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Dos textos que li essa semana e me encantaram. Autoria de Liz;



“O sangue lhe escorria corpo a fora. E o seu olhar parecia sentir pena de si próprio. Voltava-o para mim, mas eu sabia que não me enxergaria. Só imploravam por redenção. Gritavam por compaixão. Eu não sou de julgar quem. Eu nunca gostei de hipocrisia. Contudo, acabei esquecendo essa parte do meu manual de instruções. Eu não lhe machucaria de propósito. Logo, não aceitaria que o fizesse. Interrompi a barreira de seu suspiro nervoso com um golpe: não tive culpa, as palavras não se guardariam.  Nunca diga que não teve tempo para voltar atrás; Que não conseguiu encontrar o caminho certo. Pois, eu não vou concordar. Você não se importou com a luz no fim do túnel. Ela era eu. Então, você também não se importou com um tanto considerável de coisas. E aí elas só foram embora.  Eu me proibia tirar os olhos de seu rosto. A luz refletia em meia face. A lágrima reluzia-se discreta. Não pararia a corrente dessa, tampouco aquele fluxo doentio do pulso. Baixei o tom, eu não queria fazer doer um pouco mais, se quer saber. — Eu queria ter ido também… Ou queria ter sido útil no tempo em que estive lá para você. Sinto dolorosamente que não fui. Só não servi, não impedi, não consegui. E ainda assim, não posso ir. Senão, não saberia como voltar e isso não seria tão bom. Ou seria. Mas eu sentiria sua falta. Não falta desse ser fraco que você consegue ser agora. E sim falta do sangue pulsando dentro de suas veias eufóricas de amor. Sei que você também sentiria minha falta. Sentiria falta do calor do meu corpo. Porque feito-se em pedra não seria tão confortável, não é? Agora é com você: O que você quer ser? O que você quer ter? O que você quer que eu seja? Quando tiver as respostas, siga a luz. Você sabe onde ela te leva. 

     Eu tinha perdido as forças durante o discurso. O choro preso já não queria ter mais essa condição. Virava-me para sair de seu contato visual que nada via. Porém, algo ainda me queria lá. A sua mão, o seu sangue e lágrimas, o último murmúrio fraco da noite: Você basta.”
                                                                (R, Liz)


O termo, o som e a realização



Das noites acordada trocando interesses e realizações, descobrindo o brilho eterno que por vezes fora ofuscado diante da melancolia, ela realizou-se. A mulher que fora há algumas semanas agora despedia-se do posto para enfim ser retomada pela segurança feminina projetada a partir de um sorriso bonito a ela dispensado. Era isso que ela via. Duas fileiras de branca importância e despreendimento, sorrindo como a iluminar a madrugada de duas almas descobrindo-se.

O nome remetia a talvez um personagem japonês desenhado a traços fortes, ou quem sabe uma composição inusitada de algumas sílabas que soariam sólidas e tônicas. Ela resolveu repetir. “Agro” e “Polus”; da arte bucólica quase arcádica ela viu a primeira soar campesina, solta, livre, humilde. Da segunda ela sequer via sentido lógico ao passo que “lus” impregnava em sua mente enquanto repetia. Agropolus, Agronopois, Agronopolis, Agronopolus, polos, “po-los”, “po-lus”, lus, lus, luz, talvez.
Talvez fosse luz branca com um sorriso a erradicar o sono às madrugadas ou apenas o transtorno doce de uma companhia sem martírios. Eram livres e ela apreciava. Lus, po-lus, po-lus, agro, agro, agronu, nu, nu, nu, agropois. Pois. A sonoridade do termo só trazia a ela mais interesse; que havia escondido atrás de tanto fonética e cuidado? Do carinho oferecido a troca de interesses em comum, haveria um indivíduo displicentemente dedicado a se importar de tal maneira? Ela não sabia responder.
Luz, possivelmente. Alguns focos de luz endereçados a ela vinham afastando os pensamentos tristes e sendo então repaginados por novos sorrisos. Tinham pontos comuns e a construção natural dos acontecimentos levaria-os a uma amizade duradoura permeada de desejos, ela pensava. Desejos do companheirismo atrelaçado, de tocar a alma buscando o conforto, de delinear o rosto com os dedos e desvendar cada pedaço como um território inexplorado, mutável, de beleza discreta e acentuada.
Mas sentia-se realizada, apesar de tudo. Estava vivendo sem premonizar o futuro, e sendo cada vez mais. Gostava de ser. Ser ela apesar de. Ser ela descobrindo Agro e Polus apesar de desconhecer as consequências de tanto repetir a fonética e desejar respostas. Realizava-se a cada ponto de lus, polus, polos, calmamente sujeitado a seus braços de menina-mulher. Pensou poder descobrir o significado de tanto mistério em Agro Pois Polis Polos, nus de certezas, agro-nus-po-lus. Repetia, repetia. 
Repetia ao dormir, ao acordar, ao escrever pequenos textos e enviá-los intencionada, e a repetição era o transtorno. Transtorno bagunçado de mente da menina-mulher nadando em águas desconhecidas, porém singelas, um infinito particular. E ela se perdia, realizada, gostando de ser. E o mistério da sonoridade? Se encerra em si próprio, ela imaginou. Sendo luz, sendo nu, sendo livre, sendo solto, sendo tal. Ela numa mão e ele perseguindo até os dedos tocarem e virarem companheiros de jornada. O mistério, se resolvia, pois: eram dois, apenas. Dois que ela almejava o uno e então lembrava do incerto: não era preciso concluir. Eles iriam se surpreender.


