Pois entre dois retratos olhados…

Ela atrás da vidraça
procurava olhar o céu
Doce e vagarosa, divagando
na mente as lembranças, uma melodia

Através da janela
ela sonhava sorrisos ardentes
azul, preto, branco, lápis
o canto ressonante penetrava maravilhando

ai, poder viver ali sem pressa
pairando vergonhosa sobre os sonhos de
sem toque vivê-lo incompleto
dizendo-se musa das liras encantadas

azul,
preto,
branco,
preto…
nu,
preto,
vida,
azul,
som,
sonho,
listrado,
desenho,
voz,
sorriso,
som,
voz,
sorriso,
voz,
palavra,
voz

Caminha, ela, pelo despertar de um céu
desejando, Senhor, perder-se do tempo
entre retratos infinitos

Olhar a língua que encosta o dente
a alegria misturada à face
o enrubescer do gesto
do amolecer nos braços
do dourado de singelas maçãs de rosto

Ouvir o som perpetuando como suave acústica
carregando consigo:
café,
comida, abraço,
viagem, vida e saudade.

Porque não?

Cinzas à beira

 

As pinceladas de pertença
depuram o ar, em riso
Oh, matinal brisa
sorri sobre mim, displicente!
Margeando as lágrimas
contorna a dor
e convém consigo retornar;
pinta o futuro, desencontre o mar de cinzas!
Das sôfregas tristes cores
se via o azul céu agora aparecer
era vida chegando
era cor do despertar!
As casas embora dormissem
talhando ao ar dentes em leque
solidão se esvai,
suspiros se carregam!
Quão doce é repousar em encanto
ter nos olhos coloridos brilhantes
Oh, brisa escura, passageira
cede agora lugar à melodia das luzes!
Ah, ventania, ilumina-me
Permanece em mim como estrela,
Destroi o cinza,
torna-me suave fulgor de primavera!


Pedro

O Ipê amarelo se faz às frondes

convidativo;

chegando a primavera

anunciava sólido e mágico

a observar duas almas aos pés

Recostados ao tronco, fulminando o arrebol

Ela consternada alivia o pranto

Ele a olhar o céu e seus pássaros

confidentes, tão livres do dia misantropo!

Os cabelos dela, negros, tocando o ombro

Implorando pelo outro um triste por favor

Ele a olhar o céu e seus pássaros,

imaginando voar, transcender-se

acostumar os limites de sentir-se único ali

Ela em lágrimas sente a mão tocada

rígidos dedos do poeta que a buscava

o tom suave e doce de mão de moça entrelaçava

haveria liberdade bastante para um pássaro?

A grama em que se sentam

presencia mão índia e mão poeta

a unirem-se como o tempo, distante contudo satisfeito

Ele a olhá-la e sua vida

defronte caminha como cintilante paisagem

O que lamenta, índia minha?

“Lamento olhar o rio e ver os coloridos peixes,

ver o ipê e lamento enxergar as flores,

lamento olhar o céu e ver sol e luz

Porém não me ver; índia não se vê em lugar algum!”

Ela tem a sôfrega face beijada e

o instante faz-lhe flutuar a olhos do construtor de versos

porventura a acariciavam com encanto.

Dois negros olhos diferentes abertos um ao outro

Brilhantes de encontrarem-se então

No brilho das pequenas janelas negras ela se via refletir

misteriosa, imprescindível, tão comum!

Maravilhoso gostar de se ter formosa

sorrindo, pois,
aos olhos do poeta ao lado.

Índia então sentia

como bambu que curva aos delírios do vento

seus negros cabelos clamaram

arder, cantar, expulsar a dor e absorver em mão

seria o ipê testemunha da emoção tramitada?

Sorriu. E choravam.

dos olhos de índia-poeta caíam flor e sentimento

poeta-índio derramava luz e afeto;

“seus olhos postos nos meus, sua lira,

compõem-me,

nos vemos, enfim!”

Encontrando

Dantes tudo tão monótono parecia
talvez similarmente trivial
como não houvesse maneiras,
artifícios de sentir-se presa consentida

O fulgor sobe as veias
como pressão alavancando sentimento
De onde vem o céu?
Que cheiro tem a emoção?
Pode haver mais suplícios comoventes?

Tal qual estrelinhas dóceis que saboreiam
e alumiam asas
de borboletas farfalhando na barriga
ela, olha-se através da água

Interiorana, marcada
até onde naufragam os navios da existência!
Morreria de amores pelo vento
sereno, alto, afim
ditador das horas compassadas!

