Passagem da Noite

“É noite. Sinto que é noite
(…)
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
(…)
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!”

Carlos Drummond de Andrade
(A Rosa do Povo)

Porque todos nós somos um pouco Walter Mitty

Não se preocupe, esse texto não contém spoilers.
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Eu sempre tive um pouco de receio quando atores de comédia resolvem fazer drama, mas isso foi aos poucos se perdendo quando passei a dar um crédito a mais a essas pessoas. Ben Stiller é uma delas. No seu genial A Vida Secreta de Walter Mitty, Ben dirige com muita sensibilidade o desenrolar da mudança pessoal vivida por Walter em suas andanças pelo mundo.

Eu tenho medo de avião. Muito medo. Então voltar do intercâmbio e pegar um vôo de 9h e 40min de Lisboa até Brasília não foi nada fácil, rs. Felizmente, Ben me apresentou um filme que me fez esquecer do medo pra mergulhar na história de Walter e acabar percebendo que todos nós temos um pouco da personagem. Tudo o que eu enfrentei no meu intercâmbio me fez conectar muito profundamente com a personagem. Todos nós somos, de algum modo, um pouco Walter Mitty.

Eis o porquê:

Vivemos na zona de conforto

Nossa vida é pacata, rotineira, organizada até na desordem. Temos tarefas, responsabilidades, e compromissos que, em muitos casos, ocupam o nosso tempo e nos impossibilitam de viver as grandes histórias que queremos viver. Não tomamos riscos, seja por estarmos tranquilos aonde estamos (e muitas vezes perdendo a chance de termos grandes aprendizados); seja por termos o medo de que tudo tragicamente mudará aquilo que nos é certo, virará nossa vida de cabeça pra baixo e de que a mudança pode nunca ter volta.

Nossa mente é nossa válvula de escape

Sonhamos acordados, criamos expectativas, forjamos situações que nunca acontecerão. A criatividade e a imaginação são a brecha para que as nossas vontades – se não podem ser reais – criem casa no meio da rotina chata, da vida infeliz, do relacionamento sem cor. A zona de conforto nem sempre é confortável, ainda há aquilo em nós que deseja o diferente, o romance mais bonito, a cena de ação mais alucinante, aquela ideia brilhante que vai salvar a todos. Se nada disso passa pelo crivo da lógica e da realidade, não há problema, há um espaço na nossa mente pra criar tudo isso e mais um pouco, como uma válvula de escape pra vida que a gente considera sem graça.

Quando temos determinação, vamos longe

Perseverança e coragem são sentimentos que todos nós temos; todos nós. No entanto, nem sempre temos disciplina ou um objetivo claro, uma vontade real que nos diga onde queremos chegar, o que queremos ser. É normal. Quando esse objetivo surge, motivado pelo que for, e a vida parece não fazer mais sentido sem que atinjamos aquele desejo, essas forças que até então desconhecíamos insurgem e nos fazem lutar. Movemos montanhas, criamos espaços, saímos da zona de conforto para tentar atingir aquilo que talvez seja inatingível, mas que queremos tanto. E o verdadeiro ganho de tudo isso muitas vezes não é o prêmio da conquista, mas a jornada que se caminha e se cresce até chegar lá.

Temos medo do desconhecido

É o que nos faz viver na zona de conforto. É o que é vencido quando temos real motivação. O medo do desconhecido é como andar cegos, sem guia, varando sem rumo, sem saber as consequências, vivendo por completo a impulsividade. É o medo de falhar. É o medo do insucesso. É o medo da morte. É o medo de ser melhor. É o medo de se olhar. É o medo de se vencer. É o medo de se doar. É o medo de acreditar. É o medo de ter fé. É o medo de arriscar. É o medo da frustração. É o medo da derrota. É o medo de merecer. É o medo de ter culpa. É o medo de abnegar. É o medo da renúncia. É o medo de desbravar. É o medo de se fortalecer. É o medo do medo. É o medo de saber que tudo isso pode não ser nada disso.

