sobre a procrastinação

E digo mais: essa é uma reflexão sobre a preguiça.

The Death of Bara, Oil On Canvas by Jacques Louis David (1748-1800, France)

 

Não consigo levantar sem sentir o peso da má vontade. Todo dia acordo com a sensação latente de “não quero fazer”, “não sirvo pra isso”, “hoje não”, como se o destino quisesse dizer – ou confirmar – que tudo aquilo que precisa de melhoramentos em mim vai continuar como está. Entenda uma coisa: eu não sou feita de rotina, muito menos de organização. O meu problema é maior, muito maior do que ter uma lista de tarefas inversamente proporcional à vontade de fazê-las: a minha procrastinação é crônica.

Ando desmemoriada. O meu cérebro parece deletar as informações que não são tão interessantes (preguiça de pensar, eu diria, até nisso). Meus pensamentos procrastinam até a própria sedimentação. Deixa pra depois. Ando esquecida. As vontades? Estão em segundo plano. Este texto? Não sei nem porque escrevo, acho que é porque é agora, se fosse deixar pra depois ele não seria. Nada aqui está sendo ultimamente. Nada disso faz muito sentido também, pois que agora eu deveria estar procrastinando e não estou, talvez isso seja uma luz no fim do túnel.

Ando sem ânimo. Levantar pra vida está sendo enfadonho, moroso, sem graça. Me chamem de covarde. Por não enfrentar nem a mim mesma, me faço de refém. Refém dessa minha intrínseca maneira de ser não sendo, de só protelar e no final nada sai do jeito que eu espero. Talvez esse será o grande legado da minha vida, deixo tanto pra depois que um dia vou morrer esquecendo.

Estou vivendo a fase do desgosto. Do desgosto que no fundo, é gostoso de sentir. Que vítima de si mesmo não gosta do sentimento de se sentir menor do que tudo? Tudo é mais que o eu. Tudo é maior do que eu posso fazer, então eu não faço. Você me entende? Você consegue entender que o dia que vivo hoje ou o dia que viverei amanhã ou o dia que vivi ontem ou o dia do futuro ou o dia por si só não fazem muita diferença já que, se não posso protelar o tempo, protelo o viver?

Essa é uma reflexão sobre protelar.

Sobre espreguiçar.

Minha vida anda espreguiçada. Parou encostada na sobrevivência. Devo ter até preguiça de sobreviver, o estado de vegetação ainda não me apetece porque a chaga da auto-culpa ainda não foi eliminada. Será esta a minha sina ou a minha salvação? A auto-culpa me levará à redenção que vem da coragem de ser, fazer e viver? Não sei, tenho preguiça de pensar nisso. Deixa pra depois. Ando esquecida.

Isso tudo é tudo isso, ao mesmo tempo que nada é. Pois digo que minto. Isso é sinceridade, ao menos isso. Pode até soar depressivo, se você me lê, mas você há de convir que a sinceridade leva ao primeiro passo de qualquer coisa que se levante, mas se tenho preguiça até de mim mesma, como consigo colocar dois pés no chão sem sentir a pressão nos joelhos?

Você me entende?

Estou me fazendo de desentendida?

A única coisa que não procrastino é a própria procrastinação, já que essa característica parece ter me pegado de jeito como quando a gente pega aquela gripe que não sara ou aquele amor que dói mas aquece o coração. A minha preguiça é minha amante, dançamos nos sonhos a noite e ela me diz doces palavras no ouvido, “vai ficar tudo bem”, “não vejo problema nisso”, “eles não te compreendem”, “no fim vai dar tudo certo”, me enchendo o peito de ilusão e enfraquecendo qualquer outro sentimento que venha a querer lhe combater. Como eu disse, às vezes a auto-culpa duela e vence, mas nada mais é que um joguinho sórdido da preguiça que vê mais contento no mal-fazer que na vegetação, posto que se eu vegetasse ela perderia sua marionete. Daí vou mal-fazendo, mal-dizendo, mal-vivendo, a única coisa bem sucedida que ando presenciando em mim mesma é a própria manifestação da má vontade.