Sonata da compressão

Na imensidão da casa em que morávamos, tricotar era o gosto maior de Irene, mas limpar os cômodos vazios tomava muito de nosso tempo. Eu perdia as leituras dos livros franceses e ela a oportunidade de tecer novas meias e luvas coloridas. Estávamos acostumados a viver na casa sozinhos, Irene e eu, o que gerava certo desconforto.
No meio de um longo corredor havia uma porta de mogno. Fechada, ela apontava a impressão àquele que desconhecia a casa de que o ambiente próximo era sempre muito pequeno. Aberta, no entanto, revelava o lado de lá, cheio de móveis e salas pouco frequentadas a não ser para a habitual limpeza. 
Essa estória não é sobre Irene tricotar ou sobre o fato de eu adorar a biblioteca do outro lado da porta do corredor, mas sobre como foi a vida depois desse outro lado ter sido tomado. Aquele barulho que pareceu um dia uma conversa abafada ou mesmo uma cadeira caindo no tapete, nos trancafiou de um lado e no outro nunca mais visitamos. 
Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou num novelo de fio prata de muitos anos e frequentemente, durante os primeiros dias, abria e fechava as gavetas e olhava com tristeza, pensando talvez: “Não está aqui”.
Passamos a cozinhar juntos e a conversar mais sobre outras coisas que não papai e mamãe ou sobre tricotagem, parecia que Irene sabia mais de outras coisas do mundo e além de irmã viramos amigos. Mas ela temia. Temia que a casa fosse tomada por completo.
Certo dia disse a Irene que iria dormir e antes disso fui à cozinha pegar um copo de leite. Dessa vez o barulho apareceu diferente e pensei: “Será que tomarão a casa toda?”; vinha arrastado, como se algo pesado estivesse sendo movido a passos lentos. O teto tremeu e alguns rastros de farelamento da alvenaria começaram a cair. Estava se movendo.
A essa altura eu já pensava em ir ao sótão procurar possíveis ratazanas quando vi que eu não queria de modo algum permanecer ali sozinho. Gritei Irene e ela veio até mim, assustada e intimou: “desde quando essa cozinha sempre fora tão pequena?”
As paredes estavam se movendo, apertando as nossas tristezas dentro daquela cozinha. Tudo que de bom passamos ali e inclusive o alívio de não ter mais tantos cômodos para limpar, pareciam ter incomodado os que tomaram o outro lado e eles então se esforçavam para nos tirar de lá. As cadeiram rangiram, os pratos desabaram, estalaram, e eu senti meu coração fulminar. Irene estava perplexa, sequer movia o rosto diante de tanta cal, sujeira e menos espaço.
Não adiantava mais correr ou gritar, a porta estava trancada e as paredes movendo-se juntas, uníssonas, nos comprimindo às prateleiras enquanto arrastavam os móveis e desabava o teto aos poucos. Eu não respirava e Irene ficava branca de pavor até que conseguiu chorar. Choramos, então. Eu precisava disso. Os que tomaram o outro lado podiam nos tomar o espaço e talvez a vida comprimida, porém não nos tomariam a oportunidade da melancolia antes do esmagamento.
­As paredes moviam-se e faziam uma sonata do terror, enquanto Irene e eu chorávamos copiosamente, até que senti minha perna comprimir a dela e nos abraçarmos forçosamente. Estavam nos esmagando. A mesa que vinha em minha direção comprimiu-me a barriga e então não consegui respirar. Vi a morte chegando.
Irene cessou o choro para então pedir aos céus que ao menos nosso desencarne fosse menos sofrido e Deus parece ter ouvido sua prece. O barulho cessou. As paredes cessaram. Vi a porta entreabrir. Um vulto passou e não percebi que forma era. Íamos morrer com a liberdade olhando para nós, já que não respirávamos direito e nem mover podíamos.
Depois disso nada me lembro, nem Irene gosta de falar dessa história. Nossa nova casa é menor e não tem corredores, muito menos uma porta de mogno. Disso tudo, então,  tirei proveito, contei em francês sobre vulto negro que nos salvou. Acho que era Deus dando-nos as bençãos de uma nova chance…


Texto inspirado e referenciado no conto Casa tomada, de Júlio Cortazar, escritor argentino.


