Pois entre dois retratos olhados…

Ela atrás da vidraça
procurava olhar o céu
Doce e vagarosa, divagando
na mente as lembranças, uma melodia

Através da janela
ela sonhava sorrisos ardentes
azul, preto, branco, lápis
o canto ressonante penetrava maravilhando

ai, poder viver ali sem pressa
pairando vergonhosa sobre os sonhos de
sem toque vivê-lo incompleto
dizendo-se musa das liras encantadas

azul,
preto,
branco,
preto…
nu,
preto,
vida,
azul,
som,
sonho,
listrado,
desenho,
voz,
sorriso,
som,
voz,
sorriso,
voz,
palavra,
voz

Caminha, ela, pelo despertar de um céu
desejando, Senhor, perder-se do tempo
entre retratos infinitos

Olhar a língua que encosta o dente
a alegria misturada à face
o enrubescer do gesto
do amolecer nos braços
do dourado de singelas maçãs de rosto

Ouvir o som perpetuando como suave acústica
carregando consigo:
café,
comida, abraço,
viagem, vida e saudade.

Porque não?

Cinzas à beira

 

As pinceladas de pertença
depuram o ar, em riso
Oh, matinal brisa
sorri sobre mim, displicente!
Margeando as lágrimas
contorna a dor
e convém consigo retornar;
pinta o futuro, desencontre o mar de cinzas!
Das sôfregas tristes cores
se via o azul céu agora aparecer
era vida chegando
era cor do despertar!
As casas embora dormissem
talhando ao ar dentes em leque
solidão se esvai,
suspiros se carregam!
Quão doce é repousar em encanto
ter nos olhos coloridos brilhantes
Oh, brisa escura, passageira
cede agora lugar à melodia das luzes!
Ah, ventania, ilumina-me
Permanece em mim como estrela,
Destroi o cinza,
torna-me suave fulgor de primavera!


Pedro

O Ipê amarelo se faz às frondes

convidativo;

chegando a primavera

anunciava sólido e mágico

a observar duas almas aos pés

Recostados ao tronco, fulminando o arrebol

Ela consternada alivia o pranto

Ele a olhar o céu e seus pássaros

confidentes, tão livres do dia misantropo!

Os cabelos dela, negros, tocando o ombro

Implorando pelo outro um triste por favor

Ele a olhar o céu e seus pássaros,

imaginando voar, transcender-se

acostumar os limites de sentir-se único ali

Ela em lágrimas sente a mão tocada

rígidos dedos do poeta que a buscava

o tom suave e doce de mão de moça entrelaçava

haveria liberdade bastante para um pássaro?

A grama em que se sentam

presencia mão índia e mão poeta

a unirem-se como o tempo, distante contudo satisfeito

Ele a olhá-la e sua vida

defronte caminha como cintilante paisagem

O que lamenta, índia minha?

“Lamento olhar o rio e ver os coloridos peixes,

ver o ipê e lamento enxergar as flores,

lamento olhar o céu e ver sol e luz

Porém não me ver; índia não se vê em lugar algum!”

Ela tem a sôfrega face beijada e

o instante faz-lhe flutuar a olhos do construtor de versos

porventura a acariciavam com encanto.

Dois negros olhos diferentes abertos um ao outro

Brilhantes de encontrarem-se então

No brilho das pequenas janelas negras ela se via refletir

misteriosa, imprescindível, tão comum!

Maravilhoso gostar de se ter formosa

sorrindo, pois,
aos olhos do poeta ao lado.

Índia então sentia

como bambu que curva aos delírios do vento

seus negros cabelos clamaram

arder, cantar, expulsar a dor e absorver em mão

seria o ipê testemunha da emoção tramitada?

Sorriu. E choravam.

dos olhos de índia-poeta caíam flor e sentimento

poeta-índio derramava luz e afeto;

“seus olhos postos nos meus, sua lira,

compõem-me,

nos vemos, enfim!”

