XXI – Antes do calor

Era tarde de verão. As mãos entrelaçadas prenunciavam sentimento, até quando? Dois corpos situados em um momento de torrencialidade, talvez alegria e carinho cúmplice, andavam em direção ao fim, ao destino culposo que os levaria à separação das mentes. Ela não se doou até ali, tantos encontros anteriores em que se sentia presa, tímida, pobre. Ele, em mente bobagens, todavia contemplava-a em sua divagação de menina boba e frágil, pequenina e viva, solzinho, a esperava, impaciente, esperava uma mudança dos dias de união. Andavam e conversavam futilidades, nada da poesia e do lúdico que os mantinham agregados a um sorriso distante, imaginativo, um corpo ali e outro lá, barrados, vontade própria permanecer vago. Está quente, é, não chove há dias, podia chover, você gosta de flores, gosto sim, um estalo na bochecha, faltava algo. Ele impaciente, em mente bobagens, mas um romantismo fraco deixava transparecer. Ela podia se doar, pensava. Num banco de pracinha deserta sentaram-se, abriram-se oportunidades, testam vontades com lábios ardentes, provocação que ela gostava, mas cansava-se da prisão que sentia. Libertar-se fazia necessário. Ele mais impaciente, distante a cada mão grudada na dela, teria que fazê-lo regressar. Sorris! Liberdade de menina que entra em desconhecido, desejava seguir além, permanecer mais do que menina, ser mulher, agradá-lo quem sabe, mas ser o que fora predestinada. Tabus que a complicavam, ela resolve doar-se. Ah! O medo da opinião do outro não mais lhe interessavam, queria sentir-se ela e ninguém. Egoísmo que ele esperava, impaciente. As mãos entrelaçadas se soltam e basculam corpos, pernas, coxas, rostos infantis. Na mente bobagens. Ah, ela deixar-se-ia procurar, pode pegar aqui, eu deixo, ele não mais impaciente, talvez ardente e carnalizado. Que importa? Dois amantes de um dia de sol que partia, a noite fazia céu para menina que revelou mulher e menino que ludibriava-se como criança que ganha brinquedo que tanto aguardou. Bobagens, bobagens. Ferormônios que subitamente convergiam, porque não conheceram-se antes assim? Calor, com suor e noite que causava; sorrisos, malícia, ah, bobagens. Ela ainda menina, tímida, deixava-se levar por mãos de investigador sedento, liberdade, dois seres de dedos não mais temerosos, mas de abraços carnais enamorados que foram sempre. Tolices? E viam-se envoltos por sacanagens descobertas, ela gozando liberdade, ele mordendo-lhe a carne como feroz animal; contemplando a lua, ele chorou. A união relativa de corpos não lhe trouxera a certeza da emoção, amava-a? Gostava dela, ah, como gostava, não sabia o que era gostar e amar, gostava apenas, sentia-a mais jornada que companheira, difícil envolverem-se em desconhecido. Primeiras-vezes sentidas, calafrios numa úmida sensação de vazio que funde aos negros cabelos dela, suspira em seu ombro, repete palavras doces, meras repetições de relacionamentos passados, talvez não este, nunca vira mulher em fôrma de menina, tão enclausurada em medo de libertação, ninguém deixava luz entrar em peito como ela fazia salvação, entretanto solitário, esguio, ela libertava-se e não ele, preso ainda às inconstâncias de sua alma, sentia-a mulher, sua, ela olhava-o a ele como homem, gostavam-se, ele, passaria tudo isso da mera banalidade do sexual? Gostavam-se, não conheciam-se, descobriam-se, gostava dela, pensava que gostava, uma racionalidade que tornava-se necessidade, mas racionalidade. Tornou-se frio, ela libertou-se e ele enclausurado em razões sem significado, gostava dela (só) pensamento, cônjuges do escuro que agora tocavam-lhes a pele, macio, macia, e trazia a não mais separação de pensamentos, laçados agora a elos de pertença, união de duas mentes solitárias havia agora em lua nova; e de corações?