One is the loniliest number


…….Ela ali, que havia ido à praia esperar o pássaro preto ,enquanto ouvia outra vez as crianças em seus trajes de banho coloridos rirem das ondas que vinham banhar os pés e formigar a espuma branca. Mas desta vez ela não esperava feliz. As asas ganhas dualmente, no último encontro, agora se viam depenadas, nuas, mostrando a carne viva e o sangue cor de fogo. Sim, estava nua. Se exibia ao mundo como quem vêm à vida e só vê morte, chora o grito do nascimento por querer voltar ao aconchego e ao sutil destino que ela previra para o pássaro-mulher; se haviam formado depois da intimidade.
…….Augusto dos Anjos entoava seus Versos Íntimos na cabeça de menina que já se prostrava diante da realidade e chorava por dentro. Faz de conta que ela era viva e não dor, faz de conta que ela era um e não dois, faz de conta que Clarice parafraseava a tristeza que sentia, faz de conta que Augusto traduzia em sua mente aquilo que ela não queria enxergar, pois enxergar doía e a dor é o esquecimento do belo, do amor e da alegria.
…….“A mão que afaga é a mesma que apedreja”; a mão, a asa, o carinho, o beijo (véspera do escarro), o rosto, o sonho e a lágrima confundiam seus pensamentos encaracolados; porque? Porque ele voava livre e ela se sentia presa? Presa ao gostar de um mero pássaro preto que de algum tempo passou a suportá-la e não mais agraciá-la como uma companhia angelical, que melhorava o voo e afastava as tristezas…
…….Olhava o céu como se pedisse por favor, ele se esquivaria da conversa e da lágrima? Não queria fazê-la sofrer, ela pensou. Mas não sabia ele que rejeitá-la e se tornar duro, frio e insensível era o maior corte no coração, que já sangrava, feito por suas asas negras inconsequentes.
…….Queria gritar mas seu grito mudo só era ouvido por ela; ele não a escutaria ou sequer a viria buscar. Priorizava muito a sua liberdade para gastá-la com uma menina que só sabe chorar e se deixar pisar…
…….O seu agora negro e liso cabelo pedia e implorava para que o Deus das amarguras fizesse apagar todo o sofrimento do mundo: o castelo de areia das crianças que fora destruído pelo mar, o apedrejamento da mão que diz querer afagar, o olhar furtivo de um pássaro preto que se esquecera, aos pouquinhos, dela, para viver a libertação de ser desapegado, transformar outras e outros em pequenos anjos e depois tirar-lhes as asas.
…….Não a merecia. Quantas vezes escutara isso e não quis acreditar já que o amor cega até a melhor menina, doce e frágil que se via mulher. Estava sozinha na praia. Ficaria sozinha na praia até o corpo cansar do assento e ela se deslocar sozinha e sôfrega até sua casa. Augusto soava: afaga, apedreja, afaga, apedreja… Escreveria num papel, depois, tudo isso que sentira sentada na areia, enquanto os olhos molhados buscavam o horizonte, a brisa lavava o calor e o pensamento se confundia entre ódio, amor, tristeza e pecado.
…….O queria. Ela ainda o queria e o levaria consigo, onde quer que fosse. Pelas ruas, calçadas e devaneios. Mas seria certo oferecer-se se ele voava com asas de outros e fazia ninhos pelos lugares, deixando-a para trás como um passado lindo e senão insuficiente?
…….Ela levantou vagarosa e caminhou da mesma forma pelas ondas já quebradas. Abaixou-se e entreteu-se com uma conchinha azul. Pensou então que os detalhes úmidos do choro de sua epifania só o caderno ficaria sabendo. Jogou a conchinha no mar como quem joga a vida à mercê da sorte e do destino. E o mar… o mar respondeu, sábio, certo e preciso, à ela, à Augusto e à Clarice: vai passar, indiazinha, vai passar.

(15/06/2010)

Esse texto foi inspirado na versão da música One, interpretada por Aimee Mann:

Dual

Encontrava-se numa praia, sentada à beira-mar, procurando talvez um pouco mais de sentimento e contato, perder-se aos pares, rendida e submissa ao sol que pontuava às 14 horas. Ela vestindo roxo e rubra face, os cabelos em caracóis caíam sobre os olhos negros. Sentada na areia, cantarolava um samba triste sobre uma vida sem memórias tristes, muda e suave; aguardava o pássaro preto que vinha ao seu encontro abrandar o Sol que ardia, que não calava a voz das crianças brincando, com seus trajes pequeninos, na água, como se a última coisa de um calor de sábado fossem castelos de areia e micoses nos pés das princesas.

…………Ela olhou ao lado e viu, talvez, ao longe, um barquinho de papel jornal gritando as notícias do dia: “Homem é preso!”, “Mulher morre!”; vigilâncias e melancolias de uma sociedade hipócrita e imersa na tristeza da desgraça. Ela, no entanto, riu. Riu de si, riu dos outros, riu do barquinho que tomado pela água tombou e afundou. Seria esse o destino dos tantos dissabores? Afundar? Renderem-se à morte sem saber se Deus olharia no Paraíso, absolvendo os pecados de uma menina em roxo e cachos? 

…………Onde estaria o pássaro preto? Estava atrasado, talvez voando e enfrentando os obstáculos das brisas das 15 horas, provindas do mar, chorando o mar, atenuando o suor que molhava a roupa dos pais infelizes e preocupados com seus filhos felizes, saboreando esses uma tarde infantil e doce na praia. 
…………Ela ainda ria por dentro quando sentiu o pássaro preto aterrissar voo ao seu lado. Ele então beijou-lhe a nuca, disse algo louco que ela não se lembraria depois. “Como foi o voo?”, ela perguntou, interessada em algo refrescante e novo, transpassando a gritaria das crianças e jornais. “Conturbado”, ele respondeu sem pressa, observando o movimento das ondas, trazendo vento e conchas, levando o calor, o sonho e o horizonte. 
…………A menina-mulher sequer olhava ao outro por medo de se entregar, inteira e desvairada, aguardava que ele tomasse o primeiro passo. Ele não tomou. Não ia tomar sem que ela se rendesse aos prazeres da carne e se tornasse um pássaro reluzente, com roxas penas e caracóis em pensamento. Orgulhosos dois, ela mulher com perfume recendendo ao sexo, ele pássaro preto, liberto, ardente e sedutor, mas ao mesmo tempo preso à condição da natureza, que modifica o voo, lhe faz cair as penas e acentua a saudade da pequena ao lado. 
…………“Eu gosto de você, sabe.”, disseram os dois mudos, pensando, com os corpos grudados, querendo-se, desejando-se como se o último raio de sol viesse a dar esperanças a um casal impossível mas sedento, doidos de si, sentimentais do sábado, da segunda, da semana e dos meses que se viam.
…………Sempre assim, eles que a letra R tem o nome, Pássaro e Mulher, viam-se homeopáticos, doados aos poucos mas verdadeiros; ao menos ela acreditava na verdade que aparentava existir. 
…………Olharam-se. Rapidamente, medroso tempo da loucura que podia tirar-lhes a sanidade do casal à par do calor, do mar e das famílias, numa tarde misantropa mas composta de risos e relaxamento. 