Ar, ar que sopra-lhe a nuca
tamborilando sons e sussurros
Afaga a dor e revela-se!

Margeando e caminhando pelo rio,
do lado oposto,
gosto,
ela chora o vento,
massageador das árvores,
ressucitador das perdições!

Índia e brisa,
justapostas, tão comuns
distantes por terra e água
por destino, saberá?

Porque ele não vem?
Rio, soprar reciprocidade,
oh vento!

Morena, ela percebe-se
refletida no espelho d’água a vida pacata
de indiazinha que por ventura
sente-se amor novamente

Negros cabelos lisos da
água límpida que vem
banhar o seio, lavar a alma
aumentar o sopro de esperança
que se origina da montanha, do vento
oh, aroma intragável das manhãs de dissabores!

Venha, vento! ela suplica redentora
Afaga a dor e

revela-se.


Mineira

Oxum Opará, óleo sobre tela

Mas diga gente, que está se passando?
Ante os castelos e no duro azul
Reais cavaleiros e velas parando
Indo foram ver a princesa do sul!

Antes do d’Ouro o famoso Opará
Nas águas claras alegre inteiro;
Ai, nem as florzinhas de seus umbuzeiros,
Ah.. tinham a graça, dela a sorrir lá!

Nasce porém, desde o Chico ao Douro,
De um mesmo sol de ouro o brilhar todo ano;
Rindo o céu claro, Janeiro a Janeiro.

A essa mocinha, com voz de soprano,
Dona no peito do Galo mineiro,
Envio estes versos, vento a um tesouro.”


(Por Caio)


Gerânios

Gerânios na janela
sem cortinas,
O que será que vê?
Lírios?
Tropeços?
Sôfregas disputas de sonhos

Brilham sozinhos os olhos
desacompanhados
Através das janelas escuras
sem cortinas
Ela observa o quê?
Futuro seu?
Aplausos do viver sorrindo

Impulsos de pequena
sem cortinas,
sem tristezas
só, sozinha, está.
Só.

Os gerânios, lírios,
margaridas, tulipas e
girassóis

Ah, iluminam
o olhar de menina que,
através de fresta em janela,
sem cortina
Porque não abre?,
Medo do escuro?,
observa seu silêncio.

(22/06/2009)

XX – Inconstância

< Procuras a felicidade,
amor,?
regressas ao teu oceano
ínfimo,
tortuoso,
líquido;

brilha-o a ele e sente-te
como nuvem silenciosa
em noite magnífica

ama-te!
tão somente como guia,
mártir,
basculante do escuro de teu coração que clama

sonorila, dorme
rezas, doce amor,
e ela regressará.


XIX – Sintomas de primavera

E recorda o sorriso,

colorido socorro de sua imaginação
cansátil

corrigia seu olhar nos dele,
em pensamento;
onde estaria o acalanto
contemplando, em vão, divaga
pinceladas de pertença

sustentava-se como se toda luz
tivesse valia, seu custo, esforço a dedicar-nos
desejar contudo não construir fitas enlaçáveis
porque não te englobas em girassóis,
amor de meus sentidos?

navio que parte e não regressa
volta volta volta volte…
dentro olho como se te amasse
em seus vários sorrisos, vagos contatos, em
distintos toques de proteção,
e não regressas, novamente.

chegastes a me sorrir, um dia?


Lá no alto da colina

Lá no alto da colina
havia uma menina

que cantava

melodias tristes ou batidas sozinhas
não lhe faziam diferença
só pesavam em pequenas lágrimas
de um vestido azul cor de mar

ela sorria e atrapalhada
lia Sol em seus suspiros;
lá no alto da colina
a menina que sabia voar…

Pintava coloridos céus malfattianos
em sua imaginação bem doce;
beijava-lhe o sangue e o rosto,

rodava-lhe o azul vestido,

vento sutil que sussurrava:

vem dançar café comigo, querubim

e ela pula um pulo livre,
gosto de liberdade de anjinhotinha asas… era fada…
e morre sorrindo valsinhas;

era o fim da bela époque.


XVI – Castelinho

suscetibilidade morna,
estrelinhas protetoras sob meus pés
cintilam seus sorrisos de metáforas

metáforas metáforas metáforas
como dizer que sentir-se sozinha é
esfoliante, um adocicado de
solidão
macia, molhando meus olhos;
táteis divergências, falou-se em carícias

escondem-se os benefícios da
pura droga de que a noite necessita:
calor humano.