18.03.2015  

sobre a procrastinação

E digo mais: essa é uma reflexão sobre a preguiça.

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The Death of Bara, oil on canvas by Jacques Louis David, 1794

Não tá dando pra levantar sem sentir o peso da má vontade. Todo dia eu acordo com a sensação latente de “não quero fazer”, “não sirvo pra isso”, “hoje não”, como se o destino quisesse rir na minha cara de que o prato que eu devia ter transformado em cacos ainda está mais invencível do que nunca. Entendam uma coisa: eu não sou feita de rotina, muito menos de organização. Listas não funcionam comigo, nem cadernos organizadores, alarmes e notificação nos celulares. O meu problema é maior, muito maior do que ter uma lista de tarefas inversamente proporcional à vontade de fazê-las: a minha procrastinação é crônica.

Ando desmemoriada. O meu cérebro parece deletar as informações que não são tão interessantes (preguiça de pensar, eu diria, até nisso). O que eu comi ontem? Onde a melhor amiga viajou mês passado? O dia que o namorado disse que vai estar indisponível? O local bombardeado? Não lembro. Meus pensamentos procrastinam até a própria sedimentação. Deixa pra depois. Ando esquecida.

As vontades? Estão em segundo plano. Este texto? Não sei nem porque escrevo, acho que é porque é agora, se fosse deixar pra depois ele não seria. Nada aqui está sendo ultimamente. Nada disso faz muito sentido também, pois que agora eu deveria estar procrastinando e não estou, talvez isso seja uma luz no fim do túnel.

Ando sem ânimo. Levantar pra vida está sendo enfadonho, moroso, sem graça. Me chamem de covarde. Por não enfrentar nem a mim mesma, me faço de refém. Refém dessa minha intrínseca maneira de ser não sendo, de só protelar e no final nada sai do jeito que eu espero. Talvez esse será o grande legado da minha vida, deixo tanto pra depois que um dia vou morrer esquecendo.

Estou vivendo a fase do desgosto. Do desgosto que no fundo, é gostoso de sentir. Que vítima de si mesmo não gosta do sentimento de se sentir menor do que tudo? Tudo é mais que o eu. Tudo é maior do que eu posso fazer, então eu não faço. Você me entende? Você consegue entender que o dia que vivo hoje ou o dia que viverei amanhã ou o dia que vivi ontem ou o dia do futuro ou o dia por si só não fazem muita diferença já que, se não posso protelar o tempo, protelo o viver?

Essa é uma reflexão sobre protelar.

Sobre espreguiçar.

Minha vida anda espreguiçada. Parou encostada na sobrevivência. Devo ter até preguiça de sobreviver, o estado de vegetação ainda não me apetece porque a chaga da auto-culpa ainda não foi eliminada. Será esta a minha sina ou a minha salvação? A auto-culpa me levará à redenção que vem da coragem de ser, fazer e viver? Não sei, tenho preguiça de pensar nisso. Deixa pra depois. Ando esquecida.

Isso tudo é tudo isso, ao mesmo tempo que nada é. Pois digo que minto. Isso é sinceridade, ao menos isso. Pode até soar depressivo, se você me lê, mas você há de convir que a sinceridade leva ao primeiro passo de qualquer coisa que se levante, mas se tenho preguiça até de mim mesma, como consigo colocar dois pés no chão sem sentir a pressão nos joelhos?

Você me entende?

Estou me fazendo de desentendida?

A única coisa que não procrastino é a própria procrastinação, já que essa característica parece ter me pegado de jeito como quando a gente pega aquela gripe que não sara ou aquele amor que dói mas aquece o coração. A minha preguiça é minha amante, dançamos nos sonhos a noite e ela me diz doces palavras no ouvido, “vai ficar tudo bem”, “não vejo problema nisso”, “eles não te compreendem”, “no fim vai dar tudo certo”, me enchendo o peito de ilusão e enfraquecendo qualquer outro sentimento que venha a querer lhe combater. Como eu disse, às vezes a auto-culpa duela e vence, mas nada mais é que um joguinho sórdido da preguiça que vê mais contento no mal-fazer que na vegetação, posto que se eu vegetasse ela perderia sua marionete. Daí vou mal-fazendo, mal-dizendo, mal-vivendo, a única coisa bem sucedida que ando presenciando em mim mesma é a própria manifestação da má vontade.