…………Ela tinha medo e amor quando o percebeu sussurrar em seu ouvido, enigmático: “Já vou. Te levo comigo.”. Não olhou olho, não sorriu. A menina não se permitia entender se era preciso ter asas para alçar voo com ele ou se era necessário permanecer mulher-menina sentada, sentindo e existindo. Ele voou, foi embora, desejando não sabe-se o quê, voou livre, ligado a ela, conectado aos seus cachos como se a dor de viver não fosse maior do que a companhia da mulher com asas cortadas. Ela, olhava o mar, de cima, de perto, de dor, de suor, de dois, de gritos e sussurros, de amor. Nascer de gostar, morrer de gostar…
…………As crianças reclamavam a destruição dos castelos e seus sonhos, com coceiras nos pés. Ela sentiu o vento em seus caracóis enquanto olhava os frenéticos pais juntarem suas coisas num fim de tarde e sol. As aves restavam ali. Perdeu-se em si. Olhou um ponto preto a movimentar-se em direção ao céu, bem longe, e seguiu. Não era pássaro nem mulher. Era, agora, anjinho das asas remendadas.

Alice

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 Já era tempo de inserir-se no mundo. Sair do comodismo de uma vida sem muitas pretensões, anêmica de sorrisos e permeada por frustrações frequentes. Olhava o vento e sentia a tristeza de desconhecer. Desconhecer a si, ao outro, ao amor, à vida e até ao próprio vento, farfalhando folhas de àrvores próximas ao parque em que ela se encontra, sozinha. Sussurrando em ouvido de mulher, ele dita sereno sábios conselhos em divagações de outono.

. Toma a perna em trote de anseios, o que fazer com tanto sentimento? Sente o vento tocando-lhe os negros cabelos e afagando pequenos momentos, lapsos de memória, quando se descobria menina e não mulher, onde as bonecas e as brincadeiras de casinha tomavam-lhe o espírito. O que fazer? Que fazer de um tempo sem sentido?
. Desconhecer a si mesma cortava-lhe a mente afiada, macia e influenciável. Ela sangrava por dentro. Sangrava como sangue mênstruo que escapa liberto de um corpo exaurido; sangrava como se o vento, não mais aconchegante, lhe fosse remédio para morrer anônima, fora de si, fora do mundo. Já era tempo de inserir-se ali. Dentro do ser. Um mundo particular infinito do qual ela tinha medo de se perder em si, por devaneios, sem a racionalidade daqueles que vivem omissos com o que são e preferem expulsar a subjetividade do entendimento das tentativas de um íntimo treslocado, louco, imenso e sequer digno da luz das verdades.
. Sentia-se exata e medida em suspiros herméticos, embora não quisesse viver assim. Olhando o vento e não enxergando-se por não conhecer-se, já que seus olhos eram cegos da imatéria, incapazes de ver cores internas. Um colorido que ela talvez poderia sentir brotar de dentro, sem afogar-se num mar desconhecido pelo qual ela nadava e só afundava suas forças.
. Ela quer brotar em si, colorir em si, sorrir em si como uma vez sorriu para o sentimento, ainda não ofuscado pela razão dos dias sociais. Ela quer, ela quer e como quer! Quer livrar-se dos dias impróprios e das companhias fúteis; jogar-se dentro de seu íntimo e perder-se como ela, Alice, colorida e epifânica! Como então trabalhar esses sentimentos enjaulados? Como reformar-se por dentro? Sem saber, desconhecendo o desconhecido e mesmo o conhecido gesto de ser aquilo que ela finge ser?
. Tomada pelos pensamentos, ela cai sôfrega no chão, ajoelhada, rendida à mente sem fronteiras. Chora. As lágrimas caem molhando o doce rosto de menina velha, mostrando a Alice a vida como se ela perdesse algo que não mais seria substituído; caem, caem lavando a alma, curando a dor, limpando o cinza e transparecendo luz. Ela é luz. Luz ajoelhada, mas luz. E o vento que afaga continua ali, paciente, esperando que ela abra os olhos vermelhos depois de brilhar colorida, para que ela possa enxergar aquilo que ela sempre procurou: Alice.