Quando a gente se abre, a vida mostra o que tem de melhor

Quando o medo fica em segundo plano e a coragem de ser o que a gente quer ser e de ir atrás dos nossos sonhos norteia as nossas escolhas, a vida nos retribui com largos aprendizados. Isso não significa vitórias da forma como esperamos; ela nos fornece novas formas de ver as mesmas coisas, novas experiências que vão lapidando aquilo que já temos de bom e que só faltava um esforço pra gente perceber. Quando a gente se abre pro desconhecido, a vida mostra que até a zona de conforto pode ser diferente se você vê diferente.

Somos muito mais do que imaginamos ser

Costumo dizer isso pras pessoas e adoto isso como um mantra pra minha vida. Como meu poema favorito diz: “para ser grande, sê inteiro: nada / teu exagera ou exclui”. Somos inteiros, mas não nos damos conta disso. Somos muito mais do que acreditamos ser. Sempre podemos mais do que pensamos poder. Acredito piamente na força do pensamento, nas realizações que fazemos de nós mesmos: somos autores da nossa felicidade, escritores da nossa história e somos completos. Temos todas as ferramentas para nos realizarmos de que aquilo que queremos ser já está em nós. Entretanto, estamos ainda inconscientes para o fato de que é preciso buscar dentro de si essas virtudes, burilar os defeitos. A busca íntima é complexa, mas, como dito agora há pouco, é preciso se abrir pra se perceber que o melhor já está dentro da gente. Somos muito, muito mais do que imaginamos ser.

Se você ainda não viu o longa, não perca tempo e vá ver. Talvez ele seja uma grande lição pra você como foi pra mim. Você pode ver o trailer aqui

Das pequenas felicidades

Cumprir as novas metas está sendo bem difícil. Deixar de ser onicófaga, organizar a vida, espantar a preguiça e postar aqui regularmente. Daí, a gente percebe que a vida atribulada, a preocupação financeira e a alta carga de tarefas diárias faz a gente ir se esquecendo que a vida é composta de pequenas felicidades. Aquelas não tão efêmeras, mas que no instante do presente nos fazem sentir completos, saciados, risonhos; como se uma chama fosse crescendo no peito, passando pelas cordas vocais para, enfim, sair em um suspiro acalorado: “puta que pariu como eu amo isso“.
Se a sua vida está em falta de “puta que parius” como esses, trate logo de criar uma Happy Life List antes que você chegue naquele momento fatídico de criar uma Bucket List. Mas, antes de elencar as pequenas coisas da vida que nos fazem felizes e então praticá-las, é preciso refletir: você sabe o que é felicidade?

“A felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior.”

Felicidade é um conceito subjetivo, acredito que é a única coisa que podemos atestar. Depende de sentimentos, experiências, emoções, sensações, olhares e concepções de mundo e isso é particular, é íntimo a cada indivíduo. Minha visão de felicidade é muito compartilhada com a visão do mestre Osho, que diz sobre a essência da vida e a  miséria a que nos submetemos. Veja só:

A RECOMPENSA EM FELICIDADE

“A miséria tem muitas coisas para lhe dar que a felicidade não pode dar. De fato, a felicidade tira muitas coisas de você. A felicidade tira tudo aquilo que você sempre teve, tudo aquilo que você sempre foi, a felicidade lhe destrói. A miséria nutre seu ego e a felicidade é basicamente um estado sem ego. Este é o problema, o ponto crucial do problema. Eis porque as pessoas acham muito difícil serem felizes.

Eis porque milhões de pessoas no mundo tem que viver na miséria… decidiram viver na miséria. Ela lhes dá um ego muito muito cristalizado. Sendo miserável, você é Feliz, mas você não é. Na miséria, a cristalização; na felicidade você fica dissolvido. Se isso for entendido, então as coisas ficam muito claras. A miséria lhe torna especial. Felicidade é um fenômeno universal, não há nada especial sobre ela. As árvores são felizes e os animais são felizes e os pássaros são felizes. Toda existência é feliz, exceto o homem. Sendo miserável, o homem se torna muito especial, extraordinário.