XVIII – Colírio

Married to the sea – Clare Elsaesser


Ela não era triste, nem melancólica, nem contraditória, complexa e muito menos exacerbada de sentimentos frios e não-coloridos. Era alegre, divertida, singela e caricata, realmente muito doce em sapatilhas românticas e fitas de cabelo em cores vivas. Porque haveria de ser triste. Possuia sonhos, desejos, nem a mera sensação literária do estar profundo momentâneo lhe abatia os sorrisos. Era superficialmente loucura de suas manhãs carregadas de felicidade e utopia, um pequeno Sol era possível para lhe arrancar risos e calor; não era solitária, a grama, os pés, a Terra, a lontra, os pássaros, asas, árvores e silêncio lhe faziam surda companhia. Cantava com as vozes da montanha e grafava alegrias com seus dedinhos em pincéis de vento, coloria e se divertia; contagiava as direções de sabores púrpura, carnavalizando os vinte e quatro raios de sonho que irradiava, pequenina e sorridente. Tão diferente do mundo comum, frio e coisificado, dono da precisão do existir em crise, sempre em crises, era dificuldade sempre se sentir feliz. Ela conseguia, contemplava seus lírios, colírios, não tentava, apenas almejava com corpo-mente-luz manter-se como no próximo minuto, no próximo instante de sabedoria, em existências de coloridos lápis-de-cor. O que era ela? Sua fantasia e sua mágica de uma tardezinha primaveril, sem culpa, sem febre, sem ter as mãos postas como uma linda flor. Somente existia, numa encarnação pura de salvação da reforma íntima.


XVII – Torrão de açúcar

 

Blue Nude – Pablo Picasso

Ludibria-se de alegriazinhas constantes em significativa flexibilidade de pensamentos infantis, que num choque de fulgor e prazer tocado a valsinhas melancólicas de mínimos detalhes sórdidos se torna jocosa sensação de adultivez, de se conhecer os mistérios de um corpo inabalável e até antes secreto, que se abre, que se deixa fluir com pudor sensível, mas brilhantemente ardente como primaveril… contempla confusivamente seus devaneios, tua mente sempre em preocupações e nunca presentificada ali, em companhia de doce segredo que te olha como se te fosses sempre alarmante de suas fúrias e desejos, contudo não te retribuis o olhar, a doçura, teu demonstrar vago e distante sensação de dois pedaços de entorpecentes; quer-se a boca, o lábio, o amargo, o corpo, o gosto, o tátil e sobra-se o sentimento doce, não dividido, inquebrantável, alegriazinha de adulto choroso; chora, chora, chora, cuspiu-se outra vez em seus instintos e sintonia de amabilidade, não te fazes perceber que a boca adocicada que te beija é a única que te surpreende ao ponto de não quereres que se afaste em amarguras? Torna-se desilusão, dificuldades de adultos que alegriazinhas não suportam,mas anseiam por olharte como fútil e imprescindível Sol de seus sonhos de criança. Pede-te, anseia-te, necessita-te como jamais registrou em seus gulosos olhinhos de querubim, pequenino segredo doce, que te olha com afeto e não sabes, e tornam a se construir, a se enlouquecer, cada fulgor é dedilhado com permissividade de duas mentes de alegriazinhas distintas, adultas e adulteradas pela civilização do carinho e companheirismo; jornada em pedras desenhadas com um amarelo dourado formando uma estrada que transmite suas alucinações enquanto dorme sorrindo infantil.


Nem tudo é o que parece ser

O mundo está meio emo ultimamente. Estou até me sentindo um pouco emo ao escrever isso. Ah, foda-se. Pouco me importa essas poucas palavras ditas sem sonoridade pela minha boca suja e ávida por um sentimentozinho qualquer. As felicidades que tenho no momento não são dignas de serem ditas ou pronunciadas de forma, sejá lá que forma; não quero que passem, são taciturnas e divertidinhas, me fazem bem, e isso é difinitivamente a parte mais emo de minha vida. Glória! Chá e bafão, umas insignificâncias pra dizer que o dia é belo, melancolicamente, é claro.

XV – Raça

num corselete pueril, ela entreolhava o destino de mucama desajeitada, preta, feiticeira. Come o pão que o diabo preparou, tão machadiana e Capitolina, um quê de Xica da Silva urbana; completa-se, fumo e trabalho, detesta-se. Escrava das liberdades, sorriso de dentes brancos, cantarolava para o vento, singela negra; dança, se ajeita, diverte-se como frágil criancinha contente. Faz da vida exercício cativante, humilde carinho de ama-de-leite. Sábia, por toda a vida.