11.03.2010

Like a Virgin


Tinha Jade em seu colo. A mão que de repente postava em costura nas costas dava movimento à mente de divagações da pequena. Movia os dedos e Jade sorria consternada, outras vezes a misantropia observava-se em olhos de vidro bem azuis.
Eram amigos.
Por situações Jade parecia ignorar seus desejos de ventríloquo, nem mesmo em solidão a boneca lhe respondia as questões dos prazeres. Jade trajava em vermelho-cetim um vestido que acentuava suas curvas de cedro, trabalho de Gepeto que ele tentava reproduzir em bochechas rosadas; delineados contornos de uma senhora de setenta e cinco centímetros. A ventriloquia lhe substituía a vida social quase vazia não fosse por Jade preencher seu medo de poeta sem interlocutor. Jade falava. Dizia o não dito e traduzia cautelosa os corações de seu dono, vários, em mecânicas vezes em que percebia brilho através de seus olhos de vidro, bem azuis.
Toma Jade no peito e pressiona sua cabeça, com náilon imitando negros cabelos, de modo que Jade pode agora escutar seu coração amante que por ela batia. As mãos postas em costura traduziam os verbetes de Jade dizendo ao aspirante a Gepeto que a vida não se resumia a noites tilintando copos e garrafas, nem embebedando em moldes de madeira que nada imitavam seu andado, muito menos sua voluptuosa traseira e seios em botão.
Nada florescia daquela amizade imóvel entre ventríloquo e boneca esquisita, bonita não era, contudo entendia dos prazeres da carne. Deita Jade, desce o dedo lento e carinhoso atravessando testa, boca sedenta, envolve montanhas com as mãos que criaram escalando, sente o cetim vermelho como se cortasse os ossos e derramasse em vestido da boneca o vermelho vivo arterial, mas de sangue sem oxigênio, por que não mais respirava; Jade lhe trocara o fôlego pelo desejo de tê-la em membro. Não machucaria tal enlace?
O vermelho vestido levanta para mostrar as vergonhas rígidas em madeira escura, cuidou ao fazer parecer uma vulva real. Jade era real. A boneca se abriu como se dissesse “vem”, todavia ela chorava em olhos de vidro, sofria, não pôde gritar ou correr, as mãos que dantes lhe moviam agora trabalhavam em encaixá-la desconforta em pau macio, não de cedro; ele preocupou-se em fazer interior ambiente receptível, tão anfitrião quanto o coração de Jade que lhe recebeu amigo ventríloquo.
Entrava, entretanto, Jade indefesa enfim defende sua vontade, cortava a glande dilacerando em afiados pedaços, estilhaçando e ele prazeroso agradecia, sentia-a não mais em costura nas costas, mas sim em abertura sensual e frígida, que ele preocupou em abrir. Jade penetra como gilete, arranhando o corpo esponjoso a ponto de urrar o ventríloquo em sanidade não mais mensurável; o sêmen preenchia a cavidade, mas não lhe servia como óleo ou sabão que protegesse.
Prendeu-se a Jade. Como nunca imaginou que pudesse. Em loucura sádica de um solitário que apenas tem amizade em boneca falsa, inanimada, ao mesmo tempo companheira que agora lhe prende o membro e reza: “decifra-me ou serei obrigada a devorar”’; arranca o preso sentimento ou deixa o pau mole em casa dura, sentindo agora passar a súplica e a doer em sentidos arrebatando estupidez?
Jade sorri. Sua boca pintada com tom de urucum abriu imaginário sorriso vingativo, compreendia o aspirante a Gepeto, era sua pequena Pinóquio; a amizade ventríloquo-boneca fortalecia laços no presente, tão forte e meramente psíquica. Finalmente um relacionamento se estendia não só a manias de ventríloquo em surto, Jade tornou os dias sombrios daquele solitário insistente em transformar o dueto impossível, elo espiritual fisicamente interminável. Viverá Jade intensamente, agora estancada em seu membro sem escapatória, o que fará? Andaria com um pedaço de madeira grudado nas partes enlaçando os testículos em dor, talvez arrependida, de curioso cafajeste? Jade diz “bem feito, entrança-te comigo e leves-me para onde quer que vás, tira-me a inocência e, por conseguinte, ama-me todos os minutos”.

(11/05/2009)

