Ensaio sobre o casamento

Tenho me observado pensando nesse assunto diversas vezes durante a semana. Não significa, necessariamente, que eu queira me casar no momento, mas tão somente o fato de que minhas visões andam mudando em relação a esse tópico.

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Eu sou a favor da união matrimonial, das variadas formas existentes e possíveis. Não entrarei no quesito monogamia X poligamia, isso é assunto para uma outra reflexão, rs. Sempre achei que quando duas pessoas entendem que o sentimento é tão forte que se quer conviver junto todos os dias e compartilhar desejos, problemas, ambições e afeto, a união matrimonial (seja ela registrada legalmente ou não), é uma consequência natural.

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Acreditei que o mundo moderno, com suas relações complexas de relacionamento, estivesse minando essa união. Nunca se houve tantas brigas causadas por tempo-de-espera-maior-que-10-minutos-no-msn ou por fotos e comentários difundidos no facebook, twitter, ou outras redes sociais atuais. Também pensei que, eventualmente, eu nunca iria me casar. Ou ter filhos. A responsabilidade que se observa no papel passado, na convivência diária, no fazer valer o compromisso, não é bem vista por todo ser humano, ainda. Contudo, não eram esses os motivos que me faziam não me imaginar casando. As palavras-chave são: renúncia, liberdade e sentimento.

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Quando se tem um relacionamento estável com alguém, suas noções de relacionamento se modificam, é claro. Quando se é solteiro (ou solitário), a percepção de vida-a-dois limita-se a formar opiniões com o que se ouve dizer, o que se vê acontecer e o que se sente em relação a isso. Digo solitário pois é possível se sentir assim mesmo estando em um relacionamento afetivo.

Foi observando a minha mini-vida-a-dois que percebi as minhas mudanças de sentimentos e opiniões. E acho isso absolutamente incrível. Eu, tão turrona e difícil de dobrar certas vezes, me vi mudando num assunto que desde pequena sempre fora o mesmo. Enquanto as coleguinhas sonhavam com o príncipe encantado no cavalo branco (porque, na época, nossas referências eram os contos de fada e os desenhos mais inocentes na TV), eu me imaginava mandando.

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Sim, mandando. Mandando num apartamento chique, com os móveis colocados da forma como eu achasse melhor, se possível tudo verde e cheio de girassóis; mandando num cardápio saudável: só tomaria refrigerante nos fins de semana; mandando na minha vida profissional, porque meu pai me ensinou que “mulher não deve ficar debaixo da asa de homem”, deve ser independente; mandando em mim, me policiando, me dizendo o que é certo, o que é errado, o “não faz isso que você chora só de ver”; mandando na minha vida pessoal: eu ia ter um namorado fixo, pra me dar bombons com recheio de coco com leite condensado, mas ele “não vai morar comigo porque eu não gosto nem de dividir coberta, vou dividir meu apartamento chique?”

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Daí, as três palavras aparecem no momento em que eu vou crescendo e tendo maturidade para entendê-las além do dicionário:

  • Renúncia – Ato ou efeito de renunciar. Desistência. Ato de se recusar aquilo que se tem direito. Ato de abjurar, abnegar.
  • Liberdade – Autonomia, espontaneidade de um sujeito racional. Elemento qualificador e constituidor dos comportamentos humanos voluntários. (Definição do wikipédia mesmo, para não aprofundar nas mil análises da polêmica palavra)
  • Sentimento – Informações sentidas causadas por situações experienciadas pelos seres biológicos, como exemplo: medo, felicidade, alegria, amor, ódio, tristeza
Num relacionamento qualquer, seja ele fraterno, inimigo, amoroso ou até sem explicação, essas três benditas palavras surgem tão constantemente que não se percebe. Um relacionamento sem renúncia, sem liberdade (em seus variados significados, mas, essencialmente, aqui, sentida), sem sentimento, pode existir, mas não funciona da maneira como se gostaria.
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Aprendi que a renúncia aparece desde bem menos que, por exemplo, ir ao lugar que não se gosta para agradar ao outro. Renuncia-se a si mesmo, diversas vezes. Dos defeitos, das qualidades, da posição de eu, de ser, de indivíduo. Do que mais dói, do que mais alegra, tantas vezes. E isso é, novamente, absolutamente incrível. Como poder deixar de lado a si mesmo em prol da felicidade do outro? Como viver renunciando pedacinhos de si para que um outro ser se encaixe?
Renunciar a liberdade? Sem entrar no mérito cartesiano de que liberdade é razão, sim, se renuncia. Mas se é livre, também. Ou ao menos deveria-se ser. Um bom relacionamento, daqueles que te dão borboletas no estômago, te liberta. Das amarras de si próprio, do azedume da alma, da cor cinza da solidão. Mas te prende, te ata as mãos.  A linha tênue entre ser livre e ser escravo não era tão bem refletida por mim, hoje eu penso mais sobre. Como ser livre para pensar e ser um indivíduo, com suas necessidades particulares, e ainda incluir um outro na sua liberdade? É liberdade, não é?

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Quando se faz tudo isso, ou o não-isso, se sente. Informações são processadas de forma a nos fazer ter sensações além dos 5 sentidos básicos e guardar na memória as consequências que isso trouxe, de bom ou de ruim. Sentimentos são necessários para se ter verdade, outra palavra importante sobre a qual tenho refletido. A verdade do ser fidedigno consigo e com a realidade do sentimento, a verdade da transparência da sensação. Sem isso, um casamento é de fachada.

Casamento é união. É casar as três palavras e fazê-las conviverem juntas: renúncia, liberdade e sentimento. E coloquem aí a verdade.

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Saber dosar isso tudo durante a convivência, né brinquedo não. Por isso, refletindo todos esses fatores e outros tantos, resolvi que quero sim, casar, um dia. Quero sim passar um papel e firmar com minha assinatura a fidelidade que já me propus, o amor a que me dispus e as 3, 4 palavras que tenho que aprender. Sabe aquilo de aprender com o outro a ser melhor consigo mesmo? Um tanto egoísta, nem tão abnegado, mas tão verdadeiro.

Não exagerar na renúncia, nem na liberdade, mas sim no sentimento bom. Naqueles que deixam a gente pra baixo, parcimônia (um dia eu aprendo). Comemorar o fato de se achar alguém que se encaixe,  que se possa compartilhar a si mesmo, as conquistas, os fracassos. Viver de dar beijinho, dormir de conchinha, brigar demais e reatar mais vezes ainda.

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E tem que ser vivendo na mesma casa, para o desafio ser maior. Bem diferente do que eu já imaginei (eu lá, ele cá, MEU apartamento chique). Não precisa-se comungar os bens, só precisa comungar o amor e a vontade e as três palavras e a vida e as lágrimas e os sorrisos e as besteiras e os videogames e os chocolates de coco com leite condensado e a cama e o café da manhã e o almoço e a janta e o cotidiano e os afazeres e as compras e as contas e o sexo e os beijos e os abraços e as dúvidas e o sofá e a televisão e a vida nas redes sociais e os álbuns de foto e o chuveiro e a mobília e a família e muito mais.

Só a coberta que eu ainda não sei se vai dar pra dividir…

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Todas as fotos foram retiradas de diferentes autores, no Flickr.

Uma resposta para “Ensaio sobre o casamento”

  1. Anita disse:

    Poxa, que bacana! Não sabia que você também tinha um blog! 🙂

    Eu já quis me casar quando era mais nova, e depois não quis mais, e por aí vai. Hoje, mesmo morando com o Michael, eu não tenho tanta vontade de casar, agora. Quer dizer, eu tenho, só pela festa e por usar um vestido maravilhoso! Hahahaha..

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