantos dissabores? Afundar? Renderem-se à morte sem saber se Deus olharia no Paraíso, absolvendo os pecados de uma menina em roxo e cachos? 

…………Onde estaria o pássaro preto? Estava atrasado, talvez voando e enfrentando os obstáculos das brisas das 15 horas, provindas do mar, chorando o mar, atenuando o suor que molhava a roupa dos pais infelizes e preocupados com seus filhos felizes, saboreando esses uma tarde infantil e doce na praia. 
…………Ela ainda ria por dentro quando sentiu o pássaro preto aterrissar voo ao seu lado. Ele então beijou-lhe a nuca, disse algo louco que ela não se lembraria depois. “Como foi o voo?”, ela perguntou, interessada em algo refrescante e novo, transpassando a gritaria das crianças e jornais. “Conturbado”, ele respondeu sem pressa, observando o movimento das ondas, trazendo vento e conchas, levando o calor, o sonho e o horizonte. 
…………A menina-mulher sequer olhava ao outro por medo de se entregar, inteira e desvairada, aguardava que ele tomasse o primeiro passo. Ele não tomou. Não ia tomar sem que ela se rendesse aos prazeres da carne e se tornasse um pássaro reluzente, com roxas penas e caracóis em pensamento. Orgulhosos dois, ela mulher com perfume recendendo ao sexo, ele pássaro preto, liberto, ardente e sedutor, mas ao mesmo tempo preso à condição da natureza, que modifica o voo, lhe faz cair as penas e acentua a saudade da pequena ao lado. 
…………“Eu gosto de você, sabe.”, disseram os dois mudos, pensando, com os corpos grudados, querendo-se, desejando-se como se o último raio de sol viesse a dar esperanças a um casal impossível mas sedento, doidos de si, sentimentais do sábado, da segunda, da semana e dos meses que se viam.
…………Sempre assim, eles que a letra R tem o nome, Pássaro e Mulher, viam-se homeopáticos, doados aos poucos mas verdadeiros; ao menos ela acreditava na verdade que aparentava existir. 
…………Olharam-se. Rapidamente, medroso tempo da loucura que podia tirar-lhes a sanidade do casal à par do calor, do mar e das famílias, numa tarde misantropa mas composta de risos e relaxamento. 

…………Ela tinha medo e amor quando o percebeu sussurrar em seu ouvido, enigmático: “Já vou. Te levo comigo.”. Não olhou olho, não sorriu. A menina não se permitia entender se era preciso ter asas para alçar voo com ele ou se era necessário permanecer mulher-menina sentada, sentindo e existindo. Ele voou, foi embora, desejando não sabe-se o quê, voou livre, ligado a ela, conectado aos seus cachos como se a dor de viver não fosse maior do que a companhia da mulher com asas cortadas. Ela, olhava o mar, de cima, de perto, de dor, de suor, de dois, de gritos e sussurros, de amor. Nascer de gostar, morrer de gostar…
…………As crianças reclamavam a destruição dos castelos e seus sonhos, com coceiras nos pés. Ela sentiu o vento em seus caracóis enquanto olhava os frenéticos pais juntarem suas coisas num fim de tarde e sol. As aves restavam ali. Perdeu-se em si. Olhou um ponto preto a movimentar-se em direção ao céu, bem longe, e seguiu. Não era pássaro nem mulher. Era, agora, anjinho das asas remendadas.

Alice

.
 Já era tempo de inserir-se no mundo. Sair do comodismo de uma vida sem muitas pretensões, anêmica de sorrisos e permeada por frustrações frequentes. Olhava o vento e sentia a tristeza de desconhecer. Desconhecer a si, ao outro, ao amor, à vida e até ao próprio vento, farfalhando folhas de àrvores próximas ao parque em que ela se encontra, sozinha. Sussurrando em ouvido de mulher, ele dita sereno sábios conselhos em divagações de outono.

