14.06.2011  

.

Dos textos que li essa semana e me encantaram. Autoria de Liz;



“O sangue lhe escorria corpo a fora. E o seu olhar parecia sentir pena de si próprio. Voltava-o para mim, mas eu sabia que não me enxergaria. Só imploravam por redenção. Gritavam por compaixão. Eu não sou de julgar quem. Eu nunca gostei de hipocrisia. Contudo, acabei esquecendo essa parte do meu manual de instruções. Eu não lhe machucaria de propósito. Logo, não aceitaria que o fizesse. Interrompi a barreira de seu suspiro nervoso com um golpe: não tive culpa, as palavras não se guardariam.  Nunca diga que não teve tempo para voltar atrás; Que não conseguiu encontrar o caminho certo. Pois, eu não vou concordar. Você não se importou com a luz no fim do túnel. Ela era eu. Então, você também não se importou com um tanto considerável de coisas. E aí elas só foram embora.  Eu me proibia tirar os olhos de seu rosto. A luz refletia em meia face. A lágrima reluzia-se discreta. Não pararia a corrente dessa, tampouco aquele fluxo doentio do pulso. Baixei o tom, eu não queria fazer doer um pouco mais, se quer saber. — Eu queria ter ido também… Ou queria ter sido útil no tempo em que estive lá para você. Sinto dolorosamente que não fui. Só não servi, não impedi, não consegui. E ainda assim, não posso ir. Senão, não saberia como voltar e isso não seria tão bom. Ou seria. Mas eu sentiria sua falta. Não falta desse ser fraco que você consegue ser agora. E sim falta do sangue pulsando dentro de suas veias eufóricas de amor. Sei que você também sentiria minha falta. Sentiria falta do calor do meu corpo. Porque feito-se em pedra não seria tão confortável, não é? Agora é com você: O que você quer ser? O que você quer ter? O que você quer que eu seja? Quando tiver as respostas, siga a luz. Você sabe onde ela te leva. 

     Eu tinha perdido as forças durante o discurso. O choro preso já não queria ter mais essa condição. Virava-me para sair de seu contato visual que nada via. Porém, algo ainda me queria lá. A sua mão, o seu sangue e lágrimas, o último murmúrio fraco da noite: Você basta.”
                                                                (R, Liz)


09.04.2011  

O termo, o som e a realização



Das noites acordada trocando interesses e realizações, descobrindo o brilho eterno que por vezes fora ofuscado diante da melancolia, ela realizou-se. A mulher que fora há algumas semanas agora despedia-se do posto para enfim ser retomada pela segurança feminina projetada a partir de um sorriso bonito a ela dispensado. Era isso que ela via. Duas fileiras de branca importância e despreendimento, sorrindo como a iluminar a madrugada de duas almas descobrindo-se.

O nome remetia a talvez um personagem japonês desenhado a traços fortes, ou quem sabe uma composição inusitada de algumas sílabas que soariam sólidas e tônicas. Ela resolveu repetir. “Agro” e “Polus”; da arte bucólica quase arcádica ela viu a primeira soar campesina, solta, livre, humilde. Da segunda ela sequer via sentido lógico ao passo que “lus” impregnava em sua mente enquanto repetia. Agropolus, Agronopois, Agronopolis, Agronopolus, polos, “po-los”, “po-lus”, lus, lus, luz, talvez.
Talvez fosse luz branca com um sorriso a erradicar o sono às madrugadas ou apenas o transtorno doce de uma companhia sem martírios. Eram livres e ela apreciava. Lus, po-lus, po-lus, agro, agro, agronu, nu, nu, nu, agropois. Pois. A sonoridade do termo só trazia a ela mais interesse; que havia escondido atrás de tanto fonética e cuidado? Do carinho oferecido a troca de interesses em comum, haveria um indivíduo displicentemente dedicado a se importar de tal maneira? Ela não sabia responder.
Luz, possivelmente. Alguns focos de luz endereçados a ela vinham afastando os pensamentos tristes e sendo então repaginados por novos sorrisos. Tinham pontos comuns e a construção natural dos acontecimentos levaria-os a uma amizade duradoura permeada de desejos, ela pensava. Desejos do companheirismo atrelaçado, de tocar a alma buscando o conforto, de delinear o rosto com os dedos e desvendar cada pedaço como um território inexplorado, mutável, de beleza discreta e acentuada.
Mas sentia-se realizada, apesar de tudo. Estava vivendo sem premonizar o futuro, e sendo cada vez mais. Gostava de ser. Ser ela apesar de. Ser ela descobrindo Agro e Polus apesar de desconhecer as consequências de tanto repetir a fonética e desejar respostas. Realizava-se a cada ponto de lus, polus, polos, calmamente sujeitado a seus braços de menina-mulher. Pensou poder descobrir o significado de tanto mistério em Agro Pois Polis Polos, nus de certezas, agro-nus-po-lus. Repetia, repetia. 
Repetia ao dormir, ao acordar, ao escrever pequenos textos e enviá-los intencionada, e a repetição era o transtorno. Transtorno bagunçado de mente da menina-mulher nadando em águas desconhecidas, porém singelas, um infinito particular. E ela se perdia, realizada, gostando de ser. E o mistério da sonoridade? Se encerra em si próprio, ela imaginou. Sendo luz, sendo nu, sendo livre, sendo solto, sendo tal. Ela numa mão e ele perseguindo até os dedos tocarem e virarem companheiros de jornada. O mistério, se resolvia, pois: eram dois, apenas. Dois que ela almejava o uno e então lembrava do incerto: não era preciso concluir. Eles iriam se surpreender.