A auto-culpa aparece vez em quando, talvez seja ela dizendo que toda fênix renasce um dia das cinzas e que tudo tem jeito e que tudo funciona se a gente quiser e que querer é poder e que o eu é mais que tudo e que nada é maior que nada e que a preguiça não é minha dona e que a vida não é pra ser não vivida e que os dias que passam não voltam e que essa conduta não leva a nada e que a coragem é só questão de ser da mesma forma que a preguiça é e que eu tenho que ter ânimo e que eu tenho que sair dessa e que eu nem sei porque eu tô nessa e que se a fênix renasce é porque ela assim quis fazer, mas nem sou pássaro, nem ainda cheguei nas cinzas.

Será que a perdição é o viver não vivendo e o ser não sendo ou será a minha salvação eu me esquecer de tudo isso?

20 dicas para você ser um bom machista

Você aí, ser humano de qualquer espécie, qualidade, gênero, beleza e vontade, que quer andar pelas ruas provando a superioridade dos genes XY, execute todas as dicas selecionadas aqui e você obterá sucesso total em sua missão!

  1. Quando estiver no ônibus/metrô/trem/avião/rua, faça questão de esbarrar sua genitália – seja ela qual for – nas nádegas da mulher mais próxima, apenas para satisfazer seu prazer. (Selecione. Machistas selecionam, se for a sua mãe, não pode fazer. PERMANEÇA NO IDEAL!)
  2. Se ver qualquer mulher na rua, grite sem mostrar qualquer vergonha: “quero te comer, gostosa”. Espere os aplausos machistas depois. You go, bro!
  3. Se qualquer mulher lhe preparar uma refeição deliciosa, agradeça e cumprimente com um convicente e afável “tá pronta pra casar, hein”. (OBS.: Se ela for casada, troque por “não fez mais que sua obrigação”)
  4. Se ouvir uma fofoquinha básica sobre fulano que traiu fulana, comente que o homem procura na rua o que não tem em casa. Os tempos estão mesmo difíceis
  5. Faça questão de pregar a moral e os bons costumes ao ensinar seus filhos “homens heterossexuais do sexo masculino” que “homem não chora”. “Bicha” chora, mas bicha não é homem.
  6. Não se esqueça de abordar que é um DESRESPEITO EM CAPS LOCK homens serem “empregados domésticos”, pelo simples fato de que é “tarefa de mulher” saber cuidar de uma casa.
  7. NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM, dê uma boneca para seu filho brincar quando for criança.
  8. Há uma moça andando na rua, “de saia, de bicicletinha, uma mão vai no guidão e a outra tapando a calcinha”. Aproveite para cantar este mantra enquanto pragueja o quanto as mulheres não se dão ao respeito.
  9. Aproveite! No item 8, pense/diga/aja (depende da corági) no quanto elas merecem ser estupradas por isso. Pode bater também, por qualquer motivo. Cadê o decoro nessa sociedade, cabô?
  10. Uma moça qualquer quer dividir a conta com você. Não deixe (todas as vezes). Já que você não pode impedi-la de trabalhar (dica bônus: se puder, FAÇA), diga carinhosamente que sua renda é para investir em produtos de beleza e emagrecimento.
  11. Sua esposa tem obrigação de transar com você sempre que você quiser. Lembre-se de manter a santidade reprodutora do casamento. Ela está ali ÚNICA e EXCLUSIVAMENTE para lhe satisfazer.
  12. Sexo antes do casamento, oi? Fora de cogitação. (OBS 1: Válido somente para mulheres. Se for homem, MANTENHA-SE NO IDEAL. Ensine suas filhas. OBS 2: Toda e qualquer mulher que não seja virgem entra na categoria: pagã [ou vadia, em 2014])
  13. Ao ver um protesto feminista, NÃO HESITE. Eles estão aí pra te confundir. Poste na sua rede social favorita o quanto as russas ficam bonitas com os peitos de fora e que “mulher boa é mulher calada”. Se quiser aumentar o poder do seu machismo, diga que são “tudo mal comida”.
  14. Aliás, “tudo mal comida” e suas variações é uma frase que você pode usar sempre. Mulher gay? Mal comida. Homem gay? A mãe era mal comida. Reclamou do marido provedor da moral e dos bons costumes? Mal comida. É seu dever fazer elas serem bem comidas
  15. Toda mulher loira é burra. Não há exceção. Se o cabelo for de outra cor também. (OBS.: Não é válido para mães ou avós, só a dos outros.)
  16. Toda mulher é desprovida de capacidade de trocar um pneu de carro, trocar uma lâmpada, montar um móvel, insira aqui alguma tarefa aparentemente masculina. Sempre ofereça sua ajuda. Mas a ajuda não é para ser cordial, é mais um “toma me dá que você não sabe fazer”. E elas não sabem mesmo.
  17. Mulher que não quer ter filhos é um desperdício da existência. Pra quê #ppk se não vai usar? ALGUÉM tem que reproduzir o nome da família (e ler essa lista)
  18. Repita: MULHER NO VOLANTE, PERIGO CONSTANTE. Mulher no volante, perigo constante. Mulher no volante…
  19. https://www.facebook.com/SouMachistaSimEDai/posts/411774815598648?stream_ref=10. LEIA. Não deixe de ler.
  20. Machismo bom é machismo consistente. Repita os passos diversas e diversas vezes. Se alguma mulher titubear ou quiser contestar seus passos, volte ao passo 14 e o refaça.