A auto-culpa aparece vez em quando, talvez seja ela dizendo que toda fênix renasce um dia das cinzas e que tudo tem jeito e que tudo funciona se a gente quiser e que querer é poder e que o eu é mais que tudo e que nada é maior que nada e que a preguiça não é minha dona e que a vida não é pra ser não vivida e que os dias que passam não voltam e que essa conduta não leva a nada e que a coragem é só questão de ser da mesma forma que a preguiça é e que eu tenho que ter ânimo e que eu tenho que sair dessa e que eu nem sei porque eu tô nessa e que se a fênix renasce é porque ela assim quis fazer, mas nem sou pássaro, nem ainda cheguei nas cinzas.

Será que a perdição é o viver não vivendo e o ser não sendo ou será a minha salvação eu me esquecer de tudo isso?

08.03.2015  

Todo dia é dia da mulher

Gorda, magra, preta, branca, amarela, esguia, obesa, albina, parda, gay, trans, com DNA XX, com DNA XY, com DNA XO, pelada, vestida, muçulmana, evangélica, agnóstica, ateia, religiosa, umbandista, piriguete, virgem, cabeluda, depilada, blogueira, mal amada, bem amada, resolvida, insegura, carinhosa, medrosa, mãe, trabalhadora, desocupada, sem filhos, alta, baixa, ruiva, morena, loira, do cabelo degradê, freira, puta, solteira, em um relacionamento sério, casada, escondida, aparecida, feminista, conservadora, do dente torto, de aparelho, do sorriso colgate, do dente cariado, atriz, caixa de supermercado, celebridade, motoqueira, encanadora, motorista, pintora, escritora, leitora, analfabeta, do cabelo estragado, do cabelo liso, do cabelo alisado, cacheada, dançarina, presidente, deficiente física, com Alzheimer, avó, tia, prima, sobrinha, filha, vizinha, professora, modelo, jogadora de futebol, princesa, rainha, pobre, com dinheiro, classe média, cientista, pesquisadora, gari, garçonete, publicitária, dá todo dia, dá mais ou menos, dá quando quer, de vestido curto, de burca, de jihab, careca, Down, anã, peituda, sem peito, com silicone, passista de escola de samba, com celulite, com estrias, com manchas, com sardas, com câncer, doente, sadia, atleta, sozinha, solitária, índia, zulu, inglesa, estadunidense, indiana, japonesa, francesa, libiana, paquistanesa, brasileira, apátrida, refugiada, estuprada ( 🙁 ), ativista, hippie, suja, banhada, perfumada, mendiga, dona de casa, violentada, fumante, dentista, caridosa, militante, deputada, sem-teto, florista, doce, meiga, gentil, truculenta, grande, pequena, vadia,

TODO DIA É DIA DA MULHERTodo dia é dia da mulher, até o fim dos tempos. Todo dia é dia de direitos. Todo dia é dia de lutar pelos direitos!

 

31.12.2014  

Um alô antes de 2015

Ufa! Que ano comprido e que passou voando, cruzes! Vivi esse paradoxo, pra vocês também foi assim?

Tô dando um alô da minha terra quente e cheia de muriçoca (aká pernilongo), tentando imaginar o que é que vou fazer na virada do ano. Como essas tradições são especiais né? Mas mais do que festar e escolher a cor da roupa pras celebrações, acho importante começar com o coração cheio de vibrações positivas e pensamentos bons. O coração aberto ao que o mundo tem de bom 🙂

E deixo 2014 com um dos meus textos preferidos da Clarice, um que eu já li tantas vezes que me esqueço outras tantas. Em 2015 quero tentar ser boba assim e quem sabe ficar desse jeito pro resto da vida.
Clarice-Lispector_MUJIMA20120320_0017_31

E que 2015 venha com amor e alegria! Tudo de bom e do bem pra vocês!
Beijo!

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