Emerenciana

Sugeriu respirar alguns laços de aroma, um perfume de inverno que não desejava senão despertar as carícias de um novo dia. Lançou palavras heterogêneas, um bom dia insosso a companheira ao lado dormindo, resumiam um tanto de consolo de vida, neblina; viver em paz. Cantarola um samba triste, clama sorrisos, o sol nascia na janela. Prenúncios de total desconfiança. Beija a testa da mulher fingida, gelada em estado de dormência, eram ainda seis da manhã. Levanta, caminha só, procurando sabe-se lá o quê, sabe-se lá quem, era necessário fingir mais um dia, aceitar outra vez, mesmo sabendo que a companheira lhe traía, deitava-se com outra pessoa, outro batimento, outra sintonia? Seria conivente com as águas do rio que corriam passageiras, levando um pouco do coração em gosto de felicidade? Traía-lhe com outras sensações, outros lábios; beijava-lhe a testa e com carinho dizia o insosso bom dia sabendo assim mesmo que ela não merecia atenção por demais. “Vadia! Como pude lhe amar de tal forma? Conter essa imensa saudade que sinto de sermos só nós, gritos mudos em uma casa só nossa, em que as paredes e móveis contavam às visitas nossas histórias, jantares e tilintares de copos se quebrando quando nos amávamos sem pressa, só profundo, amor..”. Escora na cômoda ali perto, refletindo quem sabe agora sobre o próximo capítulo da telenovela, mas não, não lhe desvencilha a idéia de Emerenciana estar ali ao lado, deitada, dormindo como anjo em libertação, e ao tempo que não estava, não pertencia mais aos laços que construíram, era vaga, distante, muda. Mudez que perpetuava como um pedaço de metal a cortar o seio de qualquer humano em estado de sonegação, sabia que ela não voltaria. Não lhe teria aos braços a procurar abrigo, nem a perceberia oferecer a vulva para levá-la ao delírio do pecado, mulata que dormia e pensava em seus sonhos outro corpo, outro sabor, ao menos dormindo pecava somente em imaginação. Decidiu, ajeitando as costas na cômoda, que Emerenciana não merecia tanto sentimento. Atravessou obstáculos por ela, pra vivê-la um pouquinho, e recebia ingratidão de uma malvada que mal sabia respirar ao dormir? Devia largá-la aos cupins daquela casa imunda, ou sumir, arrumar outra, outro lar, outra mulher. Quem haveria de aceitar, sem ironia? Aceitar uma puta sem casa, embriagada da névoa do frio que fazia nas ruas, talvez por fantasia ou maldição lhe aceitassem lésbica e foragida, também ressentia a pensar que mudou por Emerenciana. Sim, iria desventurar-se com outras mulheres, afinal, Emerenciana só sabia dormir. Chega próximo à cama, ajoelha-se de modo a olhar Emerenciana dormir profundo. “Que está pensando, fingida? Acorda e conta! Conta-me o motivo de dormir com uma mulher todos os dias e em sonhos é de outra, desgraçada!” Enrijece a mão e sova o rosto do anjo que dormia, “sinta isso, a dor de sentir solidão, como sinto desde que só dormes para sonhar com outra e não com a mulher que lhe olha com carinho, eu te amo, será que não vê?! Levanta e volta, sonhe comigo, com nossas noites de amor, com nossos dissabores, não sonhe com outra, pois pertence a mim o seu coração, o seu sentimento, eu sei que sim, porque não responde, vagabunda? Está a fingir novamente que não me vê, que não me sente a tocar tua pele e a lhe desejar bom dia, a lhe trazer alimento na cama sempre, a cuidar de ti adoentada, calada, porque não larga a ingratidão e volta pra sentir, anjinho, meus braços e seio a lhe acalmarem a tortura de só saber sonhar, de só imaginar, não pense em outra, não durma! Acorda fingida! Sei que estás a sonhar liberta com outros jardins e eu presa aqui a olhar-te com desprezo por não me amar mais, me ame Emerenciana, por favor, lhe peço amada minha!” E batendo, sacudindo o corpo defunto de Emerenciana, se via a chorar novamente, sobre o corpo que só dormia, “acorde amor, não pretendo mais lhe magoar, divida comigo esse fardo de viver sozinha, quero estar contigo anjo meu! Acorde e diga que não sonhas com outra, que o que sinto é ciúme bobo e a úlcera que tenho não é por chorar teu desencarne, me olhe desgraçada! Abra os olhos e vê que ajoelho-me a pedir que vá me abraçar matinal como sempre fazia, Emerenciana, não me ignore mais!” Haveriam de aceitar duas mulheres a morar juntas,a amarem o pecado do maravilhoso desejo pelo mesmo sexo, sempre juntas, felicidade unidas, contudo haveriam de aceitar mulher e Emerenciana defunta, morta por escorregar sôfrega num dia de calor e bater a cabeça? Mudou tanto pelo anjo que só dormia, atravessou obstáculos por ela, haveria de viver sempre com uma mulher que logo iria entrar em decomposição? Já não cheirava a tulipas. Beija a face gelada do anjinho fingido que dormia, deita na cama, cobre-se, segura mão de Emerenciana que lhe ignorava. “Dorme um pouco mais vagabunda, mas sonhe comigo, com tua mulher, não com outra, não aguento traição, não como fazes comigo, a me ignorar, todavia, mesmo a chorar sem motivos pra sorrir, assim, mulher a lhe amar, Emerenciana, irei a seu encontro.”. O frio trazia rebuliço na cortinagem do quarto, fácil demais. O tilintar do copinho de veneno o vento escutou cair.