 

Lembre-se: MANTENHA-SE NO SEU IDEAL. Liberdade de expressão e opressão SÃO a mesma coisa, bro!
Seguindo estes e outros passos você continuará perpetuando os valores da supremacia XY que construíram a nossa sociedade! Não desista, a esperança é a última que morre 🙂

Das pequenas felicidades

Cumprir as novas metas está sendo bem difícil. Deixar de ser onicófaga, organizar a vida, espantar a preguiça e postar aqui regularmente. Daí, a gente percebe que a vida atribulada, a preocupação financeira e a alta carga de tarefas diárias faz a gente ir se esquecendo que a vida é composta de pequenas felicidades. Aquelas não tão efêmeras, mas que no instante do presente nos fazem sentir completos, saciados, risonhos; como se uma chama fosse crescendo no peito, passando pelas cordas vocais para, enfim, sair em um suspiro acalorado: “puta que pariu como eu amo isso“.
Se a sua vida está em falta de “puta que parius” como esses, trate logo de criar uma Happy Life List antes que você chegue naquele momento fatídico de criar uma Bucket List. Mas, antes de elencar as pequenas coisas da vida que nos fazem felizes e então praticá-las, é preciso refletir: você sabe o que é felicidade?

“A felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior.”

Felicidade é um conceito subjetivo, acredito que é a única coisa que podemos atestar. Depende de sentimentos, experiências, emoções, sensações, olhares e concepções de mundo e isso é particular, é íntimo a cada indivíduo. Minha visão de felicidade é muito compartilhada com a visão do mestre Osho, que diz sobre a essência da vida e a  miséria a que nos submetemos. Veja só:

A RECOMPENSA EM FELICIDADE

“A miséria tem muitas coisas para lhe dar que a felicidade não pode dar. De fato, a felicidade tira muitas coisas de você. A felicidade tira tudo aquilo que você sempre teve, tudo aquilo que você sempre foi, a felicidade lhe destrói. A miséria nutre seu ego e a felicidade é basicamente um estado sem ego. Este é o problema, o ponto crucial do problema. Eis porque as pessoas acham muito difícil serem felizes.

Eis porque milhões de pessoas no mundo tem que viver na miséria… decidiram viver na miséria. Ela lhes dá um ego muito muito cristalizado. Sendo miserável, você é Feliz, mas você não é. Na miséria, a cristalização; na felicidade você fica dissolvido. Se isso for entendido, então as coisas ficam muito claras. A miséria lhe torna especial. Felicidade é um fenômeno universal, não há nada especial sobre ela. As árvores são felizes e os animais são felizes e os pássaros são felizes. Toda existência é feliz, exceto o homem. Sendo miserável, o homem se torna muito especial, extraordinário.