XIV – Filha de Clarice

A sala escura iluminava os pensamentos solitários de uma mulher. Não havia luz, uma sala vazia, e ela, de vestido vermelho de laço, tantos anos talvez, de longe mais. Bonita, um escorregadio negro cabelo, pele morena, traços fortes e crises de ervilha. Estava sentada em uma poltrona delicada, deixando que o escuro a possuísse por inteiro. Queria ser, mas não era. Tantas vezes lera Clarice com perplexidades inajustáveis de ervilha, sentira-se flácida e deslocada, fascinantemente iludida com meras linhas de um livro dos prazeres sutis, geralmente se sentira mais dedilhada e tresloucada, queria ser, saber o que era ser, ter a leve noção fútil do sentimento de ser, ser, ser, necessitava destes pequenos ajustes em seus coloridos devaneios, ser, nem seu vestido rubro jamais sentira-se tão infante, garboso e justamente contido em pensamentos de ervilha. Acomodada, deixa sutilmente que suas mãos frágeis e gélidas deslizem pelo couro preto do assento, sensual, dócil, ávido, deliciosamente num movimento de mãos iniciantes. Inicia com um dos dedos, lenta, sofrível, sentindo o tecido em sua junção de táteis alucinações, epifânico, o coração repousado começa uma dança que fervilha, bombeia sangue a cada movimento; para cima, para baixo, para cima, pa…ra bai…, ci…ma ah, ah…, AH…, bai…xo para… aumenta o contato com a palma das mãos, sente-se acelerando-se, o couro macio e novo deixando em suas unhas o gosto da loucura, quase púrpura, no escuro de uma sala vazia, sozinha; para cima, para baixo… Fulgor, sente-se tresloucada, amada; Contrai os dedinhos quietos, aperta o couro como se se sustentasse em emoções de um pseudo-orgasmo; sente-se quente, ofegante, o couro lhe ensinaria dúvidas? suspira e ofega, circula seus olhos pedindo mais, maiores dúvidas, maior breu e deixar-se estatelar num olhar cínico de ervilha. Queria ser, necessitava ser, mas não era. O escuro da sala vazia beijava-lhe os cabelos negros suados das doçuras de pequena índia em vermelho; sonhava, solitária, o couro amigo não lhe ensinara como ser; tem que ser, precisa ser, deseja arduamente ser. Mas não era. Seus pensamentos de ervilha e a epifania de um contato amante louco entre a morena e o assento negro não lhe eram, não lhe demonstravam ser, queria ser. Despiu-se. Joga o vestido rubro num canto, caminha pela sala tão vazia, tão mórbida. Nua, deixa-se cair e o chão frio e intenso lhe adocica o corpo curvilíneo desprotegido, a mercê do frio misantropo que lhe toma cauteloso o fulgor de uma anterior breve tentativa de ser. Queria ser, precisava ser. Pensamentos de ervilha que não desapareciam, fixação em retilíneos sorrisos singelos. Não era. Deseja desistir, pega um isqueiro velho escondido no laço do vestido acetinado, acende um cigarro, senta-se no chão virgem; cerra os olhos, desiste de ser. Fraca demasiada para ser, estúpida, infantil, vômito em seu asco, cabelos agora fétidos pela fumaça produzida, derrama as cinzas lentamente a cada nova tragada, não queria mais ser, não persistiria, não consegue persistir, forte demais pra uma morena que sofre; balbucia algumas sílabas desconexas, não é, porquê? talvez, não era, nunca foi… Entreabre os olhos macios e observa o escuro, contemplando-o. Uma lágrima simples meiguice desvencilha-se em seu rosto difícil. Uma nova tragada e não se preocupa mais com pensamentos de ervilha, mesmo ali, nua, numa vergonha contida de estar naturalmente ligada ao escuro; querubim, ardente, misterioso, ligados por um momento distante, lírico, íntimo. E contempla-o, sente-o, quieta, imóvel, em tragadas largas de um carinho de cúmplices, sente-se abraçada, cuidada, tão sozinha, e juntos guardavam um segredo maior, destino de um coração que se via sozinho, em tragadas num escuro acalantador, nem o couro ouvia seu choro copioso interno, tão inaudível e expressivo, ela relembrava de instantes de sorrisos, de felicidades ínfimas e logo tragava novamente, o escuro lhe afagando os cabelos, sempre estaria com ela, era dele, ela se dividia em cigarros, um sorriso pálido, bastante fosco, e uma nudez de sentimentos, numa desistência de estar púrpura, mulher agora do escuro, do cigarro, do chão, do seu corpo, de seu choro, se entregava sem malícias, sem constrangimento, compreendida ali, pelo silêncio de um diálogo de amigos,de conhecidos, de amantes. E enfim, ela era.