29.08.2012  

A busca pelo sorriso perfeito – Parte 2

A minha saga odontológica continua a todo vapor, sem previsão de acabar. Há 8 anos venho lutando pelo sorriso perfeito, vez em quando parece que o fim está próximo e quando a luz no final do túnel resolve dar as caras, o túnel sofre uma super expansão e a minha caminhada é prolongada.

Depois do dente-da-frente-defunto ter uma nova tala de fibra de avião, roupinha de resina e arrumar um emprego de modelo de fotografia (vide Parte 1 da minha saga), minha odisseia foi acalmada por uns meses, se limitando àquelas visitas à Drª Flávia para um flúor aqui, limpeza acolá. Fiquei nesses meses realmente muito irritada por ainda consultar  uma “dentista de criança”; já me achava grandona e digna de um profissional que não me atendesse juntamente com bebês ou crianças de 6 anos, afinal, eu tinha 14 anos. Meu cérebro já estava mais desenvolvido para ler na recepção as revistas Caras e Contigo do século passado ao invés de brincar de encaixar e colorir nas minúsculas mesinhas.


 Foi numa dessas consultas que o dente-defunto descobriu ter um vizinho anquilosado. A Anquilose consiste na fusão anatômica do cemento dentário com o osso alveolar, podendo acontecer em qualquer fase eruptiva, antecedendo ou sucedendo a erupção do dente na cavidade bucal, fazendo com que o elemento dentário permaneça em infra-oclusão (MENDES & MENDES, 1991; COUTINHO & SOUZA, 1994; MULLALLY et al., 1995; CORRÊA et al, 1996; COUTINHO & SANTOS, 1999).”. 

Em palavras acessíveis é, no meu caso, o fato de que um dos meus dentes nasceu sem raiz e, por isso, era grudado no osso. A raiz é que faz o dente de leite cair e por conseguinte nascer um permanente. Como esse vizinho não tinha raiz, estava lá, grudadinho no osso, eu ficaria eternamente com dente de criança pela minha genética. Bem apropriado, né, o acompanhamento de uma dentista especialista em crianças eu já tinha. Só faltava saber o que fazer com o tal vizinho.



A fase de crescimento pela qual eu passava no momento em que descobri que o defunto modelo tinha um vizinho difícil impediu que a dentista movesse uma ação de despejo para esse bendito anquilosado. Eu deveria esperar até a maioridade (ou até parar de crescer) para que ele fosse removido. Iria eu ficar em paz até que o vizinho difícil fosse retirado do meu sorriso, pensei. Mas não, a minha odisseia tinha uma pedra no meio do caminho. Ou melhor, uma grade.


Uma grade das boas, que aperta o cerco, é difícil de limpar e é feia que dói. Minha dificuldade de sorrir mesmo tendo um dente-modelo-defunto aumentou ainda mais.  As fotografias que eu tirei desde 2007 são, necessariamente, com um sorriso torto, de lábios, sem dentes. Já me envergonhava do defunto, agora toda a vizinhança estava enrolada em bractes e cola e ferro e dor e borrachinha e ferro. 

Algumas pessoas acham um sorriso colgrade atraente, mas só quem é usuário e convive com essa cerca metálica sabe o problema que isso é. A foto acima não serve de embasamento; a minha odisseia, caro leitor, não é feliz. Imagine enrolada em arame.

Irei resumir 4 anos de metalização em um parágrafo. Até porque me dói, não me é confortável a lembrança e porque essa é uma fase de vergonha interna da minha vida., embora não seja a maior. Em compensação o parágrafo é grande, cheio de dicas. Veja só:

Se você tem aparelho, sabe que depois que se termina de comer um prato, continua-se comendo. Sim, nojento, mas nossas línguas nunca foram tão necessárias para retirar pedaços de arroz, verduras engarranchadas, feijão preso e qualquer outro alimento que, automaticamente, é atraído para as garras dessa rede de ferrinhos e que, inevitavelmente, precisa ser retirado para até dar menos trabalho à escovação. Borrachinhas coloridas são feias, sempre achei. Pretas dão a impressão de que os dentes estão cariados; vermelho, sangrando; amarelo, sujos; brancas ficam amarelas e portanto, sujas; azul vira preto e daí já se sabe. Cinza é a cor, opte por ela. Não amarela tanto, é discreta. Discrição é uma meta quase inalcançável quando se tem um sorriso metálico, mas nunca é demais procurar. Usei diversos tipos de escova próprias para aparelho ortodôntico, são realmente boas mas há momentos em que elas não estão a mão e é preciso saber usar a boa e velha escova convencional. É quase como ter um caso de amor com uma escova de dentes. Passa-fio é indispensável. Esse arame farpado dificulta até o posicionamento dos lábios no começo, imagine higienizar entre os dentes. A grade foi feita para blindar higiene, para apertar sua boca e lhe fazer fic
ar dias a fio sem conseguir mastigar nem uma maria mole. Os dentes ficam alinhados, uma vizinhança modelada para a perfeição se você não tiver um vizinho-defunto e um vizinho-difícil. A brancura se vai, o amarelo fica. Quanto mais tempo a arcada fica cercada por arame, maior a probabilidade de amarelar. Aliás, vai amarelar. A higienização dirá o quanto.  Tome cuidado ao beijar. No meio do caminho tem uma grade no meio do caminho. Lembre-se sempre disso. Sempre. Em todas as ocasiões.