A miséria torna você capaz de atrair a atenção das pessoas. Quando você é miserável você é assistido, simpatizado, amado. Todo mundo começa a cuidar de você. Quem vai querer magoar uma pessoa miserável? Quem tem ciúmes de uma pessoa miserável? Quem vai querer ser contra uma pessoa miserável? Isso poderia ser muito maldoso. A pessoa miserável é cuidada, amada, assistida. Há um grande investimento na miséria. Se a esposa não for miserável o marido simplesmente tende a esquecê-la. Se ela for miserável o marido não pode se permitir a negligenciá-la. Se o marido for miserável toda a família, a esposa, as crianças, estão ao seu redor, preocupados com ele; isso dá grande conforto. A pessoa sente que ela não está só, a pessoa tem uma família, amigos.

Quando você está doente, depressivo, na miséria, os amigos vêm visitá-lo, vêm confortá-lo, vêm consolá-lo. Quando você está feliz, os mesmos amigos ficam com ciúmes de você. Quando você está realmente feliz, você vai ver que o mundo todo se voltou contra você. Ninguém gosta de uma pessoa feliz, porque a pessoa feliz fere os egos dos outros. Os outros começam a sentir, “Então você ficou feliz e nós ainda estamos rastejando na escuridão, na miséria e no inferno. Como você ousa ser feliz quando estamos todos em tal miséria!”

É claro que o mundo consiste de pessoas miseráveis e ninguém é bastante corajoso para ir contra o mundo inteiro; é muito perigoso, arriscado demais. É melhor se apegar à miséria, isso mantém você como parte da multidão. Feliz, você é um indivíduo; miserável, você é parte da multidão – Hindu, Maometano, Cristão, Indiano, Árabe, Japonês.

Feliz? Você sabe o que a felicidade é? Ela é Hindu, Cristã, Maometana?

A felicidade é simplesmente felicidade. A pessoa é transportada para um outro mundo. A pessoa não faz mais parte do mundo que a mente humana criou, a pessoa não é mais parte do passado, da feia história. A pessoa não é mais absolutamente parte do tempo. Quando você está realmente feliz, alegre,o tempo desaparece, o espaço desaparece.

Albert Einstein disse que no passado os cientistas costumavam pensar que haviam duas realidades – tempo e espaço. Mas ele disse que essas duas realidades não são duas – elas são duas faces de uma única realidade. Dessa forma ele cunhou a palavra espaço-tempo, uma única palavra. O tempo não é nada mais senão a quarta dimensão do espaço. Einstein não era um místico, senão ele poderia ter introduzido a terceira realidade também – o transcendental, nem espaço nem tempo. Isso também está lá, eu o chamo de testemunha. E uma vez que esses três estão lá, você tem toda a trindade. Você tem todo o conceito do trimúrti, as três faces do divino. Assim você tem todas as quatro dimensões. A realidade é quadrimensional: três dimensões de espaço e a quarta dimensão do tempo.

Mas há algo mais, que não pode ser chamado de quinta dimensão, porque não é a quinta realidade, é o todo, o transcendental. Quando você está feliz você começa a se mover para o transcendental. Isso não é social, isto não é tradicional, não tem nada a ver com a mente humana, de forma alguma.”

Osho, Extraído de: The Book of Wisdom
Fonte: www.osho.com

“Felicidade é um fenômeno universal, não há nada especial sobre ela. As árvores são felizes e os animais são felizes e os pássaros são felizes. Toda existência é feliz, exceto o homem. Sendo miserável, o homem se torna muito especial, extraordinário (…) A felicidade é simplesmente felicidade. A pessoa é transportada para um outr
o mundo. A pessoa não faz mais parte do mundo que a mente humana criou, a pessoa não é mais parte do passado, da feia história. A pessoa não é mais absolutamente parte do tempo. Quando você está realmente feliz, alegre,o tempo desaparece, o espaço desaparece.”
(OSHO, The Book of Wisdom)