Encontrando

Dantes tudo tão monótono parecia
talvez similarmente trivial
como não houvesse maneiras,
artifícios de sentir-se presa consentida

O fulgor sobe as veias
como pressão alavancando sentimento
De onde vem o céu?
Que cheiro tem a emoção?
Pode haver mais suplícios comoventes?

Tal qual estrelinhas dóceis que saboreiam
e alumiam asas
de borboletas farfalhando na barriga
ela, olha-se através da água

Interiorana, marcada
até onde naufragam os navios da existência!
Morreria de amores pelo vento
sereno, alto, afim
ditador das horas compassadas!

Ar, ar que sopra-lhe a nuca
tamborilando sons e sussurros
Afaga a dor e revela-se!

Margeando e caminhando pelo rio,
do lado oposto,
gosto,
ela chora o vento,
massageador das árvores,
ressucitador das perdições!

Índia e brisa,
justapostas, tão comuns
distantes por terra e água
por destino, saberá?

Porque ele não vem?
Rio, soprar reciprocidade,
oh vento!

Morena, ela percebe-se
refletida no espelho d’água a vida pacata
de indiazinha que por ventura
sente-se amor novamente

Negros cabelos lisos da
água límpida que vem
banhar o seio, lavar a alma
aumentar o sopro de esperança
que se origina da montanha, do vento
oh, aroma intragável das manhãs de dissabores!

Venha, vento! ela suplica redentora
Afaga a dor e

revela-se.


Mineira

Oxum Opará, óleo sobre tela

Mas diga gente, que está se passando?
Ante os castelos e no duro azul
Reais cavaleiros e velas parando
Indo foram ver a princesa do sul!

Antes do d’Ouro o famoso Opará
Nas águas claras alegre inteiro;
Ai, nem as florzinhas de seus umbuzeiros,
Ah.. tinham a graça, dela a sorrir lá!

Nasce porém, desde o Chico ao Douro,
De um mesmo sol de ouro o brilhar todo ano;
Rindo o céu claro, Janeiro a Janeiro.

A essa mocinha, com voz de soprano,
Dona no peito do Galo mineiro,
Envio estes versos, vento a um tesouro.”


(Por Caio)


Gerânios

Gerânios na janela
sem cortinas,
O que será que vê?
Lírios?
Tropeços?
Sôfregas disputas de sonhos

Brilham sozinhos os olhos
desacompanhados
Através das janelas escuras
sem cortinas
Ela observa o quê?
Futuro seu?
Aplausos do viver sorrindo

Impulsos de pequena
sem cortinas,
sem tristezas
só, sozinha, está.
Só.

Os gerânios, lírios,
margaridas, tulipas e
girassóis

Ah, iluminam
o olhar de menina que,
através de fresta em janela,
sem cortina
Porque não abre?,
Medo do escuro?,
observa seu silêncio.

(22/06/2009)