Início de passagem

Uma cesta adornada de papel celofane amarelado pelo tempo trazia lembranças de tristezas partilhadas. Desenhos de menina que um dia foram habitat de sonhos de estudante, aprendendo delicada a escrever seu nome; letras miúdas em fôrma corrida, na pressa aprender a murchar a juventude de donzela, pequena moça de cinco anos. Decorando com formosa dedicação suas letras de música amassadas, poesias cantadas sobre sua vida sem forma, rosa que desabrochara, santo relicário. Fino pente passara em suas vivências e agora se deparava com uma insolúvel necessidade de esquecer. Papéis coloridos em uma cestinha embrulhada em celofane parecendo leiloar sentimentos, contavam histórias de presentes-pretéritos acalentados pelos braços de uma mulher que não queria crescer. Esquecer, o quê? As cores corriam em seus olhos verdes e ela dedilhava seu passado, com fome de moça aprendera a ser amante, poderia ser algo maravilhoso? Vendia seus papéis em busca de um amigo que compreendesse sem dizer suas emoções, alguns botões que a aguardassem chegar em casa. Esconder-se de suas privacidades, tornar livre seus pequenos vestidos bordados por vovó que presenciaram ventos e terra, brincadeiras infantis. Como simplismente deletar de memória suas decepções, alavancas do renovar de uma alma em construção? O sangue agora subia aos olhos e fazia lacrimejar, recordar, recordar. Saía a rua e tantos lugares, tantos lugares que um dia lhe fizeram sorrir apaixonada em companhia de sutis tortos sorrisos, masculinos, quanto pecado, tanta violação de maravilhas virtuosas? Preparar-se-ia para violar suas memórias com uma destreza, apagar. Um único amor nascido de seu único ódio. Acende uma vela, desliga as luzes elétricas, sangue supitando vontade. Encosta o dedo frágil numa das pontas tortas do velho celofane amarelo, nunca havia achado realmente um lugar que pudesse lar ser chamado, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, por quê?, acabar assim, ter no rosto a sensação da fúria de objetinho usado em mãos que te descobrira como se fosse animal entrando em reprodução? Essa cestinha, tantas ilusões, brinquedinhos que lhe fizeram companhia ao deitar-se e inicar meditações de sonoras violetas, presentes presentes, um colarzinho, um ursinho de pelúcia rosado que olhava com carinho, galanteios de um partilhar sem conotação que ela resolvera partir, mudar-se, conhecer novos horizontes. Rasga o celofane com rapidez como band-aid, por quê?, por quê?, por quê?, subestimaram sua alma de mulher, esqueceram que ela decorava com propósito sua letrinha, suas músicas desastradas, não era boba, encontrar ela iria maneira de controlar os pensamentos. Suas memoriazinhas infantis guarda em caixa de metal, não iria abandoná-las, não assim, num corpo assim, em choro copioso de amargura passageira. Guarda os vários rabiscos de sóis, casinhas, pessoas, árvores, borboletas e flores que um dia lhe fizeram sorrir ao desvendar traços mais fortes e segurança ao colorir, oferecendo sentido ás mãos ao desenhar suas vitórias de cinco anos. Infância saborosa, vez em quando visitava essa dulcilidade que desgasta-se ao se (des)amadurecer. Retira suas músicas tristes, uns fados alegres tirados ao violão quando adolescente, guarda alguns que lhe traziam meias verdades. Lembranças boas, dezessete anos. Olha o que resta, cesta carregada de amores passageiros, todos passageiros; por quê?, se culpava? danificaria seus conceitos de virgem romanticismo? Ah, como doíam passageiros. Pega os brinquedinhos, chora desesperada, ah, abandoná-los era trabalhosa revelação, contudo não poderia desejar estar daquela maneira, jogaria fora todos os seus amores e diversões masculinas, e manteria resquícios de amizade. Colarezinhos, flores, mentiras, tantas inverdades, mentiras, mentiras… Por quê?, por quê?, tivera que ser sempre assim? sempre indelicada e passageiros? Não era bastante capaz para manter um gostar em sua companhia? Era mulher que não gostava da idéia de crescer, ursinhos, bilhetes de cinema, filmes que não vira por aproveitar os doces de ser jovem e ter um parceiro, todos passageiros, todos mentiras, mentiras que lhe faziam crescer e ela manter-se uma criança frágil, dentro de um corpo desenvolvido, mentiras, idiotices que iniciaram alegrias e sempre dores terminavam. Joga numa cesta todas as lembranças, todas as dúvidas e todas as vontades de mulher, do sexo, dos toques, dos sabores de lábios e membros que já havia provado. Pulseirinhas que um dia prenunciaram laços, falsos, fracos, duravam pouco, uns meses, mas sempre lhe abandonavam, sempre lhe deixavam a escanteio, por quê?, por quê?, não mais. E ela sentira alegria de sentir-se sozinha, solteira e animada, velha talvez, com interior de menina. Acende um fósforo e joga na lixeira, assiste e aplaude o espetáculo minúsculo de chamas corroendo sensações e imaginações. Livrava-se do peso de ser responsável e ser jogada várias vezes num canto como se pudessem tocá-la e descartá-la? Por toda a vida de mulher fora estúpida a ponto de ser conivente com palavras falsas de carinho apenas para acalentar a solidão que sentia, poder provar o açúcar de lábios e mãos que lhe apertavam os seios a lhe pedir o corpo e não o sangue, suas formas de saciar o instinto e doar-se aos homens que lhe pediam uma transa, não preenchiam seu vazio de menina, apagando todos essas espessas memórias e vendo-as se consumirem pelo fogo, pelo ardor de coitos, de encontros, de selvagens toques carnais que começara a deixar de lado, as cinzas seriam as sobras de seus dissabores, de suas desventuras seguidas em relacionamentos que só lhe trouxeram felicidades parciais. Limpa o chão, beija a pequena caixinha de metal e a guarda segura na cômoda antiga, penteia os finos cabelos, olhando no espelho sua alegria interna refletindo em sorriso, esquecera, esquecera! Abre a porta, vai descendo lerda as escadarias do casarão onde morava. Na sala de jantar a esperavam ansiosos para comemorar com os dela olhos verdes outro ano de vida, outro ano qualquer; ela olha para trás, olha a porta do quarto e relembra a lixeira em fogo. Sorri abençoada, junta as mãos e percorre o terço que lhe vinha ao pescoço, agradeço Senhor pelas experiências que me dera, pelas gentilezas vividas com intensas tristezas e também alegrias, pelas desilusões em série que me fizeram desamadurecer e me continuar menina, voltei a amar meu interno. Preparo-me para continuar vivendo, amando, entregando-me aos tropeços das montanhas-russas que passei. Início da minha vida, da minha ingenuidade e amor-próprio. O sonho das companhias acabou. Feliz noventa e três anos.