E na luta do equilíbrio, de entrar em sintonia com a vida, cito aqui a minha Lista de Vida Feliz. Aquelas pequenas coisas que me espantam a tristeza de forma imediata. Não importa se clichê ou não, a minha Lista de Vida Feliz consiste em me mostrar, sempre que possível, que a felicidade é o que é e eu posso sê-la também. Muito mais do que ter felicidade, sê-la é, apenas, a vivência do que você é, em comunhão com o ambiente.
Depois de tanta filosofia e da revelação dos meus guilty pleasures, a minha lista é composta por (não está em ordem de importância):

  • Friends;
  • Elvis Presley;
  • Jane Austen;
  • Discutir acalouradamente um tema das RIs;
  • Cafuné do namorado;
  • Sorvete de casquinha;
  • Trakinas de morango;
  • Conseguir bordar algo que preste;
  • Poesia;
  • Fernando Pessoa;
  • Assistir desenhos na TV Cultura;
  • Abraço demorado;
  • Andar descalço;
  • Andar de meias;
  • Dormir de conchinha;
  • Mafalda;
  • Matilda;


  • Filmes da Disney;
  • Cheiro de roupa limpa;
  • Pudim;
  • Embonitar;
  • Segurar bebês;
  • Brincar com a Cacau;
  • Fazer xixi quando estou apertada;
  • Ir no asilo aos domingos;
  • Bilhetes escritos à mão;
  • Rir, rir, rir, rir, rir;
  • Cozinhar algo que preste;
  • Dançar de qualquer jeito;
  • Fritar um ovo e ele sair sem defeitos;
  • Ganhar presentes;
  • Tirar uma foto bonita;
  • Mil curtirs em um post meu no Facebook;


  • Cultivar bons amigos;
  • Mensagens de amor no whatsapp;
  • Brigadeiro;
  • Respirar direito depois da gripe;
  • Encontrar alguma coisa perdida;
  • Elogios;
  • Tirar lasquinha de pipoca da gengiva;
  • Cantar músicas sem errar a letra;
  • Pão Francês com manteiga quentinha;
  • Radiohead;
  • Descobrir novas bandas;
  • Clarice Lispector;
  • Macarrão sem culpa;
  • Cheiro de creme no corpo;
  • Mãos macias;
  • Sorrisos, muitos;
A lista não termina e é bom que seja assim, mutável. Pra eu poder adicionar mais coisas boas e felicidades diárias. Assim, lanço aqui um desafio: vai montar sua Lista de Vida Feliz?
Quero saber! 🙂

Sobre o frio

Goiânia está vivenciando baixas temperaturas depois de muitos anos! Nos últimos dias, a média foi 11º e tá todo mundo empacotadinho andando na rua haha. Isso me lembra quando em 2010 morei em Guarapuava – PR e, nessas mesmas condições, tinha gente de calça e camiseta na rua. Lá em Gorpa venta mais e o relevo é mais sinuoso, ou seja, mais ladeiras e mais friaca pra atormentar a população.
Daí eu aqui, de mãos geladas digitando, enroscada num cobertor, penso que o frio faz, realmente, a gente ser um pouco mais melancólico. É mais difícil, fisiologicamente falando, se acostumar num ambiente gelado que num ambiente quente. Mas há quem goste das temperaturas negativas, de poder andar de meia grossa, moletom, casaco e bota. Só que o frio é mais que isso, é mais que roupa quentinha ou um cardápio inusitado. O frio deixa a gente encolhido, carente de sol, carente de abraço. Quando morei pro lado do Sul, Sol, luz e calor eram as coisas que eu mais sentia falta.
Um bafo quente na nuca, poder andar sem parecer cebola. O dia é mais alegre quando é iluminado. A gente anda sorrindo sem medo de um vento frio gelar os dentes. Anda com as mãos soltas pra tocar a vida, sem estarem encolhidinhas dentro das luvas e bolsos. O céu é mais claro, colorido, sai o tom acinzentado e entra no coração da gente mais calor. Já fui mais melancólica, se reparar nos posts desse blog produzidos em 2008, eu ia pedir sempre um dia de frio pra acompanhar a minha misantropia. Há quem goste de um clima meio europeu, em que a temperatura é assim, baixinha, você anda de roupa chique e a neblina dá um ar mais blasé pro lugar. Mas eu te digo que, todo-santo-dia o coração pede uma mão quente que não vem do cobertor.
Faz um frio danado na Finlândia, nem faz Sol direito. Lá eles compram Sol, sabia? Faz um frio de lascar na Rússia, deu 40º esses dias e tem gente que morreu, literalmente, de calor. A vida é engraçada, no frio ou no calor tem sempre alguém se adaptando ou se remoendo ou se desdobrando pra ser qualquer coisa que não isso.
Mas aqui, debaixo do cobertor, de vez em quando querendo tirar as japonas do guarda-roupa e andar de bota, sinto falta do calor. E você, que acha de viver empacotado?