Emerenciana

Sugeriu respirar alguns laços de aroma, um perfume de inverno que não desejava senão despertar as carícias de um novo dia. Lançou palavras heterogêneas, um bom dia insosso a companheira ao lado dormindo, resumiam um tanto de consolo de vida, neblina; viver em paz. Cantarola um samba triste, clama sorrisos, o sol nascia na janela. Prenúncios de total desconfiança. Beija a testa da mulher fingida, gelada em estado de dormência, eram ainda seis da manhã. Levanta, caminha só, procurando sabe-se lá o quê, sabe-se lá quem, era necessário fingir mais um dia, aceitar outra vez, mesmo sabendo que a companheira lhe traía, deitava-se com outra pessoa, outro batimento, outra sintonia? Seria conivente com as águas do rio que corriam passageiras, levando um pouco do coração em gosto de felicidade? Traía-lhe com outras sensações, outros lábios; beijava-lhe a testa e com carinho dizia o insosso bom dia sabendo assim mesmo que ela não merecia atenção por demais. “Vadia! Como pude lhe amar de tal forma? Conter essa imensa saudade que sinto de sermos só nós, gritos mudos em uma casa só nossa, em que as paredes e móveis contavam às visitas nossas histórias, jantares e tilintares de copos se quebrando quando nos amávamos sem pressa, só profundo, amor..”. Escora na cômoda ali perto, refletindo quem sabe agora sobre o próximo capítulo da telenovela, mas não, não lhe desvencilha a idéia de Emerenciana estar ali ao lado, deitada, dormindo como anjo em libertação, e ao tempo que não estava, não pertencia mais aos laços que construíram, era vaga, distante, muda. Mudez que perpetuava como um pedaço de metal a cortar o seio de qualquer humano em estado de sonegação, sabia que ela não voltaria. Não lhe teria aos braços a procurar abrigo, nem a perceberia oferecer a vulva para levá-la ao delírio do pecado, mulata que dormia e pensava em seus sonhos outro corpo, outro sabor, ao menos dormindo pecava somente em imaginação. Decidiu, ajeitando as costas na cômoda, que Emerenciana não merecia tanto sentimento. Atravessou obstáculos por ela, pra vivê-la um pouquinho, e recebia ingratidão de uma malvada que mal sabia respirar ao dormir? Devia largá-la aos cupins daquela casa imunda, ou sumir, arrumar outra, outro lar, outra mulher. Quem haveria de aceitar, sem ironia? Aceitar uma puta sem casa, embriagada da névoa do frio que fazia nas ruas, talvez por fantasia ou maldição lhe aceitassem lésbica e foragida, também ressentia a pensar que mudou por Emerenciana. Sim, iria desventurar-se com outras mulheres, afinal, Emerenciana só sabia dormir. Chega próximo à cama, ajoelha-se de modo a olhar Emerenciana dormir profundo. “Que está pensando, fingida? Acorda e conta! Conta-me o motivo de dormir com uma mulher todos os dias e em sonhos é de outra, desgraçada!” Enrijece a mão e sova o rosto do anjo que dormia, “sinta isso, a dor de sentir solidão, como sinto desde que só dormes para sonhar com outra e não com a mulher que lhe olha com carinho, eu te amo, será que não vê?! Levanta e volta, sonhe comigo, com nossas noites de amor, com nossos dissabores, não sonhe com outra, pois pertence a mim o seu coração, o seu sentimento, eu sei que sim, porque não responde, vagabunda? Está a fingir novamente que não me vê, que não me sente a tocar tua pele e a lhe desejar bom dia, a lhe trazer alimento na cama sempre, a cuidar de ti adoentada, calada, porque não larga a ingratidão e volta pra sentir, anjinho, meus braços e seio a lhe acalmarem a tortura de só saber sonhar, de só imaginar, não pense em outra, não durma! Acorda fingida! Sei que estás a sonhar liberta com outros jardins e eu presa aqui a olhar-te com desprezo por não me amar mais, me ame Emerenciana, por favor, lhe peço amada minha!” E batendo, sacudindo o corpo defunto de Emerenciana, se via a chorar novamente, sobre o corpo que só dormia, “acorde amor, não pretendo mais lhe magoar, divida comigo esse fardo de viver sozinha, quero estar contigo anjo meu! Acorde e diga que não sonhas com outra, que o que sinto é ciúme bobo e a úlcera que tenho não é por chorar teu desencarne, me olhe desgraçada! Abra os olhos e vê que ajoelho-me a pedir que vá me abraçar matinal como sempre fazia, Emerenciana, não me ignore mais!” Haveriam de aceitar duas mulheres a morar juntas,a amarem o pecado do maravilhoso desejo pelo mesmo sexo, sempre juntas, felicidade unidas, contudo haveriam de aceitar mulher e Emerenciana defunta, morta por escorregar sôfrega num dia de calor e bater a cabeça? Mudou tanto pelo anjo que só dormia, atravessou obstáculos por ela, haveria de viver sempre com uma mulher que logo iria entrar em decomposição? Já não cheirava a tulipas. Beija a face gelada do anjinho fingido que dormia, deita na cama, cobre-se, segura mão de Emerenciana que lhe ignorava. “Dorme um pouco mais vagabunda, mas sonhe comigo, com tua mulher, não com outra, não aguento traição, não como fazes comigo, a me ignorar, todavia, mesmo a chorar sem motivos pra sorrir, assim, mulher a lhe amar, Emerenciana, irei a seu encontro.”. O frio trazia rebuliço na cortinagem do quarto, fácil demais. O tilintar do copinho de veneno o vento escutou cair.