A miséria torna você capaz de atrair a atenção das pessoas. Quando você é miserável você é assistido, simpatizado, amado. Todo mundo começa a cuidar de você. Quem vai querer magoar uma pessoa miserável? Quem tem ciúmes de uma pessoa miserável? Quem vai querer ser contra uma pessoa miserável? Isso poderia ser muito maldoso. A pessoa miserável é cuidada, amada, assistida. Há um grande investimento na miséria. Se a esposa não for miserável o marido simplesmente tende a esquecê-la. Se ela for miserável o marido não pode se permitir a negligenciá-la. Se o marido for miserável toda a família, a esposa, as crianças, estão ao seu redor, preocupados com ele; isso dá grande conforto. A pessoa sente que ela não está só, a pessoa tem uma família, amigos.

Quando você está doente, depressivo, na miséria, os amigos vêm visitá-lo, vêm confortá-lo, vêm consolá-lo. Quando você está feliz, os mesmos amigos ficam com ciúmes de você. Quando você está realmente feliz, você vai ver que o mundo todo se voltou contra você. Ninguém gosta de uma pessoa feliz, porque a pessoa feliz fere os egos dos outros. Os outros começam a sentir, “Então você ficou feliz e nós ainda estamos rastejando na escuridão, na miséria e no inferno. Como você ousa ser feliz quando estamos todos em tal miséria!”

É claro que o mundo consiste de pessoas miseráveis e ninguém é bastante corajoso para ir contra o mundo inteiro; é muito perigoso, arriscado demais. É melhor se apegar à miséria, isso mantém você como parte da multidão. Feliz, você é um indivíduo; miserável, você é parte da multidão – Hindu, Maometano, Cristão, Indiano, Árabe, Japonês.

Feliz? Você sabe o que a felicidade é? Ela é Hindu, Cristã, Maometana?

A felicidade é simplesmente felicidade. A pessoa é transportada para um outro mundo. A pessoa não faz mais parte do mundo que a mente humana criou, a pessoa não é mais parte do passado, da feia história. A pessoa não é mais absolutamente parte do tempo. Quando você está realmente feliz, alegre,o tempo desaparece, o espaço desaparece.

Albert Einstein disse que no passado os cientistas costumavam pensar que haviam duas realidades – tempo e espaço. Mas ele disse que essas duas realidades não são duas – elas são duas faces de uma única realidade. Dessa forma ele cunhou a palavra espaço-tempo, uma única palavra. O tempo não é nada mais senão a quarta dimensão do espaço. Einstein não era um místico, senão ele poderia ter introduzido a terceira realidade também – o transcendental, nem espaço nem tempo. Isso também está lá, eu o chamo de testemunha. E uma vez que esses três estão lá, você tem toda a trindade. Você tem todo o conceito do trimúrti, as três faces do divino. Assim você tem todas as quatro dimensões. A realidade é quadrimensional: três dimensões de espaço e a quarta dimensão do tempo.

Mas há algo mais, que não pode ser chamado de quinta dimensão, porque não é a quinta realidade, é o todo, o transcendental. Quando você está feliz você começa a se mover para o transcendental. Isso não é social, isto não é tradicional, não tem nada a ver com a mente humana, de forma alguma.”

Osho, Extraído de: The Book of Wisdom
Fonte: www.osho.com

“Felicidade é um fenômeno universal, não há nada especial sobre ela. As árvores são felizes e os animais são felizes e os pássaros são felizes. Toda existência é feliz, exceto o homem. Sendo miserável, o homem se torna muito especial, extraordinário (…) A felicidade é simplesmente felicidade. A pessoa é transportada para um outr
o mundo. A pessoa não faz mais parte do mundo que a mente humana criou, a pessoa não é mais parte do passado, da feia história. A pessoa não é mais absolutamente parte do tempo. Quando você está realmente feliz, alegre,o tempo desaparece, o espaço desaparece.”
(OSHO, The Book of Wisdom)

E na luta do equilíbrio, de entrar em sintonia com a vida, cito aqui a minha Lista de Vida Feliz. Aquelas pequenas coisas que me espantam a tristeza de forma imediata. Não importa se clichê ou não, a minha Lista de Vida Feliz consiste em me mostrar, sempre que possível, que a felicidade é o que é e eu posso sê-la também. Muito mais do que ter felicidade, sê-la é, apenas, a vivência do que você é, em comunhão com o ambiente.
Depois de tanta filosofia e da revelação dos meus guilty pleasures, a minha lista é composta por (não está em ordem de importância):