Tenha Fé

O clima do calor intenso ia perdendo-se em brisas frias adentrando pela enferrujada janela da casa descascada. Por vezes sentiu-se só, estupefado em silêncio prenunciava prece, o homem saiu da casa ás 15h. Vou sair, disse em esperança ao menos alguém notasse sua insignificância. Não houve resposta, um barulho de vaso dentro se ouviu quebrar, não preocupou-se em investigações, era preciso sair. Entrou no carro. As mãos trêmulas e gélidas de defunto em corpo vivo seguraram o volante como quem pede por favor, precisava-se sair. Olhou a casa, as paredes em tom róseo um tanto desgastadas necessitando reparos, para quê? Olha o interior do veículo, organização e ordem que sempre prezou ali presentificou-se, nenhum brinquedo ou mancha de sorvete do passeio inútil até a praça com os filhos no dia anterior. Nada. Absolutamente vazio. Sentiu-se só, outra vez. Pega um cd de samba qualquer, Bezerra da Silva para agradar-lhe o sentimento de quem não mais o ouviria. Deu partida, saía da garagem lentamente, o sangue fervilhava, sangrava por dentro. Suava. Fedia. Suava e dirigia com fedor de alma pútrida, olhou-se no espelho do carro e viu-se tosco, calado, desesperado, não aguentava mais tudo aquilo, Bezerra soava e a solidão batia em seu peito, não, não, era preciso sair, sair, sair, sair, sair!, sair… Como era necessário, livrar-se dos orgulhos e devaneios de uma vidinha cinza, dos problemas sem conotação ao que se via chorar como criança, criança velha com fedor de sustenido, já 18h eram quando chegou ao local. Estacionou o carro a beira do rio, desligou. Apagou-se. As mãos perdiam o calor que não tinham, chorava, Bezerra narrando seus elos, não é possível, para quê? Devaneios por quê?, divagações, sair, precisava-se sair, sair, sair, sair, encosta a cabeça no volante do parado carro e joga mãos sobre rosto molhado rezando, liberta-me, usa-me Senhor, eu que agora vou a lhe encontrar, leva-me às fontes de águas vivas Senhor, eu, liberta-me, eu, sair, sair, sair, sair, sair, sair… E riu. Gargalhou risadas de esquizofrênico consciente, engraçado isso, estou aqui, logo não mais estarei, sair, sair, sair, liberta-me eu, sair da prisão, sair, tornar a ser, caminhar ao altar dos átrios de quem necessitava vida, louco, louco, louco, não, preciso sair, sair… Desceu do carro, tirou as roupas. O corpo nu de um velho de quarenta anos mostrava marcas de suicídio, medíocre, de emoção pobre de espírito, um idiota em cabelos caindo em calvície. Nunca fora alguma coisa. Contudo, em minutos tornaria-se alguém, alguém que mergulharia em águas e quem sabe unir-se à divindade dos anjos; sentou-se na margem do rio e olhou que era profundo mais do que imaginou. Não sentiu medo a princípio. Gargalhava, seus dentes amarelados e cobertos de sôfrega falta de escovação anunciavam risadas epifânicas, insólitas, em gargalhadas de louco ele transpirava morte, irei sair, irei sair, sair, sair, enfim, sair, sair, liberta-me Senhor, liberta-me eu! Levantou-se e com força empurrava risadas de negra lataria de quarenta anos, sair, liberta-me eu Pai! Permaneça-me contigo em dor e alegria Ele! E jogou. Via-se a água envolver com doçura canibal e lenta sofridão o corpo pesado, doloroso, enferrujado, louco, pensava em alucinações enquanto sentia cair, sair, sair, sair, liberta meus sonhos, esperanças, sair, sair, amor, quero amor! Viu o fundo, gélido como toque de defunto em corpo vivo. O automóvel que agora em negras águas de rio era coberto presenciava loucura de maluco sem medicamentos. Bezerra cantou sua morte, porque não pulou? Sair, é preciso sair, sair, sair, chorava, chorava sangue. Vestiu as roupas, acendeu um charuto que estava no bolso da calça, organizado porém nada higiênico, não, não, sim, sair da prisão, dos dias, da dor, sair… Voltaria ao lar de sofrimentos, à vida cinza de marido estúpido? Ainda havia tempo… Era covarde demais para ouvir o Senhor dizer em sussurro quando à beira do rio: “quero viver contigo, não estás só, coragem filho! A fome da tua alma posso sanar, coragem querido!”. Demasiado para ouvir ou jogar-se em suicídio, para imaginação de coloridos pincéis de desenhos de bravura, tragou outra vez, olhou o rio almejando sentir sua pele em calor subtraído, como bom seria refrescar-me e deixar-me ali, sair, precisava sair, libertar-me eu, deixar, sair, enlouquecer, sair, sair da prisão, sair… Chorou silencioso. As lágrimas percorriam rugas e ele deixou o cigarro apagado cair misantropo, necessidade de salvação palpitava em desespero, irei sair, agora, sair, enfim sair, sair, não, não, não, sair, não, sair. Que será que Marta fará para o café amanhã?