. Toma a perna em trote de anseios, o que fazer com tanto sentimento? Sente o vento tocando-lhe os negros cabelos e afagando pequenos momentos, lapsos de memória, quando se descobria menina e não mulher, onde as bonecas e as brincadeiras de casinha tomavam-lhe o espírito. O que fazer? Que fazer de um tempo sem sentido?
. Desconhecer a si mesma cortava-lhe a mente afiada, macia e influenciável. Ela sangrava por dentro. Sangrava como sangue mênstruo que escapa liberto de um corpo exaurido; sangrava como se o vento, não mais aconchegante, lhe fosse remédio para morrer anônima, fora de si, fora do mundo. Já era tempo de inserir-se ali. Dentro do ser. Um mundo particular infinito do qual ela tinha medo de se perder em si, por devaneios, sem a racionalidade daqueles que vivem omissos com o que são e preferem expulsar a subjetividade do entendimento das tentativas de um íntimo treslocado, louco, imenso e sequer digno da luz das verdades.
. Sentia-se exata e medida em suspiros herméticos, embora não quisesse viver assim. Olhando o vento e não enxergando-se por não conhecer-se, já que seus olhos eram cegos da imatéria, incapazes de ver cores internas. Um colorido que ela talvez poderia sentir brotar de dentro, sem afogar-se num mar desconhecido pelo qual ela nadava e só afundava suas forças.
. Ela quer brotar em si, colorir em si, sorrir em si como uma vez sorriu para o sentimento, ainda não ofuscado pela razão dos dias sociais. Ela quer, ela quer e como quer! Quer livrar-se dos dias impróprios e das companhias fúteis; jogar-se dentro de seu íntimo e perder-se como ela, Alice, colorida e epifânica! Como então trabalhar esses sentimentos enjaulados? Como reformar-se por dentro? Sem saber, desconhecendo o desconhecido e mesmo o conhecido gesto de ser aquilo que ela finge ser?
. Tomada pelos pensamentos, ela cai sôfrega no chão, ajoelhada, rendida à mente sem fronteiras. Chora. As lágrimas caem molhando o doce rosto de menina velha, mostrando a Alice a vida como se ela perdesse algo que não mais seria substituído; caem, caem lavando a alma, curando a dor, limpando o cinza e transparecendo luz. Ela é luz. Luz ajoelhada, mas luz. E o vento que afaga continua ali, paciente, esperando que ela abra os olhos vermelhos depois de brilhar colorida, para que ela possa enxergar aquilo que ela sempre procurou: Alice.

11.03.2010

Para Cacau



Cacau é uma cachorrinha
Altamente bonitinha
Corre pela casa inteira
Até perdendo a estribeira
Um amor o cheiro seu
Lhe agrada morder vestido
Enfrenta aos cães com o latido
Gente, ó que cãzinha mais bela:
Ama à dona, não banguela,
Uivando pra lua no céu

(Por: Caio)

Bailarinar

De rodopios infantes eram feitos
dois pés que se cruzavam;
sapatilhas em róseo e calo
suavemente respirando justapostas
em pliés e tendus

melodiando, eles dançavam floridos
ritmar o vento que rodeia e leva o laço
girar e flutuar o negro cabelo
perder no sorriso
chorar a perda

a dor acomete o vestido
o olho úmido sonha Mozart
sangra em ponta
sofre em vida
sente em si

solucionam-se, pois
harmoniando em tristes tropeços
postura que lhe cai e serve como música
aos ouvidos,
aos pés dançarinos

Bailarinam
Bebem da fonte clássica da mistura
Bailarinam
sentimento, ritmo
Bailarinam
saudade, amor, amor, amor
Bailarinam
Degas pintou o emudecer…

Esqueceu o rosto, relembrou o passo
já não lembram mais identidade
pés tramitantes na
saga de doer o quadro
pliés de fuga, sapatilhas de brisa

e Degas sequer reconhece a boca que cala
o corpo que dói
o olho que chora;
emoção que gosta
bailarinar e se perder.

Mágico teatro

Tais sorrisos dispostos em haicai
esperando o outono descer em rabiscos
Santidade e permanência,
ai que gostosa alegria!

Poder gelar a mão, arder as bochechas
cantarolar ao chuveiro
ou só entorpecer a lua com olhos de serpente
que chamam, duais

Ah, que coisa mais linda!
Despertar da inocência
Caminhar por trilhos tortuosos
ou observar as borboletas baterem asas

Arlequins entre cinza e preto
opostos
dispostos
atraídos.

Solstícios e equinócios

E tudo antes parecia tão normal,
indolor aos minutos que sumiam
lento vento
velho tempo
não carecia olhar o passado, outono

apenas desejar o futuro
voando por brisas primaveris
conversar terceiras, quartas estações
brilhando o olho, sonhando dor

Envolta numa colcha de retalhos
protegendo-se do frio, relógio insipiente
ela pensava cintilar o verão,
transpassar o inverno…

Venha calor!
trazer consigo fulgor e compaixão!
Leva embora consigo o cinza, o escuro, o sul
Traga norte, amor e ouro!

Canta sua melodia de Sol
bronzeando a pele devolvendo vida
perpassa pelo coração da pequena,
envolta em colcha de retalhos, pois

Envolva com a tua claridade,
afasta o frio, o sóbrio
e volta;

volta trazendo sorrisos.