  • Friends;
  • Elvis Presley;
  • Jane Austen;
  • Discutir acalouradamente um tema das RIs;
  • Cafuné do namorado;
  • Sorvete de casquinha;
  • Trakinas de morango;
  • Conseguir bordar algo que preste;
  • Poesia;
  • Fernando Pessoa;
  • Assistir desenhos na TV Cultura;
  • Abraço demorado;
  • Andar descalço;
  • Andar de meias;
  • Dormir de conchinha;
  • Mafalda;
  • Matilda;


  • Filmes da Disney;
  • Cheiro de roupa limpa;
  • Pudim;
  • Embonitar;
  • Segurar bebês;
  • Brincar com a Cacau;
  • Fazer xixi quando estou apertada;
  • Ir no asilo aos domingos;
  • Bilhetes escritos à mão;
  • Rir, rir, rir, rir, rir;
  • Cozinhar algo que preste;
  • Dançar de qualquer jeito;
  • Fritar um ovo e ele sair sem defeitos;
  • Ganhar presentes;
  • Tirar uma foto bonita;
  • Mil curtirs em um post meu no Facebook;


  • Cultivar bons amigos;
  • Mensagens de amor no whatsapp;
  • Brigadeiro;
  • Respirar direito depois da gripe;
  • Encontrar alguma coisa perdida;
  • Elogios;
  • Tirar lasquinha de pipoca da gengiva;
  • Cantar músicas sem errar a letra;
  • Pão Francês com manteiga quentinha;
  • Radiohead;
  • Descobrir novas bandas;
  • Clarice Lispector;
  • Macarrão sem culpa;
  • Cheiro de creme no corpo;
  • Mãos macias;
  • Sorrisos, muitos;
A lista não termina e é bom que seja assim, mutável. Pra eu poder adicionar mais coisas boas e felicidades diárias. Assim, lanço aqui um desafio: vai montar sua Lista de Vida Feliz?
Quero saber! 🙂

Like a bridge over troubled water

E por dentro de mim, há sempre uma tempestade, uma intempérie, um desconforto, um descompasso. Um mal jeito, um mau jeito, um trejeito, vários jeitos, uma confusão, uma agitação, uma compaixão, um tumulto. 

Porque a calmaria traz a paz, mas o que é a ponte sem as águas turbulentas?



O Meio

As coisas estão meio confusas esses dias e eu não tenho me sentido tão bem quanto gostaria. Mas alguém em algum lugar do mundo se preocupou com o meu pequeno desabafo e me enviou essa música que segue, sem saber quem eu era.

“it just take some time, little girl, you’re in the middle of the ride…”


The Middle – Jimmy Eat World

Hey, don’t write yourself off yet
It’s only in your head you feel left out or looked down on
Just try your best, try everything you can
And don’t you worry what they tell themselves when you’re away
It just takes some time
Little girl, you’re in the middle of the ride
Everything, everything will be just fine
Everything, everything will be alright, alright
Hey, you know they’re all the same
You know you’re doing better on your own, so don’t buy in
Live right now
Yeah, just be yourself
It doesn’t matter if it’s good enough for someone else
It just takes some time
Little girl, you’re in the middle of the ride
Everything, everything will be just fine
Everything, everything will be alright, alright
It just takes some time
Little girl, you’re in the middle of the ride
Everything, everything will be just fine
Everything, everything will be alright, alright
Hey, don’t write yourself off yet
It’s only in your head you feel left out or looked down on
Just do your best, do everything you can
And don’t you worry what the bitter hearts are gonna say
It just takes some time
Little girl, you’re in the middle of the ride
Everything, everything will be just fine
Everything, everything will be alright, alright
It just takes some time
Little girl, you’re in the middle of the ride
Everything, everything will be just fine
Everything, everything will be alright”


Smile

“smile, what’s the use of crying?”
interpretação: Nat King Cole
Smile, though your heart is aching
Smile, even though it’s breaking
When there are clouds in the sky
You’ll get by…
If you smile
With your fear and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You’ll find that life is still worthwhile if you’ll just…
Light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That’s the time you must keep on trying
Smile, what’s the use of crying?
You’ll find that life is still worthwhile
If you’ll just…
If you smile
With your fear and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You’ll find that life is still worthwhile
If you’ll just Smile…
That’s the time you must keep on trying
Smile, what’s the use of crying
You’ll find that life is still worthwhile
If you’ll just smile…”

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
 
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
 
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
 
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.”