Início de passagem

Uma cesta adornada de papel celofane amarelado pelo tempo trazia lembranças de tristezas partilhadas. Desenhos de menina que um dia foram habitat de sonhos de estudante, aprendendo delicada a escrever seu nome; letras miúdas em fôrma corrida, na pressa aprender a murchar a juventude de donzela, pequena moça de cinco anos. Decorando com formosa dedicação suas letras de música amassadas, poesias cantadas sobre sua vida sem forma, rosa que desabrochara, santo relicário. Fino pente passara em suas vivências e agora se deparava com uma insolúvel necessidade de esquecer. Papéis coloridos em uma cestinha embrulhada em celofane parecendo leiloar sentimentos, contavam histórias de presentes-pretéritos acalentados pelos braços de uma mulher que não queria crescer. Esquecer, o quê? As cores corriam em seus olhos verdes e ela dedilhava seu passado, com fome de moça aprendera a ser amante, poderia ser algo maravilhoso? Vendia seus papéis em busca de um amigo que compreendesse sem dizer suas emoções, alguns botões que a aguardassem chegar em casa. Esconder-se de suas privacidades, tornar livre seus pequenos vestidos bordados por vovó que presenciaram ventos e terra, brincadeiras infantis. Como simplismente deletar de memória suas decepções, alavancas do renovar de uma alma em construção? O sangue agora subia aos olhos e fazia lacrimejar, recordar, recordar. Saía a rua e tantos lugares, tantos lugares que um dia lhe fizeram sorrir apaixonada em companhia de sutis tortos sorrisos, masculinos, quanto pecado, tanta violação de maravilhas virtuosas? Preparar-se-ia para violar suas memórias com uma destreza, apagar. Um único amor nascido de seu único ódio. Acende uma vela, desliga as luzes elétricas, sangue supitando vontade. Encosta o dedo frágil numa das pontas tortas do velho celofane amarelo, nunca havia achado realmente um lugar que pudesse lar ser chamado, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, acabar assim, ter no rosto a sensação da fúria de objetinho usado em mãos que te descobrira como se fosse animal entrando em reprodução? Essa cestinha, tantas ilusões, brinquedinhos que lhe fizeram companhia ao deitar-se e inicar meditações de sonoras violetas, presentes presentes, um colarzinho, um ursinho de pelúcia rosado que olhava com carinho, galanteios de um partilhar sem conotação que ela resolvera partir, mudar-se, conhecer novos horizontes. Rasga o celofane com rapidez como band-aid, por quê?, por quê?, por quê?, subestimaram sua alma de mulher, esqueceram que ela decorava com propósito sua letrinha, suas músicas desastradas, não era boba, encontrar ela iria maneira de controlar os pensamentos. Suas memoriazinhas infantis guarda em caixa de metal, não iria abandoná-las, não assim, num corpo assim, em choro copioso de amargura passageira. Guarda os vários rabiscos de sóis, casinhas, pessoas, árvores, borboletas e flores que um dia lhe fizeram sorrir ao desvendar traços mais fortes e segurança ao colorir, oferecendo sentido ás mãos ao desenhar suas vitórias de cinco anos. Infância saborosa, vez em quando visitava essa dulcilidade que desgasta-se ao se (des)amadurecer. Retira suas músicas tristes, uns fados alegres tirados ao violão quando adolescente, guarda alguns que lhe traziam meias verdades. Lembranças boas, dezessete