Da tua fuga

Não é de minha autoria, antes de tudo. Mas diz tanto do que eu queria dizer de mim…

 

“A tua fuga é imanente. É o preço na pele de quem fica, de nós, os que acenamos. A tua fuga é perpétua, é a presença da ausência, é morder a boca ao se comer algo tão esperado e sentir apenas o gosto do sangue; lá está você, mais uma vez, no gesto de quem já vai muito cedo, mais cedo, é preciso chegar mais cedo para, depois, deixar esse outro lugar, e ir a mais outro, (teia do argumento dos teus espectros: ir-se).(Você está na minha vida através da sombra alongada no chão, saco de dormir, bitucas inda quentes, coisas que se atrasaram de você, caíram-lhe dos bolsos, coisas que se atiraram para que eu as abrigasse na minha bolsa, ou que você mesmo lembrou-se de esquecê-las por ali, gentilmente. Minha bolsa é um canguru gestante de vestígios, minha bolsa é um saco de provas, as provas recolhidas de um crime, a porta vai batendo, já dá o horário. O teu.)

A tua fuga é crime perpétuo, a imanência da ausência, plenilúnio dos nossos ensaios de dizermos o que deveríamos ter dito: faz favor, fica mais um pouco, come aqui esta sopa, veja, estávamos só te esperando, fique. Mas você é da família das ondas: junta águas de espécies todas, as movediças, as ardentes, as salgadas, as doces, aquelas águas de banho, águas de poço, moringa, o orvalho. Levanta sobre nossas cabeças, despeja-se, recolhe-se. E nós ainda tentamos beber da tua presença, mas tudo é um naufrágio, nossos rostos salpicados de tuas águas, nossas lágrimas.”


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