Na Parte 3, não perca: o vizinho-defunto será despejado? As grades sairão e libertarão a vizinhança? O vizinho defunto ganhará uma nova roupa?

Ainda estou longe do final. Muito mais do que uma postagem no Mantra, essa minha odisseia é um livro de lembranças sobre um caminho cheio de pedras, ferros, dores, cirurgias, pontos, vergonha, fio-dental, risadas até aprender a sorrir direito. É um memorial de meu sorriso imperfeito, um epitáfio para o defunto e um atenuante para o anquilosado. Mas, acima de tudo, é uma busca incessante pelo fim e por um recomeço. Se possível, sorridente.


15.08.2012  

A busca pelo sorriso perfeito – Parte 1

Não me lembro qual foi a primeira vez em que fui ao dentista. Apenas sei que, desde muito pequena, meu pai me levava, juntamente com minha irmã, a consultas de rotina mensais, para aquelas limpezas periódicas, tratamento de flúor e coisa e tal. A preocupação na minha família com a beleza de um sorriso sempre foi muito grande, já que meus pais, tios, avós, padrinhos e afins não tiveram “a mesma oportunidade” que eu de tratar a boca, palitar a  arcada e ter os dentes saudáveis e naturais. “Fui conhecer uma escova de dentes quando eu tinha 12 anos“, “naquela época nem tinha anestesia, era tudo no alicate“, “escovar a boca? Fio-dental? oi?“, bem assim, inspirador, como uma voz-sermão que ressoa na sua cabeça a cada vez que você deixa seus nem-tão-belos dentes à mostra.



A minha saga começou numa brincadeira de empurra-empurra. Coisa de criança, brincar de briga, quem nunca? Mas foi numa dessas que caí de boca no chão e logo aquele, o mais visto, o abre-alas da arcada, o incisivo central, resolve quebrar lateralmente, me deixando com meio-dente-da-frente.  Canal vai, canal vem, agulhada aqui, agulhada acolá, tadinho, não sobreviveu. Uma pena, o defunto resinado foi taxado a “dente de fotografia”. Não sentiria mais nada, nem frio, nem calor, nem o sabor dos alimentos; destinado a se sustentar incólume às intempéries a que seus colegas de fileira sempre se submeteriam. Estava morto, pois. Mas estava ali, na frente, com metade de seu corpo moldado a resina, bem frágil.


Morder maçã, comer pão, rasgar a carne, com os dentes da frente? Nunca mais. Os molares e pré-molares depois da pancada teriam um novo destino pela frente: aprender a morder, bem antes de saber mastigar. Eu era uma menina de 11 anos que, a partir de então, nunca mais poderia colocar a sua infantaria abre-alas em ação. Mesmo o dente vivo que é vizinho do defunto, se resguardaria a ser, também, um “dente-de-fotografia”.



Dois anos depois, uma nova pancada. Não só na minha boca que velozmente se chocou ao fundo da piscina em que eu nadava num feriado, mas na carteira do meu pai. Tratamentos estéticos estão cada vez mais caros, menos dolorosos, mais sofisticados. Contudo, a labuta continua a mesma. E foi assim que o defunto perdeu até sua roupa de resina, sobrando só um pedacinho do esmalte para contar história. Dois anos de fotografia perdidos, mais canal. É nessa parte da vida que eu descubro a tecnologia odontológica: poderia um pino feito da mesma fibra de asa de avião compor parte do novo corpo do dente-defunto? Sim, e isso foi feito. Está lá, até hoje, um pino de fibra pra sustentar o defunto em pé. Morreu, mas ao menos posa para a foto com dignidade, né?


Aprendi a partir destes episódios que os meus dentes abre-alas seriam modelos apenas para fotografias. Nada de utilizá-los com a função a que vieram ao mundo. Minha sina foi traçada e o meu sorriso foi desaparecendo. Nem nas fotografias aparecia mais. A minha busca pelo sorriso perfeito me deixou longe dos holofotes: cada vez menos eu sorria para as fotos, abria a boca para rir ou coisa parecida.

Mas essa é só a primeira parte da minha odisseia. Na parte dois eu venho aqui me revelar com o mais tímido dos sorrisos, com uma vergonha estampada na cara por ter o meu cartão-postal prejudicado não só pelos tombos e pelo dente-defunto, mas pela genética que me dificultou (e ainda dificulta) a caminhada até chegar ao sorriso branquinho, alinhado, bem bonito, como nas fotos que ilustram os consultórios dos dentistas pelos quais passei.

E daí vem o aparelho, os sisos, as manutenções e muitas consultas mais, anestesias mais, pontos que costuraram a minha boca diversas vezes, como se quisessem suturar o meu sorriso e o esconder atrás dos lábios. Conto depois, um dia mais tarde. Hoje ainda tenho um repouso a manter após mais uma cirurgia odontológica.

Meu sorriso perfeito, será que vem? Será que é necessário? Ainda estou refletindo sobre. Enquanto isso, vou cuidando do defunto que, logo mais, receberá uma nova veste, porcelanada. Quem sabe não fica bonito combinar com a fibra de avião, né? 🙂