anos. Olha o que resta, cesta carregada de amores passageiros, todos passageiros; por quê?, se culpava? danificaria seus conceitos de virgem romanticismo? Ah, como doíam passageiros. Pega os brinquedinhos, chora desesperada, ah, abandoná-los era trabalhosa revelação, contudo não poderia desejar estar daquela maneira, jogaria fora todos os seus amores e diversões masculinas, e manteria resquícios de amizade. Colarezinhos, flores, mentiras, tantas inverdades, mentiras, mentiras… Por quê?, por quê?, tivera que ser sempre assim? sempre indelicada e passageiros? Não era bastante capaz para manter um gostar em sua companhia? Era mulher que não gostava da idéia de crescer, ursinhos, bilhetes de cinema, filmes que não vira por aproveitar os doces de ser jovem e ter um parceiro, todos passageiros, todos mentiras, mentiras que lhe faziam crescer e ela manter-se uma criança frágil, dentro de um corpo desenvolvido, mentiras, idiotices que iniciaram alegrias e sempre dores terminavam. Joga numa cesta todas as lembranças, todas as dúvidas e todas as vontades de mulher, do sexo, dos toques, dos sabores de lábios e membros que já havia provado. Pulseirinhas que um dia prenunciaram laços, falsos, fracos, duravam pouco, uns meses, mas sempre lhe abandonavam, sempre lhe deixavam a escanteio, por quê?, por quê?, não mais. E ela sentira alegria de sentir-se sozinha, solteira e animada, velha talvez, com interior de menina. Acende um fósforo e joga na lixeira, assiste e aplaude o espetáculo minúsculo de chamas corroendo sensações e imaginações. Livrava-se do peso de ser responsável e ser jogada várias vezes num canto como se pudessem tocá-la e descartá-la? Por toda a vida de mulher fora estúpida a ponto de ser conivente com palavras falsas de carinho apenas para acalentar a solidão que sentia, poder provar o açúcar de lábios e mãos que lhe apertavam os seios a lhe pedir o corpo e não o sangue, suas formas de saciar o instinto e doar-se aos homens que lhe pediam uma transa, não preenchiam seu vazio de menina, apagando todos essas espessas memórias e vendo-as se consumirem pelo fogo, pelo ardor de coitos, de encontros, de selvagens toques carnais que começara a deixar de lado, as cinzas seriam as sobras de seus dissabores, de suas desventuras seguidas em relacionamentos que só lhe trouxeram felicidades parciais. Limpa o chão, beija a pequena caixinha de metal e a guarda segura na cômoda antiga, penteia os finos cabelos, olhando no espelho sua alegria interna refletindo em sorriso, esquecera, esquecera! Abre a porta, vai descendo lerda as escadarias do casarão onde morava. Na sala de jantar a esperavam ansiosos para comemorar com os dela olhos verdes outro ano de vida, outro ano qualquer; ela olha para trás, olha a porta do quarto e relembra a lixeira em fogo. Sorri abençoada, junta as mãos e percorre o terço que lhe vinha ao pescoço, agradeço Senhor pelas experiências que me dera, pelas gentilezas vividas com intensas tristezas e também alegrias, pelas desilusões em série que me fizeram desamadurecer e me continuar menina, voltei a amar meu interno. Preparo-me para continuar vivendo, amando, entregando-me aos tropeços das montanhas-russas que passei. Início da minha vida, da minha ingenuidade e amor-próprio. O sonho das companhias acabou. Feliz noventa e três anos.