(William Ernest Henley)

henley

Peito Vazio

Hoje, 05:54h: Tentei diversas vezes vir ao Mantra, dispor do talento e preencher novamente o espaço que aqui se limita, com o ócio criativo que as experiências diárias me dão. No entanto, percebo que o que aqui fica são desprendimentos de mim, de um eu isolado que precisa harmonizar-se. Juntar novamente esses pequenos pedaços aqui deixados para que a existência não pareça tão conturbada.


Hoje, 04:14h: O sono é leve mas a cabeça é pesada. Acordo com preocupações, é um pai que se foi e deixa saudades, imensas. É uma Rafaella de solidão nos limites de um quarto, acompanhada por mãe e irmã aos arredores. Como Cecília, percebe a efemeridade dos momentos e decide ir à sala, deitar ao sofá e perceber a imensidão branca, homogênea e extremamente sutil que caracterizam o teto do apartamento.

Hoje, 06:00h: O dia devagar começa e o Mantra faz bem de novo. Sinto como se ele fosse um amigo inseparável, daqueles em que os maiores desapontamentos sequer são suficientes para causar insatisfação e distância. Lembro de uma frase que ouvi ontem e que preciso me afogar em seu sentido: “Quem enxuga lágrimas não tem tempo pra chorar.

Ontem, 23:58h: “Dorme em paz”, “eu quero ver você feliz”.

Hoje, 06:10h: Cartola aparece novamente e titula esses devaneios. O sono não mostra as caras mas o meu rosto é de cansaço. As luzes das janelas dos prédios vizinhos começam a se acender junto com o sol que ascende e traz uma nova esperança a cada trabalhador, sofrido, solitário, transeunte desajeitado da vida e quem sabe, para mim também.

***

O texto que se seguiu é um devaneio, uma vontade. Não é, assim, um postulado de certeza. Foi escrito baseado na composição de Cartola, Peito Vazio

Da tua fuga

Não é de minha autoria, antes de tudo. Mas diz tanto do que eu queria dizer de mim…

 

“A tua fuga é imanente. É o preço na pele de quem fica, de nós, os que acenamos. A tua fuga é perpétua, é a presença da ausência, é morder a boca ao se comer algo tão esperado e sentir apenas o gosto do sangue; lá está você, mais uma vez, no gesto de quem já vai muito cedo, mais cedo, é preciso chegar mais cedo para, depois, deixar esse outro lugar, e ir a mais outro, (teia do argumento dos teus espectros: ir-se).(Você está na minha vida através da sombra alongada no chão, saco de dormir, bitucas inda quentes, coisas que se atrasaram de você, caíram-lhe dos bolsos, coisas que se atiraram para que eu as abrigasse na minha bolsa, ou que você mesmo lembrou-se de esquecê-las por ali, gentilmente. Minha bolsa é um canguru gestante de vestígios, minha bolsa é um saco de provas, as provas recolhidas de um crime, a porta vai batendo, já dá o horário. O teu.)

A tua fuga é crime perpétuo, a imanência da ausência, plenilúnio dos nossos ensaios de dizermos o que deveríamos ter dito: faz favor, fica mais um pouco, come aqui esta sopa, veja, estávamos só te esperando, fique. Mas você é da família das ondas: junta águas de espécies todas, as movediças, as ardentes, as salgadas, as doces, aquelas águas de banho, águas de poço, moringa, o orvalho. Levanta sobre nossas cabeças, despeja-se, recolhe-se. E nós ainda tentamos beber da tua presença, mas tudo é um naufrágio, nossos rostos salpicados de tuas águas, nossas lágrimas.”