31.03.2011  

Sonata da compressão

Na imensidão da casa em que morávamos, tricotar era o gosto maior de Irene, mas limpar os cômodos vazios tomava muito de nosso tempo. Eu perdia as leituras dos livros franceses e ela a oportunidade de tecer novas meias e luvas coloridas. Estávamos acostumados a viver na casa sozinhos, Irene e eu, o que gerava certo desconforto.
No meio de um longo corredor havia uma porta de mogno. Fechada, ela apontava a impressão àquele que desconhecia a casa de que o ambiente próximo era sempre muito pequeno. Aberta, no entanto, revelava o lado de lá, cheio de móveis e salas pouco frequentadas a não ser para a habitual limpeza. 
Essa estória não é sobre Irene tricotar ou sobre o fato de eu adorar a biblioteca do outro lado da porta do corredor, mas sobre como foi a vida depois desse outro lado ter sido tomado. Aquele barulho que pareceu um dia uma conversa abafada ou mesmo uma cadeira caindo no tapete, nos trancafiou de um lado e no outro nunca mais visitamos. 
Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou num novelo de fio prata de muitos anos e frequentemente, durante os primeiros dias, abria e fechava as gavetas e olhava com tristeza, pensando talvez: “Não está aqui”.
Passamos a cozinhar juntos e a conversar mais sobre outras coisas que não papai e mamãe ou sobre tricotagem, parecia que Irene sabia mais de outras coisas do mundo e além de irmã viramos amigos. Mas ela temia. Temia que a casa fosse tomada por completo.
Certo dia disse a Irene que iria dormir e antes disso fui à cozinha pegar um copo de leite. Dessa vez o barulho apareceu diferente e pensei: “Será que tomarão a casa toda?”; vinha arrastado, como se algo pesado estivesse sendo movido a passos lentos. O teto tremeu e alguns rastros de farelamento da alvenaria começaram a cair. Estava se movendo.
A essa altura eu já pensava em ir ao sótão procurar possíveis ratazanas quando vi que eu não queria de modo algum permanecer ali sozinho. Gritei Irene e ela veio até mim, assustada e intimou: “desde quando essa cozinha sempre fora tão pequena?”
As paredes estavam se movendo, apertando as nossas tristezas dentro daquela cozinha. Tudo que de bom passamos ali e inclusive o alívio de não ter mais tantos cômodos para limpar, pareciam ter incomodado os que tomaram o outro lado e eles então se esforçavam para nos tirar de lá. As cadeiram rangiram, os pratos desabaram, estalaram, e eu senti meu coração fulminar. Irene estava perplexa, sequer movia o rosto diante de tanta cal, sujeira e menos espaço.
Não adiantava mais correr ou gritar, a porta estava trancada e as paredes movendo-se juntas, uníssonas, nos comprimindo às prateleiras enquanto arrastavam os móveis e desabava o teto aos poucos. Eu não respirava e Irene ficava branca de pavor até que conseguiu chorar. Choramos, então. Eu precisava disso. Os que tomaram o outro lado podiam nos tomar o espaço e talvez a vida comprimida, porém não nos tomariam a oportunidade da melancolia antes do esmagamento.
­As paredes moviam-se e faziam uma sonata do terror, enquanto Irene e eu chorávamos copiosamente, até que senti minha perna comprimir a dela e nos abraçarmos forçosamente. Estavam nos esmagando. A mesa que vinha em minha direção comprimiu-me a barriga e então não consegui respirar. Vi a morte chegando.
Irene cessou o choro para então pedir aos céus que ao menos nosso desencarne fosse menos sofrido e Deus parece ter ouvido sua prece. O barulho cessou. As paredes cessaram. Vi a porta entreabrir. Um vulto passou e não percebi que forma era. Íamos morrer com a liberdade olhando para nós, já que não respirávamos direito e nem mover podíamos.
Depois disso nada me lembro, nem Irene gosta de falar dessa história. Nossa nova casa é menor e não tem corredores, muito menos uma porta de mogno. Disso tudo, então,  tirei proveito, contei em francês sobre vulto negro que nos salvou. Acho que era Deus dando-nos as bençãos de uma nova chance…


Texto inspirado e referenciado no conto Casa tomada, de Júlio Cortazar, escritor argentino.


Página 1 de 71234567