saudações a Madiba

“Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou de sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E, se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar” (Mandela)

Hoje, Mandela completa 95 anos. 18 de julho é o dia do Madiba, dia daquele que lutou pela liberdade num país confrontado por históricos problemas e dificuldades. Madiba é uma das referências que levo em minha carreira, não só pelo posicionamento diplomático mas também porque ele de certa forma diz aquilo que precisamos ouvir. Precisávamos ouvir sobre amor, paz, liberdade e comunhão no Apartheid. E Madiba nos citou as palavras.

Imagem: Céu em Degradê

Em janeiro do ano passado comecei (e não terminei) a ler Conversas que tive comigo, uma compilação das diversas cartas e mensagens enviadas por Mandela a seus familiares, amigos e inimigos durante seu tempo em prisão. Destaco aqui minha saudação a Madiba: poucos são os líderes que permanecem no coração e mente de um povo. Poucos são aqueles que inspiram gerações. E esse trecho de carta é, sem dúvida, uma de suas maiores contribuições para as minhas reflexões.

“(…) a cela é um lugar ideal para aprendermos a nos conhecer, para se vasculhar realística e regularmente os processos da mente e dos sentimentos. Ao avaliarmos nosso progresso como indivíduos, tendemos a nos concentrar em fatores externos, como posição social, influência e popularidade, riqueza e nível de instrução. Certamente são dados importantes para se medir o sucesso nas questões materiais, e é perfeitamente compreensível que tantas pessoas se esforcem tanto para obter todos eles. Mas os fatores internos são ainda mais decisivos no julgamento do nosso desenvolvimento como seres humanos.
     Honestidade, sinceridade, simplicidade, humildade, generosidade pura, ausência de vaidade, disposição para ajudar os outros – qualidades facilmente alcançáveis por todo indivíduo – são os fundamentos da vida espiritual. O desenvolvimento de questões dessa natureza é inconcebível sem uma séria introspecção,, sem o conhecimento de nós mesmos, de nossas fraquezas e nossos erros. Pelo menos – ainda que seja a única vantagem – a cela de uma prisão nos dá a oportunidade de examinarmos diariamente toda a nossa conduta, de superarmos o mal e desenvolvermos o que há de bom em nós.
       A meditação é diária, de uns 15 minutos antes de nos levantarmos, é muito produtiva nesse aspecto. A princípio, pode ser difícil identificar os aspectos negativos em sua vida, mas a décima tentativa pode trazer valiosas recompensas. Não se esqueça de que os santos são pecadores que continuam tentando.”

(fragmento de carta para Winnie Mandela, escrita na prisão de Kroonstad. 01.02.1975)

Vem cá

vem cá, vamos conversar

me fala da sua vida, 
do que você mais gosta de comer
da sua cor preferida, 
no que você pensa quando vê o mar
você quer viver de quê? 
quer viver porquê? 
me diz se você sabe dançar, 
se você sabe que o seu coração é do tamanho do mundo

conversa comigo, 
fala pra mim dos seus anseios,
me diz quem é que conta seus passos, 
me diz seu café da manhã do ano passado e 
diz que é comigo que você quer acordar

fala pra mim que cheiro tem sua roupa,
que brinquedo foi o seu predileto
qual seu voo, sua escada
qual  é o gosto da vida na sua pele cansada
qual seu medo

vem cá, me diz qual a sua razão
me mostra a sua letra na sua carta de amor
me diz que amanhã o dia é bonito
e que nossa conversa vai durar o instante do presente
do segundo trocado
da verdade sentida
da voz na sua melodia
e da mão a escrever a história 
de quem tem muito a dizer no silêncio das almas.