Tenha Fé

O clima do calor intenso ia perdendo-se em brisas frias adentrando pela enferrujada janela da casa descascada. Por vezes sentiu-se só, estupefado em silêncio prenunciava prece, o homem saiu da casa ás 15h. Vou sair, disse em esperança ao menos alguém notasse sua insignificância. Não houve resposta, um barulho de vaso dentro se ouviu quebrar, não preocupou-se em investigações, era preciso sair. Entrou no carro. As mãos trêmulas e gélidas de defunto em corpo vivo seguraram o volante como quem pede por favor, precisava-se sair. Olhou a casa, as paredes em tom róseo um tanto desgastadas necessitando reparos, para quê? Olha o interior do veículo, organização e ordem que sempre prezou ali presentificou-se, nenhum brinquedo ou mancha de sorvete do passeio inútil até a praça com os filhos no dia anterior. Nada. Absolutamente vazio. Sentiu-se só, outra vez. Pega um cd de samba qualquer, Bezerra da Silva para agradar-lhe o sentimento de quem não mais o ouviria. Deu partida, saía da garagem lentamente, o sangue fervilhava, sangrava por dentro. Suava. Fedia. Suava e dirigia com fedor de alma pútrida, olhou-se no espelho do carro e viu-se tosco, calado, desesperado, não aguentava mais tudo aquilo, Bezerra soava e a solidão batia em seu peito, não, não, era preciso sair, sair, sair, sair, sair!, sair… Como era necessário, livrar-se dos orgulhos e devaneios de uma vidinha cinza, dos problemas sem conotação ao que se via chorar como criança, criança velha com fedor de sustenido, já 18h eram quando chegou ao local. Estacionou o carro a beira do rio, desligou. Apagou-se. As mãos perdiam o calor que não tinham, chorava, Bezerra narrando seus elos, não é possível, para quê? Devaneios por quê?, divagações, sair, precisava-se sair, sair, sair, sair, encosta a cabeça no volante do parado carro e joga mãos sobre rosto molhado rezando, liberta-me, usa-me Senhor, eu que agora vou a lhe encontrar, leva-me às fontes de águas vivas Senhor, eu, liberta-me, eu, sair, sair, sair, sair, sair, sair… E riu. Gargalhou risadas de esquizofrênico consciente, engraçado isso, estou aqui, logo não mais estarei, sair, sair, sair, liberta-me eu, sair da prisão, sair, tornar a ser, caminhar ao altar dos átrios de quem necessitava vida, louco, louco, louco, não, preciso sair, sair… Desceu do carro, tirou as roupas. O corpo nu de um velho de quarenta anos mostrava marcas de suicídio, medíocre, de emoção pobre de espírito, um idiota em cabelos caindo em calvície. Nunca fora alguma coisa. Contudo, em minutos tornaria-se alguém, alguém que mergulharia em águas e quem sabe unir-se à divindade dos anjos; sentou-se na margem do rio e olhou que era profundo mais do que imaginou. Não sentiu medo a princípio. Gargalhava, seus dentes amarelados e cobertos de sôfrega falta de escovação anunciavam risadas epifânicas, insólitas, em gargalhadas de louco ele transpirava morte, irei sair, irei sair, sair, sair, enfim, sair, sair, liberta-me Senhor, liberta-me eu! Levantou-se e com força empurrava risadas de negra lataria de quarenta anos, sair, liberta-me eu Pai! Permaneça-me contigo em dor e alegria Ele! E jogou. Via-se a água envolver com doçura canibal e lenta sofridão o corpo pesado, doloroso, enferrujado, louco, pensava em alucinações enquanto sentia cair, sair, sair, sair, liberta meus sonhos, esperanças, sair, sair, amor, quero amor! Viu o fundo, gélido como toque de defunto em corpo vivo. O automóvel que agora em negras águas de rio era coberto presenciava loucura de maluco sem medicamentos. Bezerra cantou sua morte, porque não pulou? Sair, é preciso sair, sair, sair, chorava, chorava sangue. Vestiu as roupas, acendeu um charuto que estava no bolso da calça, organizado porém nada higiênico, não, não, sim, sair da prisão, dos dias, da dor, sair… Voltaria ao lar de sofrimentos, à vida cinza de marido estúpido? Ainda havia tempo… Era covarde demais para ouvir o Senhor dizer em sussurro quando à beira do rio: “quero viver contigo, não estás só, coragem filho! A fome da tua alma posso sanar, coragem querido!”. Demasiado para ouvir ou jogar-se em suicídio, para imaginação de coloridos pincéis de desenhos de bravura, tragou outra vez, olhou o rio almejando sentir sua pele em calor subtraído, como bom seria refrescar-me e deixar-me ali, sair, precisava sair, libertar-me eu, deixar, sair, enlouquecer, sair, sair da prisão, sair… Chorou silencioso. As lágrimas percorriam rugas e ele deixou o cigarro apagado cair misantropo, necessidade de salvação palpitava em desespero, irei sair, agora, sair, enfim sair, sair, não, não, não, sair, não, sair. Que será que Marta fará para o café amanhã?