Tarde doce

Persiste ainda nos encantos
e olhares esparsos
duas almas que oram chuva e redenção
revezando envergonhar-se,
outra vez socorrer a melodia

oníricas vigilâncias dos segredos
guardados sob sinuosas margaridas
ah, o vento
não lhe torna mais cativante ao saborear o gentil?
dos tropeços de vida fatigada a
orvalho e brisa, choro e clemência

feito hálito de arrebol
e rabiscos de pertença;
rostos de ternura
nascidos para ao Sol dançar a brisa e,
afetuar-se a sorriso amante.
nos dias impróprios,
desviar anseio a tão belo presente
imaterial
navegando em sua harmônica fala de menino
olhando o barquinho, enxergando o mar.

Like a Virgin


Tinha Jade em seu colo. A mão que de repente postava em costura nas costas dava movimento à mente de divagações da pequena. Movia os dedos e Jade sorria consternada, outras vezes a misantropia observava-se em olhos de vidro bem azuis.
Eram amigos.
Por situações Jade parecia ignorar seus desejos de ventríloquo, nem mesmo em solidão a boneca lhe respondia as questões dos prazeres. Jade trajava em vermelho-cetim um vestido que acentuava suas curvas de cedro, trabalho de Gepeto que ele tentava reproduzir em bochechas rosadas; delineados contornos de uma senhora de setenta e cinco centímetros. A ventriloquia lhe substituía a vida social quase vazia não fosse por Jade preencher seu medo de poeta sem interlocutor. Jade falava. Dizia o não dito e traduzia cautelosa os corações de seu dono, vários, em mecânicas vezes em que percebia brilho através de seus olhos de vidro, bem azuis.
Toma Jade no peito e pressiona sua cabeça, com náilon imitando negros cabelos, de modo que Jade pode agora escutar seu coração amante que por ela batia. As mãos postas em costura traduziam os verbetes de Jade dizendo ao aspirante a Gepeto que a vida não se resumia a noites tilintando copos e garrafas, nem embebedando em moldes de madeira que nada imitavam seu andado, muito menos sua voluptuosa traseira e seios em botão.
Nada florescia daquela amizade imóvel entre ventríloquo e boneca esquisita, bonita não era, contudo entendia dos prazeres da carne. Deita Jade, desce o dedo lento e carinhoso atravessando testa, boca sedenta, envolve montanhas com as mãos que criaram escalando, sente o cetim vermelho como se cortasse os ossos e derramasse em vestido da boneca o vermelho vivo arterial, mas de sangue sem oxigênio, por que não mais respirava; Jade lhe trocara o fôlego pelo desejo de tê-la em membro. Não machucaria tal enlace?
O vermelho vestido levanta para mostrar as vergonhas rígidas em madeira escura, cuidou ao fazer parecer uma vulva real. Jade era real. A boneca se abriu como se dissesse “vem”, todavia ela chorava em olhos de vidro, sofria, não pôde gritar ou correr, as mãos que dantes lhe moviam agora trabalhavam em encaixá-la desconforta em pau macio, não de cedro; ele preocupou-se em fazer interior ambiente receptível, tão anfitrião quanto o coração de Jade que lhe recebeu amigo ventríloquo.
Entrava, entretanto, Jade indefesa enfim defende sua vontade, cortava a glande dilacerando em afiados pedaços, estilhaçando e ele prazeroso agradecia, sentia-a não mais em costura nas costas, mas sim em abertura sensual e frígida, que ele preocupou em abrir. Jade penetra como gilete, arranhando o corpo esponjoso a ponto de urrar o ventríloquo em sanidade não mais mensurável; o sêmen preenchia a cavidade, mas não lhe servia como óleo ou sabão que protegesse.
Prendeu-se a Jade. Como nunca imaginou que pudesse. Em loucura sádica de um solitário que apenas tem amizade em boneca falsa, inanimada, ao mesmo tempo companheira que agora lhe prende o membro e reza: “decifra-me ou serei obrigada a devorar”’; arranca o preso sentimento ou deixa o pau mole em casa dura, sentindo agora passar a súplica e a doer em sentidos arrebatando estupidez?
Jade sorri. Sua boca pintada com tom de urucum abriu imaginário sorriso vingativo, compreendia o aspirante a Gepeto, era sua pequena Pinóquio; a amizade ventríloquo-boneca fortalecia laços no presente, tão forte e meramente psíquica. Finalmente um relacionamento se estendia não só a manias de ventríloquo em surto, Jade tornou os dias sombrios daquele solitário insistente em transformar o dueto impossível, elo espiritual fisicamente interminável. Viverá Jade intensamente, agora estancada em seu membro sem escapatória, o que fará? Andaria com um pedaço de madeira grudado nas partes enlaçando os testículos em dor, talvez arrependida, de curioso cafajeste? Jade diz “bem feito, entrança-te comigo e leves-me para onde quer que vás, tira-me a inocência e, por conseguinte, ama-me todos os minutos”.

(11/05/2009)