Vem cá

vem cá, vamos conversar

me fala da sua vida, 
do que você mais gosta de comer
da sua cor preferida, 
no que você pensa quando vê o mar
você quer viver de quê? 
quer viver porquê? 
me diz se você sabe dançar, 
se você sabe que o seu coração é do tamanho do mundo

conversa comigo, 
fala pra mim dos seus anseios,
me diz quem é que conta seus passos, 
me diz seu café da manhã do ano passado e 
diz que é comigo que você quer acordar

fala pra mim que cheiro tem sua roupa,
que brinquedo foi o seu predileto
qual seu voo, sua escada
qual  é o gosto da vida na sua pele cansada
qual seu medo

vem cá, me diz qual a sua razão
me mostra a sua letra na sua carta de amor
me diz que amanhã o dia é bonito
e que nossa conversa vai durar o instante do presente
do segundo trocado
da verdade sentida
da voz na sua melodia
e da mão a escrever a história 
de quem tem muito a dizer no silêncio das almas.

Poema para Rafaella


“querida Rafaella
você é tão bonita
que quando você vem
eu olho pela janela
tudo rima com ela
até siriguela
e se você não gostar desse poema
eu te corto a guela”


(LIRA, Eduardo. 25/12/2012)

Dos meus presentes de Natal mais sinceros.



Canção de ninar

O que te prendes ao mundo?
Ouviste o sussurro do dia?
Os doces e hábeis burburinhos da vida te passam,
pequena

“Seja como a areia,
onde a onda vem bater”
a ti a velha árvore dizia
trespassada, adivinha
Pequena, as joias estão aí

o doce olhar inevitável,
tátil como a mão que aperta,
sufoca
voa o teu vôo livre
seja, pequena, seja

o sonho vai escalando estrelas
e os olhos cerram-se para a dor
enfrentam as fadas, pequena
e o sussurro vem,
sempre vem.

Cantam duas, três vezes
para te ver repousar sofrendo
amargurada pelo dia que é finito
Durma, pequena, durma
Na efemeridade o infinito é teu lar

Irá chegar, as asas nascerão
Ouves o vento?
O que diz ele, pequena?
São areia e onda, batendo
bloqueando nuvens

Ouvem o teu ninar,
Bebem de teus sonhos e,
Beijam-te os seios
e visitam seu leito sussurrando
gemendo

“seja como a areia,
onde a onda vem bater…”
Não entendes, pequena
Apenas seja em seu repousar
e então, as joias lhe tocarão os dedos.

Índia



“Rindo entre as garças, suriris e nhambuzinhas,
Ao ver densa nuvem, lhe pede-que caia…
Formando arco íris, pra ela, as gotinhas
Ao tocarem as águas do lindo Araguaia

Então sussurra: kó ara sy oberab…
Levas de flores da andiroba caindo
Lembram favores com que o vento sorrindo,
Acena à indiazinha-e ela nem sabe…

Antes do arrebol vir pairar sobre o rio
Guardando esse dia, parando ele pede:
Um suspiro à mocinha-que não é banguela;

Infindos lamentos tecendo pra ela,
Ao infinito do seu sorriso, viu,
Rogo lágrimas de amor..”-e se despede”


(Por Caio, para Rafaella Ribeiro)


Para Cacau



Cacau é uma cachorrinha
Altamente bonitinha
Corre pela casa inteira
Até perdendo a estribeira
Um amor o cheiro seu
Lhe agrada morder vestido
Enfrenta aos cães com o latido
Gente, ó que cãzinha mais bela:
Ama à dona, não banguela,
Uivando pra lua no céu

(Por: Caio)

Bailarinar

De rodopios infantes eram feitos
dois pés que se cruzavam;
sapatilhas em róseo e calo
suavemente respirando justapostas
em pliés e tendus

melodiando, eles dançavam floridos
ritmar o vento que rodeia e leva o laço
girar e flutuar o negro cabelo
perder no sorriso
chorar a perda

a dor acomete o vestido
o olho úmido sonha Mozart
sangra em ponta
sofre em vida
sente em si

solucionam-se, pois
harmoniando em tristes tropeços
postura que lhe cai e serve como música
aos ouvidos,
aos pés dançarinos

Bailarinam
Bebem da fonte clássica da mistura
Bailarinam
sentimento, ritmo
Bailarinam
saudade, amor, amor, amor
Bailarinam
Degas pintou o emudecer…

Esqueceu o rosto, relembrou o passo
já não lembram mais identidade
pés tramitantes na
saga de doer o quadro
pliés de fuga, sapatilhas de brisa

e Degas sequer reconhece a boca que cala
o corpo que dói
o olho que chora;
emoção que gosta
bailarinar e se perder.

Mágico teatro

Tais sorrisos dispostos em haicai
esperando o outono descer em rabiscos
Santidade e permanência,
ai que gostosa alegria!

Poder gelar a mão, arder as bochechas
cantarolar ao chuveiro
ou só entorpecer a lua com olhos de serpente
que chamam, duais

Ah, que coisa mais linda!
Despertar da inocência
Caminhar por trilhos tortuosos
ou observar as borboletas baterem asas

Arlequins entre cinza e preto
opostos
dispostos
atraídos.

Solstícios e equinócios

E tudo antes parecia tão normal,
indolor aos minutos que sumiam
lento vento
velho tempo
não carecia olhar o passado, outono

apenas desejar o futuro
voando por brisas primaveris
conversar terceiras, quartas estações
brilhando o olho, sonhando dor

Envolta numa colcha de retalhos
protegendo-se do frio, relógio insipiente
ela pensava cintilar o verão,
transpassar o inverno…

Venha calor!
trazer consigo fulgor e compaixão!
Leva embora consigo o cinza, o escuro, o sul
Traga norte, amor e ouro!

Canta sua melodia de Sol
bronzeando a pele devolvendo vida
perpassa pelo coração da pequena,
envolta em colcha de retalhos, pois

Envolva com a tua claridade,
afasta o frio, o sóbrio
e volta;

volta trazendo sorrisos.

Tarde doce

Persiste ainda nos encantos
e olhares esparsos
duas almas que oram chuva e redenção
revezando envergonhar-se,
outra vez socorrer a melodia

oníricas vigilâncias dos segredos
guardados sob sinuosas margaridas
ah, o vento
não lhe torna mais cativante ao saborear o gentil?
dos tropeços de vida fatigada a
orvalho e brisa, choro e clemência

feito hálito de arrebol
e rabiscos de pertença;
rostos de ternura
nascidos para ao Sol dançar a brisa e,
afetuar-se a sorriso amante.
nos dias impróprios,
desviar anseio a tão belo presente
imaterial
navegando em sua harmônica fala de menino
olhando o barquinho, enxergando o mar.