XXII – Antes do calor II

Um relacionamento bonito, carinhoso, afável a ponto de unir corações que queriam bater juntos. O Homem era vivo, em rua sempre doce e sociável, sorria, agressivo descompassado, um lírio de manhãs que refletiam seu violento Sol interior. A Mulher não, por vezes tentava expressar educação e tentativa de introsar, pertencer. Com habilidade era o oposto, calada, dura, capaz de permanecer em pensamentos seus por dias, sem necessitar do calor de outro ali, convivente de tardes naturalmente sozinha. Conheceram-se muda e sorriso sedento, sempre assim. Nada tinham convergente. O Homem detestava prisão que ela encontrava liberdade, solitarismo que ela Mulher transformava em orgulhosa misantropia. Dele paciente e alma tranqüila não se importava com os raios de calor do sol que em forma masculina se presentificava. Talvez uma amizade contida criou-se em diferenças, unia-os o sofrível esforço de ser amável por mulher e o vago conhecimento de solidão por homem. Tentaram evoluir, modificar essa fraca união para pequenos elos de carinho e responsabilidade; enamoraram-se. O Homem se via em gostoso mar particular, brilhava nela a análise de reflexão íntima que ele como aprendiz sagaz obtinha. Pertencia a ela mais e mais, sendo ainda doce e pequeno violento sol, que descobre fugas em aprendizagem de prisão liberta: solidão para alucinações de peito que necessitava de brecha para gritar frustrações. A Mulher era mistério por arduamente tentar conviver, absorvia aos poucos iluminada dos raios de sol que ela tinha em olhos ali, preenchendo o vazio que ela almejava ser preenchido: companheirismo. Como oxímoro das fôrmas de casais existentes eles se uniam, imersos em conhecimento do outro e vontade de permanecer em mãos dadas e respeito em construção. Amor, quem sabe. Meses, dias, tempo se passava e abriam-se descobertas, eu te gosto, é, eu também, você se lembra?, tome aqui, adoro tanto seu jeito, você me enfurece, não me deixe, ilumine-me mais, contagie-me! Um dia discutiam diferenças. Farpas de choro contido e sofrimento de Mulher sozinha, ela não compreendia como o Homem a entendia sem entender, amava sem escolher. Decidiu. O Sol real batia em vitral da janela, iluminando xícaras de cafés cúmplice, brigou com ela. Besteirinha de casal, reerguia sentimentos; no entanto era violento, agressivo em olhar grande divagação feminina, homem. Reclamou, enraiveceu, perguntou. A Mulher manteve-se calada e pensativa, rosto virado a olhar o orvalho das flores no jardim vizinho. Me olha, fala para mim, não me ignore, estou falando com você!, saco, porque sempre faz assim?, me corrói o coração, não lhe aguento mais! Teria solução? Paciente ela vira a cabeça e o olho molhado escorre imaginação em lágrima, olha ternura: casa comigo? E como se a xícara de café voltasse a queimar o coração enfurecido, o Homem seca com força a lágrima do rosto delicado e sente: com o maior prazer.