Poema para Rafaella


“querida Rafaella
você é tão bonita
que quando você vem
eu olho pela janela
tudo rima com ela
até siriguela
e se você não gostar desse poema
eu te corto a guela”


(LIRA, Eduardo. 25/12/2012)

Dos meus presentes de Natal mais sinceros.



Saudade

…..Hoje é Dia da Lembrança, ou mais precisamente, Dia de Finados. Mas não é pela data, necessariamente, que tenho saudades. É pela dor no peito, pelo sorriso no rosto, pelo saudosismo da vida que eu sinto. Esse texto é uma homenagem àqueles que tive a felicidade de compartilhar mais de mim e receber amor em troca; uma recordação de quem tem falta e tem carinho mas não sente tristeza, não sente dissabor. Esse texto é a agonia da distância ao passo que é a calmaria da presença. 

…..Esse texto é um álbum. E por ser assim, não possui legendas nem explicação. Esse texto é a minha vontade do abraço, da conversa, da risada e do chorar junto. É a vontade de estar perto estando longe. Esse texto é eu comigo, eu com você. É um agora, um passado e, quem sabe, um futuro. Um futuro feito de nós, pois a saudade não acaba com a presença. São opostos contemporâneos. Esse texto é a vida, é a memória. São fotografias dispersas mas emocionadas, ligadas por um fio do tempo, uma energia afim, uma construção de algo. Esse texto é um pedaço de mim.

…..É um eu, apenas.

*As imagens foram retiradas por maior privacidade.

Carta ao desconhecido

Algum lugar, algum dia, algum ano.


Querido,


….Como numa falta de objetividade tamanha e numa vontade absurda de alcançar uma genialidade que não me pertence, num surto de incompreensões, é meus devaneios; embora tudo fosse surpreendentemente magnífico, é especial de uma maneira que me toca o sentimento, um pequeno sopro de carinho notável que transforma o que penso de mim, meus valores, em místico vão de divagações e expectativas. Tão pequeno, tão imperfeito.
….O fato é que é sempre bom sentir ou expressar um sentimento de reciprocidade, um modo de pertencer e entregar sensações de uma mente desfocada, perplexa e submersa em sorrisos e vontades. Aproximar-se da epifania e do prazer que trazem um dia ensolarado.
….Surgiste de uma maré de dúvidas, num pátio de sintonia melancólica como agora habitante de meus pensamentos mais distantes. Aprecio ter-lhe perto, em carinhos pequenos e tão significantes. Há em seus olhos escondidos algo que, no entanto, me frustra e ao mesmo tempo socorre, fascinante. Sinto-me frágil como um pequeno vaso decorado colorido que se quebra diante da força do vento; a racionalidade, os fixos conceitos cedem lugar a mãos trêmulas e suspiros frequentes.
….Desejo ser em ti uma gota de felicidade, que num dia vazio e em sua solidão peculiar minha vontade de lhe tirar um sorriso bobo fosse merecedora. Uma lembrança que permanece latente, viva, sempre.
….Lhe mando pequenas coisinhas que a mim pertenciam, objetos que fizeram parte de mim e que tem significado emocional considerável. Sei que a você não terão utilidade que não apenas ter em mãos pequenos fragmentos de uma menina-mulher, mas desejo compartilhar contigo mais de mim. Completará mais um ciclo de vida em breve e me agrada saber que ainda desejo imensas felicidades. Apesar do que venha a acontecer, gostaria que sua existência fosse carregada de novidades, novas lembranças e novos sorrisos.
….Sentirei-lhe falta quando voltar, percebi que havia me acostumado a saber que lhe tinha a metros distante. Estará sempre à minha memória como pedaço de mim, “metade exilada de mim”. Quando retornar, lembre-se que o passado não sentencia o futuro, o presente deve ser ardente como fulgor de primavera.

Adeus,
PS: Sinceras desculpas pelas emocionadas lágrimas, a cada dia que passa lhe desconheço mais e o escuro me dá medo…


Texto escrito em Julho de 2008